Parada
indigesta
Passando fio dental, vez ou outra forçando
que passasse entre os dentes, eis que uma coroa soltou-se. Com o barulho do
metal na pia, encarei o infeliz. Confrontado, inspecionei o estrago, listei as
próximas ações. Critiquei-me, enfim desastrado.
Tentei ligar, em vão que atendessem.
Apelei para o zap, embalde. Teria de ir à clínica, a urgência era latente. Relatei
o que houvera, mas realcei a desventura de ter mordido a língua ao mastigar um
pedacinho de bife, não um punhado de amendoim japonês.
O que omiti à secretária é que o ar escasseou
na subida do morro, mesmo com este senhorzinho vindo lento, já desgostoso com
os bem-te-vis e as maritacas, tão solares na tarde calorosamente soalheira.
De manhã, ao contrário, o frio bateu nas
minhas fossas nasais e fez a sinusite insinuar-se, insultando o cérebro e
fervilhando as sinapses com uns pensamentos de malquerer, com esses malquereres
à carne, ao tempo, a essa velhice intransferivelmente tão minha.
De tanta malquerença, este velho
imbecil até se revigora pelo que o apraz o próprio sangue, porque, já mordida a
língua, este beócio de sempre desperta-se, outra vez vampiro.
Se bem não me alimenta nem o meu sangue,
então o quê?
Uma vez que não tem nada que ver com
isso, à funcionária que me agradece pela denúncia de que à meia dúzia de ovos
da caixinha um teria sido surripiado, a ela desanimo de querer reclamar da
friagem que apanhei na caminhada até o super, a latejante da fronte.
No entanto, ela nota o desconforto.
Assim que a noto percebida do meu desassossego, vou-me num pé.
Vou-me ao pé de alface. Estabanado ao
fechar a boca do saquinho, novamente o desastrado nem se dá conta de que a
listinha de compras está novamente perdida.
Refaço meus passos pelo mercado, mas não
a encontro. Optando por entrar na fila do pão, paro de procurá-la. Com a
sabedoria de quem finge não pensar nisso, dou com a lista aos pés da banca de
alface.
Ainda bem que eu não me debati querendo
achá-la, porque, ainda sereno, tinha me esquecido de pegar o pacotão de
amendoim japonês, guloseima que tanto gosto de beliscar enquanto faço o almoço.
Putz! Por que estou ranzinza?
Não se julgue o homem, julgue-se os atos
― satisfaz-me tal adágio pois: se perdi a lista, a encontrei; o telefone não me
ajudou mas minhas pernas, sim; o ovo furtado faz-se em rastro de desvalidos.
O zombeteiro, que me põe encafifado,
vejo que se escancara pelos olhos de quem passa, sinto que se diverte a
indispor-me, percebo que preciso de um cafezinho, mas presumo que o mais recomendável
é dar um pinote do passeio público.
Ao fim e ao cabo, a quem possa
interessar, declaro que este idiota, bobo, imbecil, pacóvio, estúpido,
ridículo, faz por bem, neste momento, ser energúmeno ventríloquo à Natalia
Ginzburg, pois: “eu era eu, e me achava odiosa e não tinha como me separar
daquele ser odioso”.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de agosto de 2024.