domingo, 29 de setembro de 2024

Atendendo a pedidos

 

Atendendo a pedidos

 

Para não me aborrecer, voltarei para casa.

Oferecem que eu passe na frente porque os meus cabelos brancos não disfarçam a condição, a de ter virado pessoa de idade provecta à gente trintona que se orgulha do reconhecimento gentil de estabelecer-me como mais um velho coroca a atravancar-lhe o caminho.

― A minha lentidão não é da conta de ninguém.

Em ônibus lotado, insistem que não é opróbrio algum tomar assento em lugar oferecido, uma vez que um ser humano envelhecido, e capaz de bazofiar, não tem que provar a resistência muscular que diz ter.

― Deus! Se eu tenho que caminhar do ponto até o sofá, os pulmões me pouparão de perrengues nos cem metros.

Como tem gente que pontifica que o mundo é palco a ser ocupado diuturnamente, ou seja, só artista amador reclama folga no instante de mais brilhar que ser ofuscado, eis que um cotovelo vai abalroar-me no nariz, um pisão vai acordar-me um calo e o olho na nuca não o esbalda por me harmonizar bailarino em performance capoeirista.

― Nos embalos de todo dia, travolteio que é espantoso!

Quiçá fosse interessante que amanhecesse chovendo, eu ficaria na cama até mais tarde, brincaria que a terra do quintal chama para pisá-la, que eu gostasse de me sujar, ou nada disso, eu fechasse a janela, lamentasse que chovia, que a lama do quintal nada tem de medicinal, terapêutica ou junguiana, eu sujaria meus pés, e, com tanta coisa para fazer, seria decepcionante a chuva cair, quem sabe eu me apressasse, quisesse andar na chuva, se ela cair, quiçá fosse o estimulante que me faça apressar, incomode e eu escape de vez.

― Minha estupidez me faz atenuar o que seja conflitante.

A inteligência das pessoas é atraente, não as pessoas inteligentes que optam pela mediocridade de agradar a si mesmas.

― Caraca! Mesmo sem dor de cabeça, não fico numa boa.

Essa é uma paixão que me perturba: quando sinto que não preciso sair e saio. Minha resistência é fraca, e saio. Nada de ficar em casa só porque não está chovendo, porque o boleto que vai vencer tem que ser pago uma semana antes. Fico apaixonado, me faço a crueldade de sair sem ser preciso, apenas pro calorão me secar a boca, eu seja punido por não usar chapéu, boné ou solidéu.

― Putz! A fome aperta quando eu sei que é meio-dia.

Falam que o pagamento deve ser feito na saída, marcam os preços do quibe, da esfiha e do espetinho de frango, desmentem que seja de graça o refrigerante, que as redes sociais querem tumultuar, a padaria depende do movimento, os empregados precisam trabalhar, o dono da padaria é um cara muito responsável.

― Cometi a idiotice de falar mal de mim na minha presença.

Se fizesse sol, não sairia. Se estivesse chovendo, não sairia. Mas, tirei o pijama, vesti a bermuda, descalcei os chinelos, calcei tênis, tudo para não me proibir de ficar em casa ou não ter que decidir o que seja, até emburrar à janela de casa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de setembro de 2024.

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