Manhãzinha
pacata
Descendo a rua, cabisbaixo a pensar, ao
dar com aquela nota caída no chão, o mais rápido que consegui e com a maior
discrição que pude, não titubeei, porque não me queria observado a apanhar da
calçada o fruto do distraído que passara.
Descendo a rua com as sacolas, aquela
nota dobradinha que enfiei no bolso, foi em casa, foi só depois de guardar cada
item comprado no lugar certo é que fui descobrir qual o seu valor exato, que ela
não valia os dois reais que supus e, sim, aquele pedaço de papel era uma nota
de cem, valor bastante para a restituição do que eu gastara.
Descendo a rua com as sacolinhas que, mesmo
que nem soubesse ter pescado uma garoupa vividamente azulada, iam pesando menos
a cada passo, parei assim que ouvi os quero-queros.
Parado debaixo das árvores, avistei-os.
Pensei ter ouvido tero-tero, nem eram gazeados. Certamente não eram
maritacas, pois grasnados quem os faz são patos.
Dois patos sobrevoaram onde eu estava.
Observei-os, que a dupla voava em círculo. Vi o par completar uma volta grande;
ele circunvoara um terceiro, um patinho. Porque, provavelmente, era filhote em
um dos seus primeiros voos, circunvagaram-no para incluí-lo.
Se lado a lado, os três patos voaram
embora, foram na direção do rio que fica no sopé do Morro da Figueira, retive
aqueles grasnados.
Descendo de gente que nunca precisou matar
para sobreviver, mas comia como se o amanhã jamais haveria de estagnar-se, uma
vez que a natureza era provedora, que a sua finalidade, estação após estação, era
dar garças, gansos, patos e marrecos.
Vovô tinha apitos. Ele piava conforme
chamasse por patos, gansos, marrecas, marrecões, codornas, perdizes, rolas, inhambus,
jacutingas, juritis, jaós, macucos e saracuras.
Já os tucanos, vovô nunca foi de piar
por eles e sempre foi sincero ao reprimir a origem do seu menosprezo; quiçá
pelo grande bico curvo, sendo ele justamente próprio pra vencer a casca de
nozes, castanhas, amendoins e pau-brasil.
Se eu soubesse a razão, entenderia.
Se entendesse a natureza das coisas,
quem sabe eu justificasse a sensação de que a vida está por um fio, que noves
fora são realmente noves fora, que a natureza é bela, equilibrada, feita para
continuar viva, belíssima e harmoniosa, ou a arte não entreteria tanto.
Tanto diverte que, ainda no quarteirão
do mercado, veio-me à ideia aquele dia glacial pelo ventinho importuno.
Nesse dia, estava em mais uma dessas
filas que fingem não haver vida fora delas. Entediado, então, com a morosidade,
espiei pelo vidro da agência e o que vi demandou que fosse averiguar o que se
passava. Então, a debandada do banco foi-me incontinenti.
No evento estavam envolvidos um rapaz e policiais
a persuadi-lo a ir na viatura. Bem embaraçados, gritavam. Sem a carência de celulares
a gravarem o aguardado banho de sangue, o trio arrancou da praça.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de julho de 2024.
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