terça-feira, 13 de agosto de 2024

Parada indigesta

 

Parada indigesta

 

Passando fio dental, vez ou outra forçando que passasse entre os dentes, eis que uma coroa soltou-se. Com o barulho do metal na pia, encarei o infeliz. Confrontado, inspecionei o estrago, listei as próximas ações. Critiquei-me, enfim desastrado.

Tentei ligar, em vão que atendessem. Apelei para o zap, embalde. Teria de ir à clínica, a urgência era latente. Relatei o que houvera, mas realcei a desventura de ter mordido a língua ao mastigar um pedacinho de bife, não um punhado de amendoim japonês.

O que omiti à secretária é que o ar escasseou na subida do morro, mesmo com este senhorzinho vindo lento, já desgostoso com os bem-te-vis e as maritacas, tão solares na tarde calorosamente soalheira.

De manhã, ao contrário, o frio bateu nas minhas fossas nasais e fez a sinusite insinuar-se, insultando o cérebro e fervilhando as sinapses com uns pensamentos de malquerer, com esses malquereres à carne, ao tempo, a essa velhice intransferivelmente tão minha.

De tanta malquerença, este velho imbecil até se revigora pelo que o apraz o próprio sangue, porque, já mordida a língua, este beócio de sempre desperta-se, outra vez vampiro.

Se bem não me alimenta nem o meu sangue, então o quê?

Uma vez que não tem nada que ver com isso, à funcionária que me agradece pela denúncia de que à meia dúzia de ovos da caixinha um teria sido surripiado, a ela desanimo de querer reclamar da friagem que apanhei na caminhada até o super, a latejante da fronte.

No entanto, ela nota o desconforto. Assim que a noto percebida do meu desassossego, vou-me num pé.

Vou-me ao pé de alface. Estabanado ao fechar a boca do saquinho, novamente o desastrado nem se dá conta de que a listinha de compras está novamente perdida.

Refaço meus passos pelo mercado, mas não a encontro. Optando por entrar na fila do pão, paro de procurá-la. Com a sabedoria de quem finge não pensar nisso, dou com a lista aos pés da banca de alface.

Ainda bem que eu não me debati querendo achá-la, porque, ainda sereno, tinha me esquecido de pegar o pacotão de amendoim japonês, guloseima que tanto gosto de beliscar enquanto faço o almoço.

Putz! Por que estou ranzinza?

Não se julgue o homem, julgue-se os atos ― satisfaz-me tal adágio pois: se perdi a lista, a encontrei; o telefone não me ajudou mas minhas pernas, sim; o ovo furtado faz-se em rastro de desvalidos.

O zombeteiro, que me põe encafifado, vejo que se escancara pelos olhos de quem passa, sinto que se diverte a indispor-me, percebo que preciso de um cafezinho, mas presumo que o mais recomendável é dar um pinote do passeio público.

Ao fim e ao cabo, a quem possa interessar, declaro que este idiota, bobo, imbecil, pacóvio, estúpido, ridículo, faz por bem, neste momento, ser energúmeno ventríloquo à Natalia Ginzburg, pois: “eu era eu, e me achava odiosa e não tinha como me separar daquele ser odioso”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de agosto de 2024.

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