quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Duas vias

 

Duas vias

 

A estrepitosa queda de uma árvore lá onde nunca fui nem pretendo ir, dela o que tenho a dizer é que não me sobressalta sequer dá-la por considerável, algo (portanto) interessante, um ambiente a ser protegido das minhas tantas indiferenças.

Já a verruga removida do nariz do nenê recém parido, nisso o que impressiona é entrevê-la revivida nele, quando o mesmíssimo nariz for moço, porquanto penduricalho bruxo em noite de bruxas.

Há quem muito se satisfaça em espalhar lorotas como se houvesse para si um maior proveito que a pecha de futriqueiro, porém a mim, que me diverte replicá-las, há quem até se aborreça de apodar-me infantil, um babaquara pequeno burguês.

Sim, senhor, sou mesmo pequeno, um tampinha careca, um míope barrigudo, nem por isso sinto-me mais feliz ou mais desesperado, pois continuo abstêmio, eleitor contumaz, um bem consolidado democrata. Ou somente outro sujeito escondido numa (efêmera) identidade.

Ainda que tropece, mesmo machucado, pela rua eu vou.

Subitamente, paro. Sou pego pela necessidade de olhar em volta. Preciso reconhecer a esquina. Quero saber quem são as pessoas que passam. Entretanto, relativizo a minha condição: dessas que passam, poucas se importam quem seja essa pessoa parada.

Não me abate que muitas não me vejam, e apenas desviem. Ainda que olhem, não sabem por mim qual a pessoa que eu bem gostaria de ser notada. Não abala ser um estranho a muita gente, que sequer sabe o que ambiciono.

Parado na esquina, não fumo e não fuço o telefone.

Se ao menos ostentasse no pulso um relógio personalíssimo, todo cravejado de cristais, quiçá diamantes ― ou nem isso, camarada?

Nem nada que remeta ao farsante triste e cabisbaixo.

Assombrosamente, leio na fronte do estabelecimento: Rodrigues da Silveira, cronista. À testa da loja, sem que algo diferente apareça, releio e constato escrito: Rodrigues da Silveira, cronista.

Assombrosamente, encontrei a resposta; todas. Encontrei-as. E me assustei de tê-las todas amalgamadas numa pinta. Que o universo veio inteiro na pinta no rosto do moço, nesse ponto acima do lábio superior, nesse buraco negro a me constranger, que me reconheça desejoso de olhá-la (a pinta) de perto, a esquecer de mim pelas maravilhas que ele (o ponto) tem a oferecer-me, esteja à altura dessas oferendas, e esteja lúcido para me perder nessas descobertas, e me reencontre na criança atrás das pernas da mãe, que ali haja proteção.

O vidro da vitrine não conspurca o que há.

Lá, o moço que datilografa numa máquina de escrever tem rabo de cavalo e cavanhaque tingidos de loiro, e usa boina e uma camisetona com o companheiro Kruschev fumando cachimbo.

Aqui, o aperreado que se mordisca na boca torta não está ansioso pelo cachimbinho que nunca pitei.

Sem dar pinta de fantasista, de novo (e novamente) leio: Rodrigues da Silveira, clonista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de agosto de 2024.

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Um barulho desses

 

Um barulho desses

 

Aí está, como se deu a abordagem, eis que os dois tapinhas no meu ombro trouxeram-me à crônica.

Não chiei. De imediato, só preferi não sorrir.

Com a transparência de represar o meu contentamento por ter sido reconhecido, envaideceu-me ouvir traçada a linhagem a qual pertenço, de filho desta Terra Preta desde o século 18.

Sorriria com a mais sincera tolerância se conhecesse quem dera as batidinhas no ombro, posto que poderia chamá-lo pelo nome completo, tal qual mamãe quando me instituía em reizinho.

Não sendo a primeira vez que o luar não ilumina os meus caminhos, já que, amiúde, me desnorteio na escuridão das madrugadas, ele doía porque dei uma baita topada num batente.

Tirando mamãe do que virá, e para a alegria de quem gosta de ver o calhambeque explodindo no picadeiro, o narrador está muito a fim de palhaçada.

Maluco por detonações do que posso implodir sem as censuras de uma alma bem cultivada, fui paciente com os perdigotos, uma vez que, se não me desse ouvidos, o pavio resultaria molhado.

