terça-feira, 3 de setembro de 2024

O candidato perfeito

 

O candidato perfeito

 

Engana-se quem acredita que o candidato perfeito é aquele que tira foto beijando criança de colo porque ela representa a inocência.

A ideia de que criança de colo é a inocência de quem não se sujeita a condicionamentos sociais e econômicos, como se os tutores legais fossem responsáveis pela ambivalência de conservar a pureza da alma desse ser que precisa aprender a sujar fraldas e não o colo de quem o carrega, principalmente quando estão fotografando.

Quem assim o crê, engana-se, uma vez que o beijo não implica em compromisso com a transformação da realidade, ou seja, beijar criança de colo não ajuda na redução das desigualdades socioeconômicas que submetem pais, avós e candidatos.

O beijo do candidato na criança de colo não será visto como um ato inocente, mesmo que a foto não registre um ato inocente, mas seja um flagrante do ato amoroso do candidato beijando o próprio filho de colo, apesar do santinho colado no lado esquerdo do peito.

A foto não é pai beijando filho; a imagem mostra que um candidato que beija uma criança de colo é um candidato beijando uma criança de colo, ainda que seja o candidato que beija o próprio filho carregado em seu colo de pai.

É preciso ampliar a leitura dessa foto de candidato beijando criança de colo: que o candidato é pai, a criança de colo é seu filho e a imagem precisa ser validada como registro autêntico do candidato perfeito.

Não se engane, candidato ideal não é candidato perfeito.

Esta confusão ocorre porque o leitor da foto quer se identificar com o pai que beija o filho, ainda que seja candidato e esteja em campanha, quando imagens precisam ser registradas e que tais registros revelem a verdade que há de ser compreendida na sua inteireza, de candidato que posa de pai porque é pai.

Por verdadeira, a imagem do candidato que é pai beijando a criança de colo que é seu filho pede ampliada a leitura, que o leitor da foto nem sinta que a foto é lida pelo viés do eleitor.

Todo eleitor tem ansiedades inegociáveis e precisa delas para que, ao notá-las defendidas em quem lhe pede o voto, produza a necessária identificação.

O eleitor identifica-se com um candidato que beija a criança de colo desde que seja imaginado como pai ideal, aquele que há de lutar pelo bem-estar da criança de colo que é mesmo o seu filho, pois isso há de acarretar a luta pelo bem-estar de toda criança de colo que nem seja o seu próprio filho.

O candidato perfeito, entretanto, não precisa ser chancelado como quem luta para garantir colo a seu filho e aos filhos de quem o eleja, já que cabe ao eleitor reconhecer a sua responsabilidade pelo espaço no colo de quem se dispõe a embalá-lo.

Este eleitor, no fundo, é quem sente que precisa votar, ainda que a sua infância ainda não lhe dê a figura do pai a beijá-lo feito o candidato a lhe beijar pela criança que é.

Vota consciente quem pede colo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de setembro de 2024.

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