domingo, 8 de setembro de 2024

As três estrelinhas

 

As três estrelinhas

 

Aspásio está chateado, veio-lhe aquela história que não lembrava porque a mulher fê-lo lembrar-se tão logo a reconheceu.

Se bem que, passados tantos anos, quem sabe ela nem lembre seu nome. Foi uma vez, naquele bailinho de fita nos anos setenta, naquele tempo em que um Campari já o deixava alegrinho. E foi uma única vez, aquela, à porta do banheiro, tão logo ela parou porque a tinha chamado pelo nome, porque ele sabia o seu nome, Ísis.

Aspásio tem isso, qualquer recordação feliz traz junto a amargura, porque a memória faz exalar esse cheiro inebriante, de coisa clorídrica, a agir como dose que o põe ligeiramente bêbedo por sintomaticamente acuado, portanto ele não devia ter sido visto por essa Ísis.

Ísis essa que a memória trouxe assim que o seu nome veio à tona, pois àquele nome estava associado o que ocorreu no bailinho daqueles anos setenta, naqueles anos adolescentes a quem adolescia.

Entretanto, ele se amargurou assim que a viu na fila. Não precisava lembrar-se daquela mulher, mas ela sorriu. Embora, quem sabe, fosse apenas uma gentileza, não um sorriso de pessoa que reconhece outra tão logo elas se vejam, tão logo desejem cumprimentar-se.

Só que ela parou de sorrir; repentinamente ficou carrancuda. Oxalá não tenha feito por mal, por lembrar-se do papelão de Aspásio à porta do banheiro num bailinho de fita em setembro de 1979, bem quando a Amii Stewart mandava brasa em Knock on wood.

Aspásio não quer cumprimentar a mulher da fila do caixa, ainda que lhe ocorra que ela não seja mais a mesma Ísis daquele dia à porta do banheiro, porque os cabelos dela estão grisalhos, talvez durante anos ela os tenha tingido, ou de ruivo ou de loiro, mas isso não importa, pois Aspásio sente a obrigação de dizer-lhe que originalmente quem cantou a tal canção foi o David Bowie; qualquer coisa, ele tem o compacto.

Ísis está aborrecida porque acabou por reconhecer o Aspásio.

Se o tivesse reconhecido logo de cara, não teria sorrido; ainda mais àquele pulha. Então, que isso fique bem claro: foi só por educação que sorriu a quem a observava na fila do caixa.

Se o nome dele, Aspásio, lhe ocorresse tão logo viu quem era que não parava de olhar para os seus pés, Ísis teria deixado a cestinha no chão e saído sem olhar para ninguém, muito menos para trás, só para verificar que ele não parava de olhar pro chão, pros seus pezinhos.

Ísis está com raiva. Antes não tivesse tomado banho e calçado seus chinelos, aquelas rasteirinhas de tiras douradas, uma vez que seus pés ficavam praticamente desnudos, à vista de velho tarado como ele, esse Aspásio.

Rezingueira como o diabo, tão logo uniu a cara à coroa, Ísis lembrou o que o safado pediu-lhe à porta do banheiro precisamente no dia que o pai deixou que ela saísse festejar os seus dezesseis aninhos.

Ísis não disse nada porque César sempre foi nervoso de espora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de setembro de 2024.

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