Fogo
insaciável
Vim parar aqui depois de ter empacado.
Estou travado pela falta do que contar;
acho-me inseguro quanto ao modo de contar o que a falta do que contar produz em
mim.
Embanana-me pensar de que maneira
poderei desvencilhar-me do embaraço de estar sem assunto para cronicar; saio
andar.
Sigo a esmo pelas ruas. Paro nas
esquinas, em todas elas. Ouço o canto do joão-de-barro; zanzo sob as árvores. Canta
outra vez o joão-de-barro, apuro o ouvido, concentra-me achá-lo. Porque não
consigo vê-lo, volto a andar a esmo, mas para longe da pracinha. Torno a ouvir
o canto do joão-de-barro, volto a querer achá-lo. Quero encontrar a sua casinha;
porque seria retroceder à pracinha, não vou atrás dela.
A lanchonete não é a minha casa nem há
gaiolas em suas paredes. Apesar de não ser nem isso nem aquilo, o corpo não
questiona o meu espírito, que outra vez me põe sentado na cadeira, na mesma
cadeira que novamente me deixa ver o salão da lanchonete, todo ele.
Para não ocupar a mesa como um vagabundo
ocupa um banco de praça, peço um x-bacon, um guaraná e uma porção de fritas.
Sem imprevisto que desagrade ou aborreça,
o almoço vai bem.
Prudente, não pedi salada porque sempre
me ocorre de haver um bichinho verde a serpentear na folha de alface. Também acho
horrível sentir grãos de areia numa concha de feijão. Não sou imbecil para que me
chateie morder o xis e aliviar o salgado da batata com o refri, pois sei que
posso almoçar bem se não pensar nisso.
As pessoas comem. Com o telefone a um
palmo do nariz, engolem o que nem percebem o quanto mastigam. As pessoas nem
precisam entender que vão sendo alimentadas pela realidade que a tela de um
celular torna admirável. Mastigando ou não, não se encantam que vão sendo
alimentadas por abismos admiráveis.
― Paloma, você precisa me passar as
notícias mais frescas sobre o apocalipse zumbi. Não banque a espertinha pra
guardar só pra você, pois amiga de verdade não faz isso. Por que você é amiga
de verdade ou, Deus meu!, você resolveu jogar areia nos meus olhos?
Eis uma pessoa que se delicia em ser desagradável.
A pessoa que fica contrariada quando
outra dá a entender que pode escolher o quê compartilhar ou quando
compartilhá-lo é o tipo de gente que precisa ser contrariada, uma vez que ela
se irrita quando se coloca no lugar de quem é posto de lado.
Essa pessoa desagradável quer fofocar
como se estivesse dizendo que ama a democracia, mas ela não deve ser censurada.
Para se sentir afagada, cobra transparência a quem se apresenta como gente
amiga. Sem a necessidade de confrontar censores, é democrata porque posta que
só imbecis ateiam fogo no campo. Embora as queimadas ocorram em vinte e cinco
dos vinte e sete estados brasileiros, diz que não fuma, não tem isqueiro na
bolsa nem fósforo na cozinha, pois o seu fogão de seis bocas e o seu micro-ondas
bivolt gozam de acendedor manual.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de setembro de 2024.
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