Lavanda
para borboletas
Eu certamente adoraria voar se tivesse
asas; como não me lamento de não as possuir, zanzo por aí como voejam as
borboletas.
Às vezes, encanta-me ser uma borboleta.
Pelo amplo horizonte do que não sei
sobre a vida de uma borboleta, imagino-a que pousa numa planta sem a danificar,
penso que o néctar das flores alimente-a sem lhe abreviar a vida, quero andar
de tal forma que o peso de meus pés seja mínimo, preciso sentir o mundo sem que
a minha sombra enfraqueça a luz que banha uma joaninha.
É claro que não tenho antenas, tenho
ouvidos.
Para tirar-me da espreguiçadeira, só
hipnotizando meus tímpanos. Pouca gente tem dedos manhosos que produzam algum
ritmo que me induza a prestar atenção na campainha, uma vez que ruídos não são
música. Somente um camarada toca-a com o padrão acústico dos três apertos
rápidos com dois compridos, é o Luisinho.
― De máscara, o que é que há?
― Deu positivo pra gripezinha, meu
amigo.
Mais que afetar irritação pela demora em
abrir-lhe a porta, ele ainda critica a minha recusa de integração ao mundinho
contemporâneo, tão ricamente divertido pela montanha-russa de polêmicas
políticas, bate-bocas morais e discussões bestas, só porque o caos é aleatório
e nada é mais emocionante que espumar de ódio, babar por barbaridades ou, ao
menos, inflamar-se com o fim dos tempos.
Ainda que me veja indisponível a cão do
inferno, Luisinho diz a que veio. Se tivesse uma vida mais ativa nas redes
sociais, ele certamente não teria que vir interromper-me a leitura matinal.
― Meu amigo, não conheço outra pessoa
que tenha lido uma dúzia de vezes o mesmo livro. Será o normal pra gente
pancada, hein?
― Só doze? As Viagens de Gulliver
já li quinze vezes.
Como novidade boa é pão quente que tem
que ser consumido sem a manteiga ficar rançosa, ele veio dizer que o vaso
sanitário do Aurélio está dando o que falar.
Sem avisar, tem gente indo visitá-lo só
pra dar uma chegadinha ao banheiro. Os mais caras de pau até levam garrafinhas
de suco verde, cuja beberagem pode ser muito saudável, a bexiga, porém, fique
cheia sem detença. Como demonstração de interesse pelas fotos altamente
realistas, os menos afortunados bebericam limonada sem açúcar.
― O danado é um troço esquisito que
parece bicho; mesmo sendo eletrônico, é inteligente pra burro. E sem que a
gente peça, ele percebe a gente sentada, aquece o assento, liga musiquinha
suave ou aquele barulhinho de água escorrendo que nem tem em posto de estrada.
Não falo, eu penso: logo logo, o trem
projetará na parede os memes mais engraçadinhos, oferecerá wi-fi a quem anseie
seguir o fluxo dos memes que não param de viralizar, dará acesso a informações
sobre o primeiro vaso sanitário, a primeira rede de água encanada, a primeira
estação de tratamento.
― Aliás, espertinho, a geringonça deixa
o nosso rabo com cheirinho bom de lavanda.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de setembro de 2024.
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