À
sombra do paredão
Agradecimento espontâneo
Atendendo a pedidos, agradeço a quem tomou
por bem gritar com o menino que parasse quando, entendendo ser coisa de rebelde,
ele rasgava o cartaz à entrada da sala dos professores, cuja advertência, a
todos, era o dever de economizar água na estiagem do inverno.
Epílogo no lugar certo
Para que não haja decepção, antecipa-se
o fim da crônica em que o pai dá uma sova de cinto no filho, pois ele trouxe a
justificativa para sua suspensão por três dias: para que haja o aprendizado
de que todo ato precisa de ter responsabilização, aluno que retirar o badalo do
sino só para fazer arte merece ser punido sem a misericórdia da expulsão, para
que lhe seja, à cada nova infração, aplicado o castigo certo.
O forasteiro e a sua família
Embora tenha nascido nesta cidade,
passou a maior parte dos seus treze anos em algum lugarejo, entre Ouro Preto e Tiradentes.
Muitos adultos não queriam os filhos
andando com gente de fora, e ele tinha acabado de chegar. Mariana e Aristeu, embora
paulistas e tão ibiunenses, não eram obedientes e menos ainda, aos quatorze
anos.
O orgulho do vagabundo
― A gente vive mudando, Mariana, porque
o trabalho do meu pai é tirar o sustento da sua família como gerente de banco.
― Não te falei, Aristeu, as pessoas
mentem que é uma barbaridade porque a nossa grande cidadezinha quer testar quem
vem para cá com essa ideia sórdida de ganhar a vida por suplicar a caridade
delas.
― Mas a gente nunca foi de recusar bolo
de graça, Mariana.
A lógica do sistema que não falha
1. Viver é andar de bicicleta. 2. Mesmo
na garupa, andar de bicicleta é zelar pelo equilíbrio. 3. Uma vez que a vida
não é nenhuma bicicleta com rodinhas pra enfrentar as curvas da realidade,
pedalar é divino.
O bom foragido
A festa começou no horário, três da
tarde. Nenhum convidado veio antes das quatro; foi a espera que deixou apreensivo
o aniversariante.
Embora ninguém notasse que sabia que era
senhor do seu destino, ele abandonou a própria festa, pois tinha quatorze anos.
Apelo dramático
Se ardia por um beijo, e os seus olhos mais
brilhavam à luz daquela febre, ele vencesse o Paredão da Light para ir apanhar a
rosa boiando na linha d’água da represa. Se queria a força mental para que os seus
braços alongassem, que o polegar e o indicador fossem de bambu, que operassem feito
pinça, beijaria as pétalas antes de entregá-las.
O vagamundo
Encontre o tom, e diga. Os dias não se
repetem, você se repete. Os seus pensamentos iludem que haja repetição, mesmo
não havendo em muito do que faz. Creia ser como a rosa atirada do alto da
barragem. Recorde-se da mancha amarela flutuando na tarde. Não se perca do
sentimento: queria pular, mas pensava que não queria; olhava e queria olhar aquela
boca; sabia e não esquecia, sabia e o perturbava sabê-lo: quem dera a rosa à
Mariana foi Aristeu, e você nunca quis ser ele.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de agosto de 2024.
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