O
sistema
Ligo o computador; cuido dos e-mails;
leio os jornais; abro o WORD; escrevo, apago; escrevo novamente, mas não apago;
se ocorrer de ter uma palavra menos certinha, reescrevo; estou disposto a
escrever algo que aborreça, afaste o leitor que toma a página como espelho;
escolho a palavra mais apropriada para desafinar comigo e com quem lê.
Encontrada a vereda pela qual ouvirei
cantarem os meus canários, vem o bem-te-vi me desviar do propósito, pondo-me a
dançar, já a mão dando apoio à cabeça, já os olhos espiando pela janela, que o
bichinho canta alto, canta afinado, canta apesar da torre de celular que lhe
serve de poleiro.
Como o computador não deu pau nem o WORD
travou, caso o meu texto não avance, então, a quem poderei culpar?
Para sacar melhor a pergunta, um
interlúdio.
Era sábado. Na manhã ensolarada, uma
criança brincava sozinha. O menino brincava como se mais alguém houvesse com
ele. Falando, o pequeno engenheiro trazia água na concha das mãos. Aprumando o
barro, ergueram-se paredes. Eram quatro as paredes erguidas, e duas eram breves
e duas, longas. Com breves e longas, sem janelas e sem portas, à forma calhava
faltar o telhado.
Era sábado e a manhã tinha sol, mas o
menino não fez andorinhas nem pardais, ele moldou o cômodo. Era um cubículo no
qual faltavam estrado, jarro de água e o bispote para as regulares evacuações.
Para que a luz do sol impedisse qualquer
fuga, o aposento foi feito sem telhado. Pra dentro daquela cela, no entanto,
vieram os pardais e as andorinhas que o menino não almejara soprar-lhes os
moldes.
Apesar do sol, andorinhas e pardais
pipilaram em pleno sábado.
Dona Cremilda diz que a falta de fé não
paralisa a montanha, cega para o milagre. Quer prodígio maior que a própria
superação?
Considere-se: a) Deus está morto, apud
Nietzsche; b) Se Deus está morto, tudo é permitido, apud Ivan Karamazov;
c) pôr ketchup em quibe prova que Ele permite tudo, apud Cláudia Mara.
Cláudia Mara é filha de Claudiomiro
Malaquias, aquele que vendera enciclopédias, de porta em porta, décadas antes
de a Wikipédia tornar obsoletos catálogos impressos e estantes.
Não sei se Deus aprova, mas Cláudia Mara
gosta de ir à missa com Dona Cremilda, uma vez que ambas disputam quem sustenta
o Agnus Dei mais diáfano.
Como quero inventado que seja assim, sei
que não há cristão que se furte à euforia de parabenizar, separadamente, esta
ou aquela pelo canto afinado, pelo recato ao cantar, pelo requintado
chapeuzinho com véu tão caro à madame Darcy Sarmanho.
Sem escamotear qual a minha posição no
que narro, digo que Dona Cremilda e Cláudia Mara não sabem nada de nada dessa
tal de Darcy Sarmanho.
Responsável por ser a pessoa que dita aonde
vai o que é contado, tiro o chapéu pro Darcy Ribeiro:
"O Brasil é um enorme país de
classes privilegiadas que não se dão conta de que a miséria é uma
agressão."
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de agosto de 2024.
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