Bom ateu que sabe o quão afetuoso é desejar um domingo na paz do senhor, devolvendo os dois tapinhas no ombro amigo, disse-lhe que o mundo ainda pode revelar-se surpreendente.

A realidade esconde o tanto de gente valorosa, gente que não bate no peito a cada vez que paga uma conta em dia, gente solícita que não se furta ao pingado com pão na chapa a quem os esmole.

Poderia ter desejado que tivéssemos um belo domingo, o altruísta, todavia, se sobressaiu.

― O senhor aceita que lhe pague um cafezinho?

Antes que eu me tomasse por idiota, fomos bebê-lo.

Sem detença, mostrou-me a postagem que publicara. Não só, uma vez que, sentindo-me cordial, ele tomara para si a leitura.

O peixe não sabe o que sejam água, nadar e minhoca, ainda que o seu habitat seja a água, que bater as barbatanas ajude-o a circular pela água e que as minhocas são bichos que o alimentam.

Assim como Netuno, o peixe reina na água.

Ainda que ignore quais os determinismos da natureza que o tenham feito nascer peixe e o destinem a morrer um, o peixe não conhecerá a felicidade de saber-se nascido para morrer como peixe.

Assim como Dori, o peixe não precisa se lembrar de comer porque a sua boca não sabe ficar fechada.

Um jeito prático para um peixe parar quieto é entupi-lo de minhoca, fisgando-o. Porque Deus ensina a pescar a cada vez que pegamos da vara e damos linha à minhoca que enfiamos no ventre que nunca para de correr.

Assim como a vida é um rio que não para de passar, também nós, humanos e imortais, passaremos ao seio de Deus quando for o tempo de sermos passados.

E só pelas boas pescarias que daremos em bom pescado.

Assim Deus tudo ceva e fisga, que Sua palavra tanto é rio que não seca quanto o que afoga a ímpios e injustos; tanto Deus é a água que alimenta quanto é o Sena que tira do páreo quem zomba da resistência da nossa gente mais resiliente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de agosto de 2024.

domingo, 4 de agosto de 2024

O sistema

 

O sistema

 

Ligo o computador; cuido dos e-mails; leio os jornais; abro o WORD; escrevo, apago; escrevo novamente, mas não apago; se ocorrer de ter uma palavra menos certinha, reescrevo; estou disposto a escrever algo que aborreça, afaste o leitor que toma a página como espelho; escolho a palavra mais apropriada para desafinar comigo e com quem lê.

Encontrada a vereda pela qual ouvirei cantarem os meus canários, vem o bem-te-vi me desviar do propósito, pondo-me a dançar, já a mão dando apoio à cabeça, já os olhos espiando pela janela, que o bichinho canta alto, canta afinado, canta apesar da torre de celular que lhe serve de poleiro.

Como o computador não deu pau nem o WORD travou, caso o meu texto não avance, então, a quem poderei culpar?

Para sacar melhor a pergunta, um interlúdio.

Era sábado. Na manhã ensolarada, uma criança brincava sozinha. O menino brincava como se mais alguém houvesse com ele. Falando, o pequeno engenheiro trazia água na concha das mãos. Aprumando o barro, ergueram-se paredes. Eram quatro as paredes erguidas, e duas eram breves e duas, longas. Com breves e longas, sem janelas e sem portas, à forma calhava faltar o telhado.

Era sábado e a manhã tinha sol, mas o menino não fez andorinhas nem pardais, ele moldou o cômodo. Era um cubículo no qual faltavam estrado, jarro de água e o bispote para as regulares evacuações.

Para que a luz do sol impedisse qualquer fuga, o aposento foi feito sem telhado. Pra dentro daquela cela, no entanto, vieram os pardais e as andorinhas que o menino não almejara soprar-lhes os moldes.

Apesar do sol, andorinhas e pardais pipilaram em pleno sábado.

Dona Cremilda diz que a falta de fé não paralisa a montanha, cega para o milagre. Quer prodígio maior que a própria superação?

Considere-se: a) Deus está morto, apud Nietzsche; b) Se Deus está morto, tudo é permitido, apud Ivan Karamazov; c) pôr ketchup em quibe prova que Ele permite tudo, apud Cláudia Mara.

