quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Sua vez

 

Sua vez

 

Em razão do cheiro, da fuligem, dessa neblina que não é neblina, o dever de cada um, presentemente, é não ir às ruas por besteirinha, que só convém sair quando insofismavelmente precisar de colírio, inalação ou um pote de napolitano.

Uma pessoa sensível, todavia, percebe que não basta trancafiar-se em casa, ela sente ser preferível escutar-se, impreterivelmente quando lhe é sussurrado que, assim como fazer compras em shopping não tem graça sem a boa briga por uma vaguinha no estacionamento, ver TV e tomar sorvete casam bem.

Vivenciar um casamento harmônico é fundamental para o equilíbrio psíquico, ou haverá acentuada decepção com a realidade.

Pra que o trigo seja colhido, moído e pão, macarrão e biscoito sejam fabricados, a indigitada que vê TV dando as suas colheiradazinhas não pode se sentir decepcionada, então, sejam mostradas, reiteradamente, as chamas da Amazônia, do Pantanal, de canaviais sudestinos.

Em caso de decepção, a pessoa procure contato com outras, entre numa comunidade de gente decepcionada, mas só entre em grupo de gente que mantém a esperança de conservar-se decepcionada, sem a tentação de configurar-se frustrada, pois frustação acorda demônios.

Há demônios que engendram na gente a imobilização, a indiferença e o paquidérmico consumo de potes e mais potes de sorvete, incutindo na mente que colheradas de napolitano dão sustância a quem combate efetivamente as queimadas com o sopro de suas entranhas, deles, dos referidos demônios.

Portanto, põe cuidado!

Seja uma pessoa ardilosamente inteligente, só tolere ser aceita em comunidade cujas apreensões sejam, prioritariamente, o aquecimento global, a devastação ambiental e a hiperglicemia.

Certo de que não basta assinar nem propor abaixo-assinados, diga o que sente, grave vídeos, torne públicas as suas indignações de quem se preocupa com pessoas tomadas pela euforia da raiva e pelo frenesi do ódio, coisa de gente asfixiada em tanta efervescência negativa.

Não arda por dentro, não vire fumaça.

Se tem um pedido, faça-o. Caso o Sol não atenda, ainda que tenha sido feito em bom português, assim, fácil de ser entendido, aprovado e executado, torne a fazê-lo. Insista, continue pedindo, porque as forças arrebatadoras da Via Láctea querem empenho, convocam a força da mente, e esperam o ânimo que faça o mar levar as nossas basuras pra Grande Ilha de Plástico do Pacífico.

Bacataré, basuras são as sacolinhas do supermercado, os potes de sorvete, o comprovante fiscal dos potes comprados e o comprovante do valor pago com o cartão de crédito.

Mantenha o crédito, ore. Capriche na oração, pois seus pedidos são simples: já que o Sol é brasileiro e brasileiro nunca desiste, peça que o calorão não vire chuva preta, ore pra saliva impregnada de napolitano possa resfriar o céu da pátria neste instante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de setembro de 2024.


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