terça-feira, 23 de julho de 2024

Dobrando a aposta

 

Dobrando a aposta

 

Um dia depois de ter-se mudado, Domingos estava sem tempo para distrações. Poderiam pedir-lhe as horas; não trouxe o relógio. Queriam grana para pão com ovo; pão engorda e ovo frito aumenta o colesterol. À gente conhecida, o aceno era bom-dia.

Ao mudar-se, a pessoa toma para si a obrigação de esvaziar caixas, sacos e sacolas. Domingos jamais se daria o prazer de usar o indicador para desvelar o próprio nome na poeira das caixas.

Ele não se inscrevia entre aqueles que acham que, desde que não juntem baratas nem atravanquem o caminho, as caixas, os sacos e as sacolas podem ficar amontoados, aguardando a vez de terem os seus conteúdos postos nos lugares apropriados.

Tinha tanto que fazer, então, sim, precisava bancar o chato.

Só porque todo mundo anda aclamando a dignidade do candidato, cuja desistência prova que ele sempre esteve certo de ficar aborrecido com quem o taxava de turrão, o chato não tem que ficar de conversinha sobre política, ainda mais sobre políticos gringos.

Ele sorriu a quem o chamou pelo nome.

― Domingos, aonde vai com essa pressa toda?

Dona Cremilda foi sua vizinha por anos, então, sim, ele responderia sem rodeios nem meneios despropositados:

― Estou indo rapidinho ir tomar a vacina da gripe.

Mostrando-lhe o celular:

― Jesus! Será o Benedito que o senhor não viu no Instagram que a campanha ia acabar na semana passada?

Ele pigarreou. E encolhendo os ombros:

― Poxa. Eu estava embananado com a mudança.

E Dona Cremilda achou bom aquele gancho:

― Seja franco, hein! O senhor está gostando da casa nova?

Quer franqueza? Coçando a testa, Domingos foi cristalino:

― O problema tem sido a cachorrada que late a noite inteira.

Tamborilando os dedos na tela do telefone, ela disse:

― Veja pelo lado bom. Pra afugentar bandido, cachorro tem mesmo que ser barulhento. Mas logo você se acostuma, Domingos.

Como disse? Aquilo foi o bastante:

― Já que não estão mais aplicando a vacina que eu preciso, o jeito é voltar por onde vim.

Desamarrotando o vestido:

― Precisa que eu o ajude de alguma forma?

Longe de incomodar-se com qualquer referência ao dia em que ele ofereceu o tanque para que ela fosse lavar a sua roupa, Domingos tirou o boné para enxugar o suor da testa com o lenço tirado do bolso:

― Gentileza sua, Dona Cremilda. Fico-lhe muito agradecido.

Embora sobressaltada com a possibilidade de que ele se permitisse aproveitar do seu pudor para resgatar a lembrança daquele dia em que se viu constrangida a passar a cumprimentá-lo tão somente pelas boas maneiras de gente educada, ela manteve a elegância:

― Então, seu Domingos, o senhor tenha um bom dia.

Sem salamaleques frufrus, quem sabe realmente ignorante do que acarretavam os meneios de pessoa acentuadamente recatada, apesar da careca suarenta, Domingos achou coisa de cavalheiro curvar-se:

― Até a próxima, minha boa amiga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de julho de 2024.

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