Cláudia Mara é filha de Claudiomiro Malaquias, aquele que vendera enciclopédias, de porta em porta, décadas antes de a Wikipédia tornar obsoletos catálogos impressos e estantes.

Não sei se Deus aprova, mas Cláudia Mara gosta de ir à missa com Dona Cremilda, uma vez que ambas disputam quem sustenta o Agnus Dei mais diáfano.

Como quero inventado que seja assim, sei que não há cristão que se furte à euforia de parabenizar, separadamente, esta ou aquela pelo canto afinado, pelo recato ao cantar, pelo requintado chapeuzinho com véu tão caro à madame Darcy Sarmanho.

Sem escamotear qual a minha posição no que narro, digo que Dona Cremilda e Cláudia Mara não sabem nada de nada dessa tal de Darcy Sarmanho.

Responsável por ser a pessoa que dita aonde vai o que é contado, tiro o chapéu pro Darcy Ribeiro:

"O Brasil é um enorme país de classes privilegiadas que não se dão conta de que a miséria é uma agressão."

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de agosto de 2024.

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Normalista

 

Normalista

 

É compreensível, portanto tolerável, que o homem em questão não se importe de ignorar que houve um tempo em que algumas damas da nossa gente eram conservadas internas em certas instituições, ilustres pelo famigerado ministério do bom uso de linhas e agulhas, que as bem habilitavam para bordados, crochês ou tricôs e, pela justiça à língua na felicidade de bem fazê-los, cosendo e chuleando.

Foi-se o tempo, bom homem, que tais senhoras distintas ganhavam em ser prendadas, domésticas, tão boas normalistas.

Entretanto, camarada, a sala da sua casa vive bagunçada.

O cinzeiro está no chão. As almofadas hão de ser repostas no sofá. As revistas têm que ser empilhadas na mesinha de centro. As bitucas carecem de ser catadas de cima do tapete. Pratos, copos e latinhas, o seu lugar é a pia. Barata morta e bolotas de poeira, clamem por lixeira, pá e vassoura. Escadinha já usada e lâmpada queimada, cada qual vá em frente.

Esta bagunça não pode continuar intocada, é preciso dar um basta. Faz-se mister barrar o seu alastramento, porque é preciso evitar que a daninha chegue ao quarto.

O corpo são na mente sã e vice-versa.

Uma vez que a espinha começa na nuca, a cabeça funciona melhor quando o pescoço fica assentado numa almofadinha já afofada. Melhor ainda, travesseiro, a coluna ereta mantém a cabeça erguida, o maxilar sereno e, saudável esperança, a saliva não entra em ebulição. Embora a pressão suba, os nervos ressintam-se de algum sossego, seja bom consigo. Não exija o mínimo. Seja capaz de pensar que pode o melhor, que sabe o que é bom para si. Faça-se melhor até para os outros, para esses que se importam com o seu desempenho. Sem afetar prostração como cansaço, promova a justiça de varrer a casa inteirinha. Por temer infecções bacterianas, não postergue, e passe pano no chão. Ponha-se todo nisso de ser útil: vá lavar o quintal, recolher as fezes dos cães, queimar as folhas e jogar os sacos na caçamba da esquina.

Depois desta jornada verdadeiramente produtiva, observe-se, não se julgue o pior dos homens de seu tempo, sussurre-se:

Feliz é o homem justo porque é bom.

Camarada da cidadania socialmente responsável, embora você não espere que o espelho lhe seja gentil, responda, sem fazer careta, o que entenda que deva ser levado a sério.

― Se não fosse eu pôr o cachecol, o pescoço seguiria exposto?

― Neste ano, o inverno está mais quente.

― Se não fosse eu calçar as luvas, as mãos congelariam?

― Para dar joinha, luva é cafona.

― Se não fosse eu lutar pelas botas, seu queixo bateria?

― Que horror! Dentes rangendo é bruxismo.

― Se não fosse eu picar a mula da montanha, você ainda sonharia com caipirinha, frescobol e bicho geográfico.

Ao fim e ao cabo, ponha-se na ata que é perfeitamente normal que o camarada aspire ao cargo de cidadão prudente e antenado, até para não viralizar feito papagaio de pirata.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de agosto de 2024.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Acerto de contas

 

Acerto de contas

 

Eventualmente tomo como ofensivo o comportamento de gente que caga regras sobre eleições limpas, paródias dionisíacas e um dedinho da prosa mais encaixadinha para os dias correntes.

