As
três estrelinhas
Aspásio está chateado, veio-lhe aquela
história que não lembrava porque a mulher fê-lo lembrar-se tão logo a
reconheceu.
Se bem que, passados tantos anos, quem
sabe ela nem lembre seu nome. Foi uma vez, naquele bailinho de fita nos anos
setenta, naquele tempo em que um Campari já o deixava alegrinho. E foi uma
única vez, aquela, à porta do banheiro, tão logo ela parou porque a tinha
chamado pelo nome, porque ele sabia o seu nome, Ísis.
Aspásio tem isso, qualquer recordação feliz
traz junto a amargura, porque a memória faz exalar esse cheiro inebriante, de
coisa clorídrica, a agir como dose que o põe ligeiramente bêbedo por sintomaticamente
acuado, portanto ele não devia ter sido visto por essa Ísis.
Ísis essa que a memória trouxe assim que
o seu nome veio à tona, pois àquele nome estava associado o que ocorreu no
bailinho daqueles anos setenta, naqueles anos adolescentes a quem adolescia.
Entretanto, ele se amargurou assim que a viu na fila. Não precisava lembrar-se daquela mulher, mas ela sorriu. Embora, quem sabe, fosse apenas uma gentileza, não um sorriso de pessoa que reconhece outra tão logo elas se vejam, tão logo desejem cumprimentar-se.
Só que ela parou de sorrir;
repentinamente ficou carrancuda. Oxalá não tenha feito por mal, por lembrar-se
do papelão de Aspásio à porta do banheiro num bailinho de fita em setembro de
1979, bem quando a Amii Stewart mandava brasa em Knock on wood.
Aspásio não quer cumprimentar a mulher
da fila do caixa, ainda que lhe ocorra que ela não seja mais a mesma Ísis
daquele dia à porta do banheiro, porque os cabelos dela estão grisalhos, talvez
durante anos ela os tenha tingido, ou de ruivo ou de loiro, mas isso não
importa, pois Aspásio sente a obrigação de dizer-lhe que originalmente quem
cantou a tal canção foi o David Bowie; qualquer coisa, ele tem o compacto.
Ísis está aborrecida porque acabou por
reconhecer o Aspásio.
Se o tivesse reconhecido logo de cara,
não teria sorrido; ainda mais àquele pulha. Então, que isso fique bem claro:
foi só por educação que sorriu a quem a observava na fila do caixa.
Se o nome dele, Aspásio, lhe ocorresse
tão logo viu quem era que não parava de olhar para os seus pés, Ísis teria
deixado a cestinha no chão e saído sem olhar para ninguém, muito menos para
trás, só para verificar que ele não parava de olhar pro chão, pros seus
pezinhos.
Ísis está com raiva. Antes não tivesse
tomado banho e calçado seus chinelos, aquelas rasteirinhas de tiras douradas,
uma vez que seus pés ficavam praticamente desnudos, à vista de velho tarado
como ele, esse Aspásio.
Rezingueira como o diabo, tão logo uniu
a cara à coroa, Ísis lembrou o que o safado pediu-lhe à porta do banheiro precisamente
no dia que o pai deixou que ela saísse festejar os seus dezesseis aninhos.
Ísis não disse nada porque César sempre
foi nervoso de espora.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de setembro de 2024.
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