quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Banho de lua

 

Banho de lua

 

A lua está escondida, talvez refugiada num buraco qualquer, é bem razoável que tenha fugido das atrocidades que os seres humanos têm cometido contra a natureza e contra si.

Olhei o céu nublado, quis adivinhar onde a lua estaria, concentrei a mente nessa localização, pois os problemas do mundo teriam solução.

Solucionados os problemas do mundo, eu seria o herói cujos óculos teriam lentes tradutoras para bem entender tudo quanto é sentimento, emoção e apoplexias.

Mas a lógica da vida natural é simples: não há herói que resista ao vírus da gripe.

Se eu fosse Sansão, daria de bom grado as madeixas, porque o pai de Dalila é sogrão que vive adoentado pelo cocuruto careca a pegar o sereno da madrugada.

Como eu sequer sou Don Juan, entraria pela lona do cenário, usaria da lanterna para ajudar um ou outro espectador a sair no meio da peça, sabendo que o Convidado de Pedra há de vencer no final.

Todavia, a natureza da vida põe simplicidade na lógica dos homens: todo herói de verdade tem Aquiles no seu calcanhar.

A minha vulnerabilidade não tem como de ser aparafusada ao chão do mundo quando a fúria surgir espontânea contra cálculos. A minha insônia não dá jeito no torto da minha coluna a fazer-me rolar na cama. À vera, meu ponto fraco é aquele que me vulgariza, que me apresenta um fantasma patético, um joão-bobo no meio do caminho de quem tem a honrada necessidade de descarregar-se de vez em quando.

Sou a válvula, o pino da panela, sou quem sente a pressão mas dá o seu jeito, quem teme ao dar-se como alívio.

No entanto não agi certo: molhei a manga da blusa; não tirei a blusa; deixei que a manga molhada secasse no meu corpo.

Embora os cientistas digam que vento encanado não dá gripe, que o vírus da gripe não curte roupa molhada, tênis encharcado ou a boca aberta de quem ronca de madrugada, ronquei como sempre e deixei a manga da blusa secar no meu corpo.

Primeiro veio a cabeça pesada, o mundo a rodar tão logo peguei do chão o garfo que derrubei; em suma, a minha cachola adulterada pedia comedimento, lentidão, que eu considerasse deitar-me imediatamente no sofá, ou seria oferenda viva ao mal-estar pantagruélico.

Pantagruélico, sim, pois em seguida os meus ouvidos entupiram, os músculos dos membros, tanto inferiores quanto superiores, passaram a doer, as pálpebras incomodavam, as narinas entupiram, começaram coriza e tosse.

Foi só largado no sofá que eu saquei: é gripe.

Gripado, a alma leve sujeitada às desventuras do corpo só chumbo. Febril, o espírito lúcido pressionado à tibieza bruta. Melancolicamente, esse poeta tornado nuvens a obscurecer a lua dos namorados.

Falta pastilha, irei comprá-la. Sem dipirona, entra na lista. Antigripal porreta, é mais um item incluído.

Com a voz anasalada, agradeço ao funcionário do caixa pela oferta da revistinha com dicas para domar certa ansiedade.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de setembro de 2024.


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