terça-feira, 24 de setembro de 2024

Lavanda para borboletas

 

Lavanda para borboletas

 

Eu certamente adoraria voar se tivesse asas; como não me lamento de não as possuir, zanzo por aí como voejam as borboletas.

Às vezes, encanta-me ser uma borboleta.

Pelo amplo horizonte do que não sei sobre a vida de uma borboleta, imagino-a que pousa numa planta sem a danificar, penso que o néctar das flores alimente-a sem lhe abreviar a vida, quero andar de tal forma que o peso de meus pés seja mínimo, preciso sentir o mundo sem que a minha sombra enfraqueça a luz que banha uma joaninha.

É claro que não tenho antenas, tenho ouvidos.

Para tirar-me da espreguiçadeira, só hipnotizando meus tímpanos. Pouca gente tem dedos manhosos que produzam algum ritmo que me induza a prestar atenção na campainha, uma vez que ruídos não são música. Somente um camarada toca-a com o padrão acústico dos três apertos rápidos com dois compridos, é o Luisinho.

― De máscara, o que é que há?

― Deu positivo pra gripezinha, meu amigo.

Mais que afetar irritação pela demora em abrir-lhe a porta, ele ainda critica a minha recusa de integração ao mundinho contemporâneo, tão ricamente divertido pela montanha-russa de polêmicas políticas, bate-bocas morais e discussões bestas, só porque o caos é aleatório e nada é mais emocionante que espumar de ódio, babar por barbaridades ou, ao menos, inflamar-se com o fim dos tempos.

Ainda que me veja indisponível a cão do inferno, Luisinho diz a que veio. Se tivesse uma vida mais ativa nas redes sociais, ele certamente não teria que vir interromper-me a leitura matinal.

― Meu amigo, não conheço outra pessoa que tenha lido uma dúzia de vezes o mesmo livro. Será o normal pra gente pancada, hein?

― Só doze? As Viagens de Gulliver já li quinze vezes.

Como novidade boa é pão quente que tem que ser consumido sem a manteiga ficar rançosa, ele veio dizer que o vaso sanitário do Aurélio está dando o que falar.

Sem avisar, tem gente indo visitá-lo só pra dar uma chegadinha ao banheiro. Os mais caras de pau até levam garrafinhas de suco verde, cuja beberagem pode ser muito saudável, a bexiga, porém, fique cheia sem detença. Como demonstração de interesse pelas fotos altamente realistas, os menos afortunados bebericam limonada sem açúcar.

― O danado é um troço esquisito que parece bicho; mesmo sendo eletrônico, é inteligente pra burro. E sem que a gente peça, ele percebe a gente sentada, aquece o assento, liga musiquinha suave ou aquele barulhinho de água escorrendo que nem tem em posto de estrada.

Não falo, eu penso: logo logo, o trem projetará na parede os memes mais engraçadinhos, oferecerá wi-fi a quem anseie seguir o fluxo dos memes que não param de viralizar, dará acesso a informações sobre o primeiro vaso sanitário, a primeira rede de água encanada, a primeira estação de tratamento.

― Aliás, espertinho, a geringonça deixa o nosso rabo com cheirinho bom de lavanda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de setembro de 2024.

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