domingo, 4 de agosto de 2024

O sistema

 

O sistema

 

Ligo o computador; cuido dos e-mails; leio os jornais; abro o WORD; escrevo, apago; escrevo novamente, mas não apago; se ocorrer de ter uma palavra menos certinha, reescrevo; estou disposto a escrever algo que aborreça, afaste o leitor que toma a página como espelho; escolho a palavra mais apropriada para desafinar comigo e com quem lê.

Encontrada a vereda pela qual ouvirei cantarem os meus canários, vem o bem-te-vi me desviar do propósito, pondo-me a dançar, já a mão dando apoio à cabeça, já os olhos espiando pela janela, que o bichinho canta alto, canta afinado, canta apesar da torre de celular que lhe serve de poleiro.

Como o computador não deu pau nem o WORD travou, caso o meu texto não avance, então, a quem poderei culpar?

Para sacar melhor a pergunta, um interlúdio.

Era sábado. Na manhã ensolarada, uma criança brincava sozinha. O menino brincava como se mais alguém houvesse com ele. Falando, o pequeno engenheiro trazia água na concha das mãos. Aprumando o barro, ergueram-se paredes. Eram quatro as paredes erguidas, e duas eram breves e duas, longas. Com breves e longas, sem janelas e sem portas, à forma calhava faltar o telhado.

Era sábado e a manhã tinha sol, mas o menino não fez andorinhas nem pardais, ele moldou o cômodo. Era um cubículo no qual faltavam estrado, jarro de água e o bispote para as regulares evacuações.

Para que a luz do sol impedisse qualquer fuga, o aposento foi feito sem telhado. Pra dentro daquela cela, no entanto, vieram os pardais e as andorinhas que o menino não almejara soprar-lhes os moldes.

Apesar do sol, andorinhas e pardais pipilaram em pleno sábado.

Dona Cremilda diz que a falta de fé não paralisa a montanha, cega para o milagre. Quer prodígio maior que a própria superação?

Considere-se: a) Deus está morto, apud Nietzsche; b) Se Deus está morto, tudo é permitido, apud Ivan Karamazov; c) pôr ketchup em quibe prova que Ele permite tudo, apud Cláudia Mara.

Cláudia Mara é filha de Claudiomiro Malaquias, aquele que vendera enciclopédias, de porta em porta, décadas antes de a Wikipédia tornar obsoletos catálogos impressos e estantes.

Não sei se Deus aprova, mas Cláudia Mara gosta de ir à missa com Dona Cremilda, uma vez que ambas disputam quem sustenta o Agnus Dei mais diáfano.

Como quero inventado que seja assim, sei que não há cristão que se furte à euforia de parabenizar, separadamente, esta ou aquela pelo canto afinado, pelo recato ao cantar, pelo requintado chapeuzinho com véu tão caro à madame Darcy Sarmanho.

Sem escamotear qual a minha posição no que narro, digo que Dona Cremilda e Cláudia Mara não sabem nada de nada dessa tal de Darcy Sarmanho.

Responsável por ser a pessoa que dita aonde vai o que é contado, tiro o chapéu pro Darcy Ribeiro:

"O Brasil é um enorme país de classes privilegiadas que não se dão conta de que a miséria é uma agressão."

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de agosto de 2024.

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