quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Duas vias

 

Duas vias

 

A estrepitosa queda de uma árvore lá onde nunca fui nem pretendo ir, dela o que tenho a dizer é que não me sobressalta sequer dá-la por considerável, algo (portanto) interessante, um ambiente a ser protegido das minhas tantas indiferenças.

Já a verruga removida do nariz do nenê recém parido, nisso o que impressiona é entrevê-la revivida nele, quando o mesmíssimo nariz for moço, porquanto penduricalho bruxo em noite de bruxas.

Há quem muito se satisfaça em espalhar lorotas como se houvesse para si um maior proveito que a pecha de futriqueiro, porém a mim, que me diverte replicá-las, há quem até se aborreça de apodar-me infantil, um babaquara pequeno burguês.

Sim, senhor, sou mesmo pequeno, um tampinha careca, um míope barrigudo, nem por isso sinto-me mais feliz ou mais desesperado, pois continuo abstêmio, eleitor contumaz, um bem consolidado democrata. Ou somente outro sujeito escondido numa (efêmera) identidade.

Ainda que tropece, mesmo machucado, pela rua eu vou.

Subitamente, paro. Sou pego pela necessidade de olhar em volta. Preciso reconhecer a esquina. Quero saber quem são as pessoas que passam. Entretanto, relativizo a minha condição: dessas que passam, poucas se importam quem seja essa pessoa parada.

Não me abate que muitas não me vejam, e apenas desviem. Ainda que olhem, não sabem por mim qual a pessoa que eu bem gostaria de ser notada. Não abala ser um estranho a muita gente, que sequer sabe o que ambiciono.

Parado na esquina, não fumo e não fuço o telefone.

Se ao menos ostentasse no pulso um relógio personalíssimo, todo cravejado de cristais, quiçá diamantes ― ou nem isso, camarada?

Nem nada que remeta ao farsante triste e cabisbaixo.

Assombrosamente, leio na fronte do estabelecimento: Rodrigues da Silveira, cronista. À testa da loja, sem que algo diferente apareça, releio e constato escrito: Rodrigues da Silveira, cronista.

Assombrosamente, encontrei a resposta; todas. Encontrei-as. E me assustei de tê-las todas amalgamadas numa pinta. Que o universo veio inteiro na pinta no rosto do moço, nesse ponto acima do lábio superior, nesse buraco negro a me constranger, que me reconheça desejoso de olhá-la (a pinta) de perto, a esquecer de mim pelas maravilhas que ele (o ponto) tem a oferecer-me, esteja à altura dessas oferendas, e esteja lúcido para me perder nessas descobertas, e me reencontre na criança atrás das pernas da mãe, que ali haja proteção.

O vidro da vitrine não conspurca o que há.

Lá, o moço que datilografa numa máquina de escrever tem rabo de cavalo e cavanhaque tingidos de loiro, e usa boina e uma camisetona com o companheiro Kruschev fumando cachimbo.

Aqui, o aperreado que se mordisca na boca torta não está ansioso pelo cachimbinho que nunca pitei.

Sem dar pinta de fantasista, de novo (e novamente) leio: Rodrigues da Silveira, clonista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de agosto de 2024.

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