Hum. Correntes de ouro, prata ou bronze?

Sou de carne e não de ouro. E a minha carne tem prioridade quando a vagabundagem quer imperar, bato-me por aí, porque a rua me viciou há tempos.

Assumidamente dependente dos eventos fortuitos que encontram em mim cama e café, curto à beça a informalidade com que as gentes tratam de situações que se revelam engraçadas.

Nunca fui menino de ouro nem argentino, pude o prazer de deslizar na lama quando as tardes de chuva eram de fuzarcas.

Como envelheci, eu mesmo lavo as roupas enlameadas. O que não me impede de caminhar ainda que chova, ainda que passe por rua de terra, e muito embora, errado o passo, eu caia de cabeça na lama.

Dois ou três palavrões cortam o drama.

Acho um porre a ladainha dessa gente que passa o dia acusando o desleixo da prefeitura, que há muito deveria ter asfaltado todas as ruas pelas quais ela passa.

Vou ao léu. Sem outra intenção que a do meu corpo a pedir a dose diária de contato humano. Que as pessoas, afinal, são boas loroteiras quando falam de si, dos vizinhos e dos primos distantes que votam em quem a gente quer ver pelas costas, tão detestável.

Como sói acontecer...

Depois da caminhada debaixo da chuva fria, já as olheiras enfeiam, a barriga entulha, por estar febril, com dor de cabeça e dor nas juntas, a palavra que acredito seja a que melhor defina o meu atual sentimento é: felicidade.

Saiba você que estou feliz porque meu amanhã será outro.

Dispensado da caminhada de uma hora, ficarei no sofá. Sem ter a consciência pesada por ver o Doutor House, beberei café frio. Tossindo dia e noite, tendo alcançado esse futuro transfigurado, irei ao médico.

Eu não temerei a verdade. Confessar-lhe-ei a minha decepção com a natureza, a punir-me sem ter motivo, a cobrar de mim que sofra sem por quê.

Porque não estarei com frescurite, manterei a seriedade da cabeça baixa enquanto tomar um cata daqueles, não resmungarei ao prever o quanto custarão os exames que bienalmente me disponho a fazê-los e agradecê-lo-ei pelo lembrete que tenho trinta dias ou a minha próxima vinda será uma nova consulta.

De vez em quando, percebo que a felicidade muito se assemelha a desses alunos que gostam de mostrar aos pais os exercícios corrigidos sem tinta vermelha; o que, todavia, mais veneram em seus cadernos é a tinta verde dos acertos.

Já que vadiagem é práxis, o vagal cede, por sua conta e risco, que a hora passe, a febre baixe, a tosse cesse, o mundo também se mexa, a alvorada venha rósea.

No duro, o certo é enfrentar as muriçocas das picadas já lavradas, pois há de haver quem classifique o Jerome Brouillet de blasfemo pelo clique do Gabriel Medina levitando em Teahupo’o.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de julho de 2024.

domingo, 28 de julho de 2024

Muito a declarar

 

Muito a declarar

 

Qualquer barulhinho, acordo. Não tenho sono leve, as apreensões é que são sorrateiras. Dão o bote bem quando boio em águas plácidas, boas para cochilar, ótimas para sonhar. No entanto, acordam-me com os caninos na minha jugular. A aflição angustia sem que eu identifique o motivo para esse desconcerto. Preocupação é coisa sem vacina, me infecta como lambidinha na orelha, sussurrando sossegos, sugerindo-me que durma tranquilo, mas me acorda sem dó. Em outras palavras, a ponto do beijo na boca, pedindo à língua que me lubrifique os nervos, é quando o olho no meio da testa pisca que pisca, até que me entenda que dormia tendo a cachola em modo avião. Pois é, ainda que pululem coelhos garganta afora, aviões caem e a boca arremata: perdeu!

Que a noite me guarde de meus pressentimentos. Ignoro os jornais. Sequer ingiro o copo de água regulamentar. Contrario a rotina, resolvo ir caminhar como quem dormira bem.

Não que eu saiba o que seja uma boa noite de sono, pois acalento minhas tolices como pessoa cativada pelo lado solar da vida, que não vejo a merda que eu faço a cada passo, palavra ou apagão.

