Dobrando
a aposta
Um dia depois de ter-se mudado, Domingos
estava sem tempo para distrações. Poderiam pedir-lhe as horas; não trouxe o
relógio. Queriam grana para pão com ovo; pão engorda e ovo frito aumenta o
colesterol. À gente conhecida, o aceno era bom-dia.
Ao mudar-se, a pessoa toma para si a obrigação
de esvaziar caixas, sacos e sacolas. Domingos jamais se daria o prazer de usar
o indicador para desvelar o próprio nome na poeira das caixas.
Ele não se inscrevia entre aqueles que
acham que, desde que não juntem baratas nem atravanquem o caminho, as caixas, os
sacos e as sacolas podem ficar amontoados, aguardando a vez de terem os seus
conteúdos postos nos lugares apropriados.
Tinha tanto que fazer, então, sim,
precisava bancar o chato.
Só porque todo mundo anda aclamando a
dignidade do candidato, cuja desistência prova que ele sempre esteve certo de
ficar aborrecido com quem o taxava de turrão, o chato não tem que ficar de
conversinha sobre política, ainda mais sobre políticos gringos.
Ele sorriu a quem o chamou pelo nome.
― Domingos, aonde vai com essa pressa
toda?
Dona Cremilda foi sua vizinha por anos,
então, sim, ele responderia sem rodeios nem meneios despropositados:
― Estou indo rapidinho ir tomar a vacina
da gripe.
Mostrando-lhe o celular:
― Jesus! Será o Benedito que o senhor
não viu no Instagram que a campanha ia acabar na semana passada?
Ele pigarreou. E encolhendo os ombros:
― Poxa. Eu estava embananado com a
mudança.
E Dona Cremilda achou bom aquele gancho:
― Seja franco, hein! O senhor está
gostando da casa nova?
Quer franqueza? Coçando a testa,
Domingos foi cristalino:
― O problema tem sido a cachorrada que
late a noite inteira.
Tamborilando os dedos na tela do
telefone, ela disse:
― Veja pelo lado bom. Pra afugentar
bandido, cachorro tem mesmo que ser barulhento. Mas logo você se acostuma,
Domingos.
Como disse? Aquilo foi o bastante:
― Já que não estão mais aplicando a vacina
que eu preciso, o jeito é voltar por onde vim.
Desamarrotando o vestido:
― Precisa que eu o ajude de alguma forma?
Longe de incomodar-se com qualquer
referência ao dia em que ele ofereceu o tanque para que ela fosse lavar a sua
roupa, Domingos tirou o boné para enxugar o suor da testa com o lenço tirado do
bolso:
― Gentileza sua, Dona Cremilda. Fico-lhe
muito agradecido.
Embora sobressaltada com a possibilidade
de que ele se permitisse aproveitar do seu pudor para resgatar a lembrança
daquele dia em que se viu constrangida a passar a cumprimentá-lo tão somente
pelas boas maneiras de gente educada, ela manteve a elegância:
― Então, seu Domingos, o senhor tenha um
bom dia.
Sem salamaleques frufrus, quem sabe
realmente ignorante do que acarretavam os meneios de pessoa acentuadamente recatada,
apesar da careca suarenta, Domingos achou coisa de cavalheiro curvar-se:
― Até a próxima, minha boa amiga.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de julho de 2024.
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