quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Mais ou menos

 

Mais ou menos

 

Quanto mais eu me seguro pra não dar palpite sobre problema que não é meu, mais dispara o meu coração.

Na ânsia de mostrar-me útil, misturo o que posso com o que confio que posso, ou seja, mais acelero a minha cachola, onde afloram ideias disparatadas, e, cáspite!, minhas ações me confundem.

Sendo quem pede à cachola que faça o que pode para ajudar quem precisa, confio que me ouço e atendo, mas não faço o que imagino ser da ordem natural de minhas vontades, pois a cabeça tem suas veredas e seus despenhadeiros.

Às vezes, querendo a gatinha na caixa de transporte, vem o calafrio, olho a cicatriz na minha mão, lembro-me da mordida quando eu quis a gatinha fora da minha casa.

Nessas vezes em que a memória precisa recordar os meus erros, descortino-me à passagem. Sinto que a pinguela está sobre um cânion tão fundo que nem ouço as águas do riachinho lá embaixo, embora os miados cheguem a mim.

Há situações complicadas que merecem a consideração da corrida de olhos, para tomar pé: estou na praia ou no alto da montanha?

Sem que me empolgue, sem que eu queira quebrar a cumbuca para tentar colá-la outra vez, do jeito que eu saiba, sem a reprovação de ter escolhido meter os pés pelas mãos, quero entender-me.

Ainda que eu tema, que o medo me proteja, me faça atravessar, me leve a ajudar a pôr a gatinha na caixa de transporte.

Tenho tal qualidade: chutei, vi o efeito, calculei a potência e garanto que chutarei melhor da próxima vez, quero chutar outra vez, mais uma, estou certo de que a próxima não será fumaça.

Todavia, é quarta-feira, é dia de feira, é hora de ir comer pastel de carne seca, é hora do cafuné na gatinha: é hora de pastel, gatinha.

Não espanta que eu nem saiba o que há comigo, pois não questiono a razão de tolerar-me já descontrolado, já meio bobalhão.

O que importa é que seja quarta-feira, haja feira, dê em mim aquela vontade de comer pastel de carne seca frito na minha frente.

O problema, o que compreendo como um problema, é querer levar a gatinha, que nem é minha, é do vizinho; e eu quero levá-la ainda que ela nem saiba o que seja pastel de carne seca.

Quanto menos me assegure que as minhas palpitações têm origem no que entendo, fundamentadas, portanto, em mim mesmo, mais tiro sarro de mim, até que, pelo riso e pelas caretas no espelho, eu pegue o retorno aos humores de amígdala, pâncreas e sovacos suadinhos.

Vendo a gatinha dando um baile no vizinho, estou suando. Penso e não saio do lugar. Meus lábios secam; tenho vontade de pular a janela. Quero acudir quem precisa de uma mãozinha, só que o vizinho precisa pedir ajuda, ou serei outro metido que nem sabe ficar na sua.

Penso que não sou uma criatura vagabunda porque fico pensando na vida. Ter opinião é um fato, caramba.

Se o alpinista não quer molhar os pés na flor d’água, o escafandrista se arrasta morro acima?

Narciso faz a gracinha de ter consciência.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de setembro de 2024.

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