Ser acordado no meio da madrugada pela sensualidade do suor na nuca por ter escorrido detrás das orelhas, é bom que não me horrorize pelo desejo de ser lambido, seduzido, renomeado vencedor.

Sou só outro herói despertado pros desencantos do mundo.

A sucuri serpeja pelo Sorocabuçu; suponho que as águas sejam de beber; que haja tratamento até que os coliformes estejam aceitáveis a quem tem sede, a quem precisa hidratar-se, a quem acorda com sede no meio dessa madrugada rancorosamente silenciosa.

Ainda que a lua entre na fase minguante, acordo desconfiado, outra vez sou acordado pela dormência, pelas agulhadas, que havia dormido com o pescoço torto, pesando na coluna, na C3 desviada.

Não tenho, porém, nenhum impedimento para falar.

E falo que zanzava serelepe por aí. Beija-flor de flor em flor, por aí eu beijocava quem vinha ter comigo. Com malícia, lascava bitoquinhas amorosas de gente carinhosa, pois sempre gostei de ser essa pessoa afetuosa que beija antes de ser beijada.

Acredito no uso passional do que me afeta. Quando sofro pelo que tenho sentido, penso que o mundo que não me acalanta é igual àquele que me faz suar. Uma vez suado, beberico o copo d’água. Ao bebê-lo sem pressão alguma, recordo que sonhara.

Sob luz intensa, um velho que andava com dificuldades tinha uma sombrinha para protegê-lo do sol de rachar bambu.

Um jovem de coque de samurai de história em quadrinho veio com um guarda-chuva enorme, mas o senhor da sombrinha recusou-se a abandoná-la.

O rapaz de rosto branco feito boneco de laca foi atrás do coreto pra ressurgir com um guarda-sol, então o cavalheiro da sombrinha sorriu, porque o objeto trazia o logo daquela cerveja que ele tanto gostava de beber até apagar de vez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de julho de 2024.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Manhãzinha pacata

 

Manhãzinha pacata

 

Descendo a rua, cabisbaixo a pensar, ao dar com aquela nota caída no chão, o mais rápido que consegui e com a maior discrição que pude, não titubeei, porque não me queria observado a apanhar da calçada o fruto do distraído que passara.

Descendo a rua com as sacolas, aquela nota dobradinha que enfiei no bolso, foi em casa, foi só depois de guardar cada item comprado no lugar certo é que fui descobrir qual o seu valor exato, que ela não valia os dois reais que supus e, sim, aquele pedaço de papel era uma nota de cem, valor bastante para a restituição do que eu gastara.

Descendo a rua com as sacolinhas que, mesmo que nem soubesse ter pescado uma garoupa vividamente azulada, iam pesando menos a cada passo, parei assim que ouvi os quero-queros.

Parado debaixo das árvores, avistei-os. Pensei ter ouvido tero-tero, nem eram gazeados. Certamente não eram maritacas, pois grasnados quem os faz são patos.

Dois patos sobrevoaram onde eu estava. Observei-os, que a dupla voava em círculo. Vi o par completar uma volta grande; ele circunvoara um terceiro, um patinho. Porque, provavelmente, era filhote em um dos seus primeiros voos, circunvagaram-no para incluí-lo.

Se lado a lado, os três patos voaram embora, foram na direção do rio que fica no sopé do Morro da Figueira, retive aqueles grasnados.

Descendo de gente que nunca precisou matar para sobreviver, mas comia como se o amanhã jamais haveria de estagnar-se, uma vez que a natureza era provedora, que a sua finalidade, estação após estação, era dar garças, gansos, patos e marrecos.

Vovô tinha apitos. Ele piava conforme chamasse por patos, gansos, marrecas, marrecões, codornas, perdizes, rolas, inhambus, jacutingas, juritis, jaós, macucos e saracuras.

Já os tucanos, vovô nunca foi de piar por eles e sempre foi sincero ao reprimir a origem do seu menosprezo; quiçá pelo grande bico curvo, sendo ele justamente próprio pra vencer a casca de nozes, castanhas, amendoins e pau-brasil.

Se eu soubesse a razão, entenderia.

Se entendesse a natureza das coisas, quem sabe eu justificasse a sensação de que a vida está por um fio, que noves fora são realmente noves fora, que a natureza é bela, equilibrada, feita para continuar viva, belíssima e harmoniosa, ou a arte não entreteria tanto.

