Cachorro
morto
Pisando dentro da área adversária, quero
saber de humilhar pessoa que já está derrotada, bater em gente já vencida,
tripudiar sobre quem já foi punido, chutar cachorro morto ― eu?
Jamais chutei cachorro morto que achei
pelo caminho, não por me ter projetado em qualquer ser atropelado pelos trens descarrilhados
do mundo, independentemente de quem seja o maquinista, ou adversário poderoso
ou combatente arguto ou besta quadrada que se assenhora um bambambã.
Espero ter-me feito entender: não visto
a carapuça para esconder-me como senhor, macho ou outro babaca envaidecido pelo
poder que atribui a si precisamente por identificar-se como senhor, macho e
mais um babaca a se achar o tal.
Pelo babaca que julga ser, puxo-lhe o
tapete, zombo da sua queda e publico a imagem; assim mais gente rirá, muito
mais gente vai querer puxar tapetes e, pela alegria de haver provocado o
ridículo, muitíssimo mais gente poderá manifestar o desejo de puxá-los.
Em outras palavras, subscrevendo-se esta
visão da vida, o jogo até pode valer três pontos, mas ganhar o dia com riso e
alegria deixa mais leve a cabeça da gente no travesseiro.
Dentro da área adversária, mas testando
de cabeça no contrapé do goleiro, esse gol gera uma onda de satisfação que nem
seria boa coisa frear, bom mesmo, pois, é soltar-se na comemoração pelo feito.
O feito? Ora, isso é o bem-estar
superando senões, é o dia ganho, é o beijo da pessoa amada, é o bife acebolado
em vez de ovo, é sonhar com a bola alçada, o olho aberto, a cabeçada certa, o
grito que escapa porque não tem de segurá-lo, é a corrida pro abraço, é o time
contente com a jogada bem trabalhada, finalizada como precisava ser.
Sem trocar 6 por 1/2 dúzia, gol é realidade
tornada sonho.
É óbvio que o gol tem que ser valorizado
pelo que é, pois a maioria das jogadas não chegam a êxito, ou por falhas nossas
ou pela eficácia da outra equipe.
Pra que as nossas deficiências não
continuem gritantes, treinamos. A equipe técnica nos treina para tirarmos
proveito das deficiências do próximo oponente. Ensaiamos jogadas, antecipamos
reações, damos o devido peso ao que haveremos de trabalhar, vamos a campo
cientes do que deveremos fazer.
Por que preparados, obteremos a vitória?
Ainda que o gol demore a sair,
insistiremos. Quando ficar evidente que a jogada pode ser feita melhor, repetiremos.
Acreditaremos que o gol só depende da gente. Quando não mais, trocaremos; e
repetiremos até que o gol saia.
E o gol só depende de nós? E bandeirinha não conta? E árbitro não entra no cálculo? O VAR não contribui pro prejuízo?
Nas partidas em que o apito fala mais alto, bom é jogá-las pensando na vaquinha da breja, uma vez que isso de apelar para o VAR é coisa da elite.
Putisgrila!
Na várzea da vida, artilheiro zica é quem
nunca deixa de ser vítima de palhaçada toda vez que a marca da cal não é apontada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de setembro de 2024.
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