terça-feira, 10 de setembro de 2024

Fora do ar

 

Fora do ar

 

Naquele tempo, depois da passagem de um vento neurastênico que assobiava monstros na mente da gente miúda, nova e assustadiça não porque fosse miúda, nova e impressionantemente assustadiça, porque era refúgio a monstros que a gente adulta, crescida e intimorata achava risivelmente próprias de gente miúda, nova e ridiculamente incapaz de assobiar de volta, pondo para correr essas urucubacas mentais.

Tendo o vento varrido telhados como criança lambe Chicabom, era batata que o primogênito subisse ao telhado para pedir orientação, que virasse mais no sentido anti-horário ou menos no sentido contrário, até que a antena, modelo espinha de peixe, entrasse no eixo e permitisse a sintonia sem fantasmas e sem chiados, chegando à melhor recepção garantida pela tecnologia da época.

Como agora é outra era, a gente pensa que não basta ficar satisfeita com o melhor que faz, pois o momento é de qualificar o produzido como partícula de um processo maior, tendo em vista a evolução pessoal pro bem da sociedade, isto é, é bom lamber o Chicabom de modo a evitar que a mão fique melecada, ou seja, faz boa coisa quem vê como óbvio que o aquecimento global é palpável, efeito que pode ser medido pelo derretimento do sorvetinho nosso de todo dia.

Pensando que a gente percebe que o mundo tem funcionado como Fla X Flu estrutural, a antena tem que ser posicionada para que o jogo seja captado pela melhor revolução das nossas faculdades mentais ou haverá desperdício de Chicabom, até porque ter as mãos lambuzadas é sinal de idiotia.

Mas quem gosta de ser carimbado como idiota nem sempre é idiota; e a gente percebe que precisa melhorar, que pode evitar que os pingos formem uma poça, pois só mesmo um idiota para gozar ao ver-se feito alma na poça.

Olhando bem, sem se abalar pelas pressões de toda sorte, a gente tem a percepção de que o fantasma da poça rirá da nossa cara; e esse riso revelará o quão miúda e impressionável a gente é.

Impressionante, a gente envelhece porque a vida faz mal à saúde, pois sentir-se velho, estar velho, ter envelhecido, isso tudo mostra que, depois deste tantão de anos carregados na cachola, viver faz a gente ficar mais esperta do que o menino que a gente era quando a televisão tinha tubo, válvulas e estática na madrugada.

A madrugada seria um portal para manifestações ectoplasmáticas? Na real, haverá um poltergeist pra tão tosca realidade?

Ainda seguro o Chicabom como sendo a antena mais adequada pra captar o Fla X Flu destes dias. Sigo lambendo, até porque ele derrete, derrete, mas nunca que derreta até o palito.

Os ventos não derretem, mas são os transtornos que amplificam os horizontes da cachola, são tais ventanias metafísicas que desnorteiam antenas e desorientam birutas.

Já que a vida não muda da água para o vinho, sinto que cabe a mim querer trocar meu Chicabom por Sensação.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de setembro de 2024.

 

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