Tanto diverte que, ainda no quarteirão do mercado, veio-me à ideia aquele dia glacial pelo ventinho importuno.

Nesse dia, estava em mais uma dessas filas que fingem não haver vida fora delas. Entediado, então, com a morosidade, espiei pelo vidro da agência e o que vi demandou que fosse averiguar o que se passava. Então, a debandada do banco foi-me incontinenti.

No evento estavam envolvidos um rapaz e policiais a persuadi-lo a ir na viatura. Bem embaraçados, gritavam. Sem a carência de celulares a gravarem o aguardado banho de sangue, o trio arrancou da praça.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de julho de 2024.

terça-feira, 23 de julho de 2024

Dobrando a aposta

 

Dobrando a aposta

 

Um dia depois de ter-se mudado, Domingos estava sem tempo para distrações. Poderiam pedir-lhe as horas; não trouxe o relógio. Queriam grana para pão com ovo; pão engorda e ovo frito aumenta o colesterol. À gente conhecida, o aceno era bom-dia.

Ao mudar-se, a pessoa toma para si a obrigação de esvaziar caixas, sacos e sacolas. Domingos jamais se daria o prazer de usar o indicador para desvelar o próprio nome na poeira das caixas.

Ele não se inscrevia entre aqueles que acham que, desde que não juntem baratas nem atravanquem o caminho, as caixas, os sacos e as sacolas podem ficar amontoados, aguardando a vez de terem os seus conteúdos postos nos lugares apropriados.

Tinha tanto que fazer, então, sim, precisava bancar o chato.

Só porque todo mundo anda aclamando a dignidade do candidato, cuja desistência prova que ele sempre esteve certo de ficar aborrecido com quem o taxava de turrão, o chato não tem que ficar de conversinha sobre política, ainda mais sobre políticos gringos.

Ele sorriu a quem o chamou pelo nome.

― Domingos, aonde vai com essa pressa toda?

Dona Cremilda foi sua vizinha por anos, então, sim, ele responderia sem rodeios nem meneios despropositados:

― Estou indo rapidinho ir tomar a vacina da gripe.

Mostrando-lhe o celular:

― Jesus! Será o Benedito que o senhor não viu no Instagram que a campanha ia acabar na semana passada?

Ele pigarreou. E encolhendo os ombros:

― Poxa. Eu estava embananado com a mudança.

E Dona Cremilda achou bom aquele gancho:

― Seja franco, hein! O senhor está gostando da casa nova?

Quer franqueza? Coçando a testa, Domingos foi cristalino:

― O problema tem sido a cachorrada que late a noite inteira.

Tamborilando os dedos na tela do telefone, ela disse:

― Veja pelo lado bom. Pra afugentar bandido, cachorro tem mesmo que ser barulhento. Mas logo você se acostuma, Domingos.

Como disse? Aquilo foi o bastante:

― Já que não estão mais aplicando a vacina que eu preciso, o jeito é voltar por onde vim.

Desamarrotando o vestido:

― Precisa que eu o ajude de alguma forma?

Longe de incomodar-se com qualquer referência ao dia em que ele ofereceu o tanque para que ela fosse lavar a sua roupa, Domingos tirou o boné para enxugar o suor da testa com o lenço tirado do bolso:

― Gentileza sua, Dona Cremilda. Fico-lhe muito agradecido.

Embora sobressaltada com a possibilidade de que ele se permitisse aproveitar do seu pudor para resgatar a lembrança daquele dia em que se viu constrangida a passar a cumprimentá-lo tão somente pelas boas maneiras de gente educada, ela manteve a elegância:

― Então, seu Domingos, o senhor tenha um bom dia.

Sem salamaleques frufrus, quem sabe realmente ignorante do que acarretavam os meneios de pessoa acentuadamente recatada, apesar da careca suarenta, Domingos achou coisa de cavalheiro curvar-se:

― Até a próxima, minha boa amiga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de julho de 2024.

domingo, 21 de julho de 2024

Mago Patológico

 

Mago Patológico

 

A xícara não está pela metade, o café sobe à boca; venha o dia que vier, vai encará-lo. Capaz de confundir o justo no ajustado, dispensa o pensamento de indispor-se a quem o ponha contraditório.

A xícara vazia, sem sombras de borra, o dia seja como for; no fundo, o mundo que o aguarde inusualmente ligeiro.

