quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Normalista

 

Normalista

 

É compreensível, portanto tolerável, que o homem em questão não se importe de ignorar que houve um tempo em que algumas damas da nossa gente eram conservadas internas em certas instituições, ilustres pelo famigerado ministério do bom uso de linhas e agulhas, que as bem habilitavam para bordados, crochês ou tricôs e, pela justiça à língua na felicidade de bem fazê-los, cosendo e chuleando.

Foi-se o tempo, bom homem, que tais senhoras distintas ganhavam em ser prendadas, domésticas, tão boas normalistas.

Entretanto, camarada, a sala da sua casa vive bagunçada.

O cinzeiro está no chão. As almofadas hão de ser repostas no sofá. As revistas têm que ser empilhadas na mesinha de centro. As bitucas carecem de ser catadas de cima do tapete. Pratos, copos e latinhas, o seu lugar é a pia. Barata morta e bolotas de poeira, clamem por lixeira, pá e vassoura. Escadinha já usada e lâmpada queimada, cada qual vá em frente.

Esta bagunça não pode continuar intocada, é preciso dar um basta. Faz-se mister barrar o seu alastramento, porque é preciso evitar que a daninha chegue ao quarto.

O corpo são na mente sã e vice-versa.

Uma vez que a espinha começa na nuca, a cabeça funciona melhor quando o pescoço fica assentado numa almofadinha já afofada. Melhor ainda, travesseiro, a coluna ereta mantém a cabeça erguida, o maxilar sereno e, saudável esperança, a saliva não entra em ebulição. Embora a pressão suba, os nervos ressintam-se de algum sossego, seja bom consigo. Não exija o mínimo. Seja capaz de pensar que pode o melhor, que sabe o que é bom para si. Faça-se melhor até para os outros, para esses que se importam com o seu desempenho. Sem afetar prostração como cansaço, promova a justiça de varrer a casa inteirinha. Por temer infecções bacterianas, não postergue, e passe pano no chão. Ponha-se todo nisso de ser útil: vá lavar o quintal, recolher as fezes dos cães, queimar as folhas e jogar os sacos na caçamba da esquina.

Depois desta jornada verdadeiramente produtiva, observe-se, não se julgue o pior dos homens de seu tempo, sussurre-se:

Feliz é o homem justo porque é bom.

Camarada da cidadania socialmente responsável, embora você não espere que o espelho lhe seja gentil, responda, sem fazer careta, o que entenda que deva ser levado a sério.

― Se não fosse eu pôr o cachecol, o pescoço seguiria exposto?

― Neste ano, o inverno está mais quente.

― Se não fosse eu calçar as luvas, as mãos congelariam?

― Para dar joinha, luva é cafona.

― Se não fosse eu lutar pelas botas, seu queixo bateria?

― Que horror! Dentes rangendo é bruxismo.

― Se não fosse eu picar a mula da montanha, você ainda sonharia com caipirinha, frescobol e bicho geográfico.

Ao fim e ao cabo, ponha-se na ata que é perfeitamente normal que o camarada aspire ao cargo de cidadão prudente e antenado, até para não viralizar feito papagaio de pirata.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de agosto de 2024.

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