domingo, 28 de julho de 2024

Muito a declarar

 

Muito a declarar

 

Qualquer barulhinho, acordo. Não tenho sono leve, as apreensões é que são sorrateiras. Dão o bote bem quando boio em águas plácidas, boas para cochilar, ótimas para sonhar. No entanto, acordam-me com os caninos na minha jugular. A aflição angustia sem que eu identifique o motivo para esse desconcerto. Preocupação é coisa sem vacina, me infecta como lambidinha na orelha, sussurrando sossegos, sugerindo-me que durma tranquilo, mas me acorda sem dó. Em outras palavras, a ponto do beijo na boca, pedindo à língua que me lubrifique os nervos, é quando o olho no meio da testa pisca que pisca, até que me entenda que dormia tendo a cachola em modo avião. Pois é, ainda que pululem coelhos garganta afora, aviões caem e a boca arremata: perdeu!

Que a noite me guarde de meus pressentimentos. Ignoro os jornais. Sequer ingiro o copo de água regulamentar. Contrario a rotina, resolvo ir caminhar como quem dormira bem.

Não que eu saiba o que seja uma boa noite de sono, pois acalento minhas tolices como pessoa cativada pelo lado solar da vida, que não vejo a merda que eu faço a cada passo, palavra ou apagão.

Ser acordado no meio da madrugada pela sensualidade do suor na nuca por ter escorrido detrás das orelhas, é bom que não me horrorize pelo desejo de ser lambido, seduzido, renomeado vencedor.

Sou só outro herói despertado pros desencantos do mundo.

A sucuri serpeja pelo Sorocabuçu; suponho que as águas sejam de beber; que haja tratamento até que os coliformes estejam aceitáveis a quem tem sede, a quem precisa hidratar-se, a quem acorda com sede no meio dessa madrugada rancorosamente silenciosa.

Ainda que a lua entre na fase minguante, acordo desconfiado, outra vez sou acordado pela dormência, pelas agulhadas, que havia dormido com o pescoço torto, pesando na coluna, na C3 desviada.

Não tenho, porém, nenhum impedimento para falar.

E falo que zanzava serelepe por aí. Beija-flor de flor em flor, por aí eu beijocava quem vinha ter comigo. Com malícia, lascava bitoquinhas amorosas de gente carinhosa, pois sempre gostei de ser essa pessoa afetuosa que beija antes de ser beijada.

Acredito no uso passional do que me afeta. Quando sofro pelo que tenho sentido, penso que o mundo que não me acalanta é igual àquele que me faz suar. Uma vez suado, beberico o copo d’água. Ao bebê-lo sem pressão alguma, recordo que sonhara.

Sob luz intensa, um velho que andava com dificuldades tinha uma sombrinha para protegê-lo do sol de rachar bambu.

Um jovem de coque de samurai de história em quadrinho veio com um guarda-chuva enorme, mas o senhor da sombrinha recusou-se a abandoná-la.

O rapaz de rosto branco feito boneco de laca foi atrás do coreto pra ressurgir com um guarda-sol, então o cavalheiro da sombrinha sorriu, porque o objeto trazia o logo daquela cerveja que ele tanto gostava de beber até apagar de vez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de julho de 2024.

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