quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Fogo insaciável

 

Fogo insaciável

 

Vim parar aqui depois de ter empacado.

Estou travado pela falta do que contar; acho-me inseguro quanto ao modo de contar o que a falta do que contar produz em mim.

Embanana-me pensar de que maneira poderei desvencilhar-me do embaraço de estar sem assunto para cronicar; saio andar.

Sigo a esmo pelas ruas. Paro nas esquinas, em todas elas. Ouço o canto do joão-de-barro; zanzo sob as árvores. Canta outra vez o joão-de-barro, apuro o ouvido, concentra-me achá-lo. Porque não consigo vê-lo, volto a andar a esmo, mas para longe da pracinha. Torno a ouvir o canto do joão-de-barro, volto a querer achá-lo. Quero encontrar a sua casinha; porque seria retroceder à pracinha, não vou atrás dela.

A lanchonete não é a minha casa nem há gaiolas em suas paredes. Apesar de não ser nem isso nem aquilo, o corpo não questiona o meu espírito, que outra vez me põe sentado na cadeira, na mesma cadeira que novamente me deixa ver o salão da lanchonete, todo ele.

Para não ocupar a mesa como um vagabundo ocupa um banco de praça, peço um x-bacon, um guaraná e uma porção de fritas.

Sem imprevisto que desagrade ou aborreça, o almoço vai bem.

Prudente, não pedi salada porque sempre me ocorre de haver um bichinho verde a serpentear na folha de alface. Também acho horrível sentir grãos de areia numa concha de feijão. Não sou imbecil para que me chateie morder o xis e aliviar o salgado da batata com o refri, pois sei que posso almoçar bem se não pensar nisso.

As pessoas comem. Com o telefone a um palmo do nariz, engolem o que nem percebem o quanto mastigam. As pessoas nem precisam entender que vão sendo alimentadas pela realidade que a tela de um celular torna admirável. Mastigando ou não, não se encantam que vão sendo alimentadas por abismos admiráveis.

― Paloma, você precisa me passar as notícias mais frescas sobre o apocalipse zumbi. Não banque a espertinha pra guardar só pra você, pois amiga de verdade não faz isso. Por que você é amiga de verdade ou, Deus meu!, você resolveu jogar areia nos meus olhos?

Eis uma pessoa que se delicia em ser desagradável.

A pessoa que fica contrariada quando outra dá a entender que pode escolher o quê compartilhar ou quando compartilhá-lo é o tipo de gente que precisa ser contrariada, uma vez que ela se irrita quando se coloca no lugar de quem é posto de lado.

Essa pessoa desagradável quer fofocar como se estivesse dizendo que ama a democracia, mas ela não deve ser censurada. Para se sentir afagada, cobra transparência a quem se apresenta como gente amiga. Sem a necessidade de confrontar censores, é democrata porque posta que só imbecis ateiam fogo no campo. Embora as queimadas ocorram em vinte e cinco dos vinte e sete estados brasileiros, diz que não fuma, não tem isqueiro na bolsa nem fósforo na cozinha, pois o seu fogão de seis bocas e o seu micro-ondas bivolt gozam de acendedor manual.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de setembro de 2024.

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