Normalista
Foi-se
o tempo, bom homem, que tais senhoras distintas ganhavam em ser prendadas,
domésticas, tão boas normalistas.
Entretanto,
camarada, a sala da sua casa vive bagunçada.
O
cinzeiro está no chão. As almofadas hão de ser repostas no sofá. As revistas
têm que ser empilhadas na mesinha de centro. As bitucas carecem de ser catadas
de cima do tapete. Pratos, copos e latinhas, o seu lugar é a pia. Barata morta
e bolotas de poeira, clamem por lixeira, pá e vassoura. Escadinha já usada e
lâmpada queimada, cada qual vá em frente.
Esta
bagunça não pode continuar intocada, é preciso dar um basta. Faz-se mister
barrar o seu alastramento, porque é preciso evitar que a daninha chegue ao
quarto.
O
corpo são na mente sã e vice-versa.
Uma
vez que a espinha começa na nuca, a cabeça funciona melhor quando o pescoço
fica assentado numa almofadinha já afofada. Melhor ainda, travesseiro, a coluna
ereta mantém a cabeça erguida, o maxilar sereno e, saudável esperança, a saliva
não entra em ebulição. Embora a pressão suba, os nervos ressintam-se de algum
sossego, seja bom consigo. Não exija o mínimo. Seja capaz de pensar que pode o
melhor, que sabe o que é bom para si. Faça-se melhor até para os outros, para
esses que se importam com o seu desempenho. Sem afetar prostração como cansaço,
promova a justiça de varrer a casa inteirinha. Por temer infecções bacterianas,
não postergue, e passe pano no chão. Ponha-se todo nisso de ser útil: vá lavar
o quintal, recolher as fezes dos cães, queimar as folhas e jogar os sacos na caçamba
da esquina.
Depois
desta jornada verdadeiramente produtiva, observe-se, não se julgue o pior dos
homens de seu tempo, sussurre-se:
Feliz
é o homem justo porque é bom.
Camarada
da cidadania socialmente responsável, embora você não espere que o espelho lhe
seja gentil, responda, sem fazer careta, o que entenda que deva ser levado a
sério.
―
Se não fosse eu pôr o cachecol, o pescoço seguiria exposto?
―
Neste ano, o inverno está mais quente.
―
Se não fosse eu calçar as luvas, as mãos congelariam?
―
Para dar joinha, luva é cafona.
―
Se não fosse eu lutar pelas botas, seu queixo bateria?
―
Que horror! Dentes rangendo é bruxismo.
―
Se não fosse eu picar a mula da montanha, você ainda sonharia com caipirinha, frescobol
e bicho geográfico.
Ao
fim e ao cabo, ponha-se na ata que é perfeitamente normal que o camarada aspire
ao cargo de cidadão prudente e antenado, até para não viralizar feito papagaio
de pirata.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de agosto de 2024.
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