domingo, 15 de setembro de 2024

Apagão

 

Apagão

 

O título pode ser enganoso ao paulistano que me lê, porque não há referência às seguidas quedas do fornecimento de energia elétrica na capital de São Paulo.

Esperançoso de que a leitura possa causar menos irritação, ou ao menos produza algum efeito calmante, abro a picada pela qual desejo muito transitar sem me ver abandonado pelo caminho.

Na trilha que traço, aponto a um de meus predicados positivos que é a tolerância: ainda que mais de um disparate seja dito, não bloqueio o fluxo; caso, ao fim e ao cabo, a sequência não leve a uma conclusão que convença, tolero-me detetive que se debruça sobre os passos.

Tolerante e atento, se a conclusão lógica não vem à tona, ou venho do início ou parto do fim, até que a precisão do conjunto tenha menos incoerência que a minha precipitação quer impingir ao trajeto feito.

O irracionalista sou eu, pois a vereda percorrida possibilita entendê-la inteligível, compreensível e, me contrariando absurdamente, lógica.

Contrariado por atinar que a conexão dos argumentos desconexos revela que a razão, por hábitos adquiridos e vícios cultivados, pode ter-me cegado, opto pelo silêncio de quem escuta, não por respeitar quem vomita besteiras como se me alimentasse pelos ouvidos, opto escutar porque não sou andorinha em ninho de chupim.

Quando a gengiva está anestesiada, também me pego calminho e, sem que me ocupe de mim a ouvir o que é dito, sinto que estou pronto para ouvir e ouço.

― A senhora tem certeza, agendo pra sexta?

― Pode marcar, pois não vejo problema que seja sexta.

― Ele virá mesmo sabendo que é dia 13?

― Quem tem estudo não liga pra superstição, pode marcar.

― É dia de azar, doutora, marco mesmo assim?

― Não queira debater, marque logo a consulta, pois eu garanto que ele virá sem nem saber que dia é.

― O horário vago na parte da tarde é 16 horas.

― Ótimo! Justo no horarinho que ele mais gosta de vir, às 16.

― Não é por gosto, doutora, é porque ele não tem como vir antes.

― OK. Vamos acreditar que ele faz o que diz fazer: que pela manhã tem as compras no mercado, vai à farmácia mais próxima pouco antes do almoço, almoça no horarinho de sempre, depois ele tira a meia hora de sesta, em seguida vem o banco e só quinze minutos para as quatro é que ele pode vir, para chegar cinco minutos antes da consulta. Então, a sua rotina é a mesmíssima todo santo dia? Por Cristo, que não!

― Doutora, a senhora acabou de confirmar que ele é bom paciente. Ele chega cinco minutos antes da consulta. E tem mais, ele bebe água mesmo que não esteja gelada, não pede pra mudar de canal ainda que a TV esteja sem som, não pede que eu atenda o telefone quando estou jogando. É ótimo cliente, doutora, pois sempre foi de pagar no ato: feito o serviço, não pede desconto nem quer parcelar, paga tudo no débito.

Assim que minha boca torta permitir, por ordinário, darei à elegância a discórdia de fiar-me esperto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de setembro de 2024.

Nenhum comentário:

Postar um comentário