quinta-feira, 25 de julho de 2024

Manhãzinha pacata

 

Manhãzinha pacata

 

Descendo a rua, cabisbaixo a pensar, ao dar com aquela nota caída no chão, o mais rápido que consegui e com a maior discrição que pude, não titubeei, porque não me queria observado a apanhar da calçada o fruto do distraído que passara.

Descendo a rua com as sacolas, aquela nota dobradinha que enfiei no bolso, foi em casa, foi só depois de guardar cada item comprado no lugar certo é que fui descobrir qual o seu valor exato, que ela não valia os dois reais que supus e, sim, aquele pedaço de papel era uma nota de cem, valor bastante para a restituição do que eu gastara.

Descendo a rua com as sacolinhas que, mesmo que nem soubesse ter pescado uma garoupa vividamente azulada, iam pesando menos a cada passo, parei assim que ouvi os quero-queros.

Parado debaixo das árvores, avistei-os. Pensei ter ouvido tero-tero, nem eram gazeados. Certamente não eram maritacas, pois grasnados quem os faz são patos.

Dois patos sobrevoaram onde eu estava. Observei-os, que a dupla voava em círculo. Vi o par completar uma volta grande; ele circunvoara um terceiro, um patinho. Porque, provavelmente, era filhote em um dos seus primeiros voos, circunvagaram-no para incluí-lo.

Se lado a lado, os três patos voaram embora, foram na direção do rio que fica no sopé do Morro da Figueira, retive aqueles grasnados.

Descendo de gente que nunca precisou matar para sobreviver, mas comia como se o amanhã jamais haveria de estagnar-se, uma vez que a natureza era provedora, que a sua finalidade, estação após estação, era dar garças, gansos, patos e marrecos.

Vovô tinha apitos. Ele piava conforme chamasse por patos, gansos, marrecas, marrecões, codornas, perdizes, rolas, inhambus, jacutingas, juritis, jaós, macucos e saracuras.

Já os tucanos, vovô nunca foi de piar por eles e sempre foi sincero ao reprimir a origem do seu menosprezo; quiçá pelo grande bico curvo, sendo ele justamente próprio pra vencer a casca de nozes, castanhas, amendoins e pau-brasil.

Se eu soubesse a razão, entenderia.

Se entendesse a natureza das coisas, quem sabe eu justificasse a sensação de que a vida está por um fio, que noves fora são realmente noves fora, que a natureza é bela, equilibrada, feita para continuar viva, belíssima e harmoniosa, ou a arte não entreteria tanto.

Tanto diverte que, ainda no quarteirão do mercado, veio-me à ideia aquele dia glacial pelo ventinho importuno.

Nesse dia, estava em mais uma dessas filas que fingem não haver vida fora delas. Entediado, então, com a morosidade, espiei pelo vidro da agência e o que vi demandou que fosse averiguar o que se passava. Então, a debandada do banco foi-me incontinenti.

No evento estavam envolvidos um rapaz e policiais a persuadi-lo a ir na viatura. Bem embaraçados, gritavam. Sem a carência de celulares a gravarem o aguardado banho de sangue, o trio arrancou da praça.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de julho de 2024.

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