terça-feira, 30 de julho de 2024

Acerto de contas

 

Acerto de contas

 

Eventualmente tomo como ofensivo o comportamento de gente que caga regras sobre eleições limpas, paródias dionisíacas e um dedinho da prosa mais encaixadinha para os dias correntes.

Hum. Correntes de ouro, prata ou bronze?

Sou de carne e não de ouro. E a minha carne tem prioridade quando a vagabundagem quer imperar, bato-me por aí, porque a rua me viciou há tempos.

Assumidamente dependente dos eventos fortuitos que encontram em mim cama e café, curto à beça a informalidade com que as gentes tratam de situações que se revelam engraçadas.

Nunca fui menino de ouro nem argentino, pude o prazer de deslizar na lama quando as tardes de chuva eram de fuzarcas.

Como envelheci, eu mesmo lavo as roupas enlameadas. O que não me impede de caminhar ainda que chova, ainda que passe por rua de terra, e muito embora, errado o passo, eu caia de cabeça na lama.

Dois ou três palavrões cortam o drama.

Acho um porre a ladainha dessa gente que passa o dia acusando o desleixo da prefeitura, que há muito deveria ter asfaltado todas as ruas pelas quais ela passa.

Vou ao léu. Sem outra intenção que a do meu corpo a pedir a dose diária de contato humano. Que as pessoas, afinal, são boas loroteiras quando falam de si, dos vizinhos e dos primos distantes que votam em quem a gente quer ver pelas costas, tão detestável.

Como sói acontecer...

Depois da caminhada debaixo da chuva fria, já as olheiras enfeiam, a barriga entulha, por estar febril, com dor de cabeça e dor nas juntas, a palavra que acredito seja a que melhor defina o meu atual sentimento é: felicidade.

Saiba você que estou feliz porque meu amanhã será outro.

Dispensado da caminhada de uma hora, ficarei no sofá. Sem ter a consciência pesada por ver o Doutor House, beberei café frio. Tossindo dia e noite, tendo alcançado esse futuro transfigurado, irei ao médico.

Eu não temerei a verdade. Confessar-lhe-ei a minha decepção com a natureza, a punir-me sem ter motivo, a cobrar de mim que sofra sem por quê.

Porque não estarei com frescurite, manterei a seriedade da cabeça baixa enquanto tomar um cata daqueles, não resmungarei ao prever o quanto custarão os exames que bienalmente me disponho a fazê-los e agradecê-lo-ei pelo lembrete que tenho trinta dias ou a minha próxima vinda será uma nova consulta.

De vez em quando, percebo que a felicidade muito se assemelha a desses alunos que gostam de mostrar aos pais os exercícios corrigidos sem tinta vermelha; o que, todavia, mais veneram em seus cadernos é a tinta verde dos acertos.

Já que vadiagem é práxis, o vagal cede, por sua conta e risco, que a hora passe, a febre baixe, a tosse cesse, o mundo também se mexa, a alvorada venha rósea.

No duro, o certo é enfrentar as muriçocas das picadas já lavradas, pois há de haver quem classifique o Jerome Brouillet de blasfemo pelo clique do Gabriel Medina levitando em Teahupo’o.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de julho de 2024.

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