domingo, 11 de agosto de 2024

À sombra do paredão

 

À sombra do paredão

 

Agradecimento espontâneo

Atendendo a pedidos, agradeço a quem tomou por bem gritar com o menino que parasse quando, entendendo ser coisa de rebelde, ele rasgava o cartaz à entrada da sala dos professores, cuja advertência, a todos, era o dever de economizar água na estiagem do inverno.

 

Epílogo no lugar certo

Para que não haja decepção, antecipa-se o fim da crônica em que o pai dá uma sova de cinto no filho, pois ele trouxe a justificativa para sua suspensão por três dias: para que haja o aprendizado de que todo ato precisa de ter responsabilização, aluno que retirar o badalo do sino só para fazer arte merece ser punido sem a misericórdia da expulsão, para que lhe seja, à cada nova infração, aplicado o castigo certo.

 

O forasteiro e a sua família

Embora tenha nascido nesta cidade, passou a maior parte dos seus treze anos em algum lugarejo, entre Ouro Preto e Tiradentes.

Muitos adultos não queriam os filhos andando com gente de fora, e ele tinha acabado de chegar. Mariana e Aristeu, embora paulistas e tão ibiunenses, não eram obedientes e menos ainda, aos quatorze anos.

 

O orgulho do vagabundo

― A gente vive mudando, Mariana, porque o trabalho do meu pai é tirar o sustento da sua família como gerente de banco.

― Não te falei, Aristeu, as pessoas mentem que é uma barbaridade porque a nossa grande cidadezinha quer testar quem vem para cá com essa ideia sórdida de ganhar a vida por suplicar a caridade delas.

― Mas a gente nunca foi de recusar bolo de graça, Mariana.


A lógica do sistema que não falha

1. Viver é andar de bicicleta. 2. Mesmo na garupa, andar de bicicleta é zelar pelo equilíbrio. 3. Uma vez que a vida não é nenhuma bicicleta com rodinhas pra enfrentar as curvas da realidade, pedalar é divino.

 

O bom foragido

A festa começou no horário, três da tarde. Nenhum convidado veio antes das quatro; foi a espera que deixou apreensivo o aniversariante.

Embora ninguém notasse que sabia que era senhor do seu destino, ele abandonou a própria festa, pois tinha quatorze anos.

 

Apelo dramático

Se ardia por um beijo, e os seus olhos mais brilhavam à luz daquela febre, ele vencesse o Paredão da Light para ir apanhar a rosa boiando na linha d’água da represa. Se queria a força mental para que os seus braços alongassem, que o polegar e o indicador fossem de bambu, que operassem feito pinça, beijaria as pétalas antes de entregá-las.

 

O vagamundo

Encontre o tom, e diga. Os dias não se repetem, você se repete. Os seus pensamentos iludem que haja repetição, mesmo não havendo em muito do que faz. Creia ser como a rosa atirada do alto da barragem. Recorde-se da mancha amarela flutuando na tarde. Não se perca do sentimento: queria pular, mas pensava que não queria; olhava e queria olhar aquela boca; sabia e não esquecia, sabia e o perturbava sabê-lo: quem dera a rosa à Mariana foi Aristeu, e você nunca quis ser ele.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de agosto de 2024.

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