Não que acordara mais lesto, segue lerdo nos gestos e na captação de agudezas. Tendo ir deitar um e levantado outro, preserva-se em ser o mesmo. Por somente, menos triste ou mais sutil.

A cômoda ao lado da cama compreende-o: duas listas dormem uma ao lado da outra: a dos afazeres e, sequer inscrita no rol das tarefas, a dos itens por comprar no super.

Ele acha por óbvio, a cômoda nada tem de máquina do tempo para transformar o passado no presente, já os papeizinhos...

Ontem, ao longo do dia, ao lembrar-se disso e daquilo, corria para não esquecer, fosse alface, molho de pimenta, patinho moído e o papel higiênico.

Pra orientá-lo na manhã seguinte, colocava, ao deitar-se, a lista sob os óculos. Caso houvesse esquecido o sabonete de glicerina ou a meia dúzia de bananas, enxergando as ausências, in loco, corrija-se.

Ao fim e ao cabo, sem mistificação, e por simplicidade, o escriba do passado comunica-se com o leitor de agora; a vida vai em dia.

Não se rogue simplório, que o engenho humano pode tal desleitura: o ser humano que era um antes de dormir está feito outro ao despertar, uma vez que há passado pelo mundo dos sonhos.

A travessia dá sentido à transfiguração: a pessoa que sonha é quem se lembrará do sonhado. Conquanto se apresentem distintas, a que se recorda é, mesmo e ainda, a pessoa que sonha.

Em outras palavras: a um só tempo, o ovo é a galinha.

Galinha cacareja, mas não voa. Cisca, busca minhocas, bica o que pareça comestível. Ave que não voa, será por que tem coxinha na asa? Ou será que comer o que surja no chão ciscado torna-a apetecível por demais da conta?

Se galinha é bicho engraçado, desengonçado, é o galo que irrita ― cantando na aurora, interrompendo o sono, revelando que sonho dura uma eternidade quando a gente dorme.

O esperado era acordar tranquilo, pois dormira bem. Fora pra cama bem depois de ter comido uma banana, uma maçã e outra banana. Já enfiado no pijama, não se abstivera do rotineiro copinho de leite trazido à cômoda há instantes.

Sem aranhas pondo ovos nas crateras dos molares, ideia supimpa é, sob os cuidados de gente que domina artes culinárias, o cantor das alvoradas virar ensopado mui delicioso.

Na falta de sopa, a omelete será feita com dois ovos, duas fatias de muçarela, cebola picada, a pitada de sal, o choro de orégano e argúcia pra manipular os materiais.

Pra completar, a salada precisa ter o cinto de utilidades do Batman ou a capa do Superman?

Por tirar fina das mãos tão ansiosas para destroncar-lhe o pescoço, é simples, basta Homer ter os abanos do Pateta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de julho de 2024.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Outra arenga na ponta da língua

 

Outra arenga na ponta da língua

 

A primeira vez que me escalaram pra orador de turma, testemunhei o substituto nem se referir a quem o convenceu a brilhar no palco; quiçá nem tenha sido isso que me fez segredar à escola que a oportunidade desse brilho partira de mim, cuja timidez devia pouco à vaidade.

A primeira vez que tive orgulho de não seguir indolente, permiti que passasse na frente uma desconhecida que confidenciou a mim, logo a alguém que não deixava de ser-lhe estranho, que, no carrinho, à porta do posto de saúde a filha febril a esperava.

A primeira vez que me fizeram de bobo, acreditei que toda besteira se resolve no braço, puxando o cabelo, dando rasteira, fazendo de tudo para merecer gritos, palmas e dois putativos beijinhos curativos.

A primeira vez que usei costeletas de carvão, alertaram que fulana que tinha medo de cobra não dava pista, alertaram que beltrana virava estátua quando via a ponte quebrada, mas, no balancê da jornada, me esposaria à mulher do padre.

A primeira vez que levei o vinho na missa das dez, não tive o arrojo de constatar o domingo cheio ou tropeçaria no saião, porquanto jamais houvera eu higienizado o cálix com uma lambidinha.

A primeira vez que deixaram repetir o prato, trocaram coxa por asa, negaram o parmesão no espaguete e ralharam o quão mal-agradecido eu era, porque a primeira comunhão fora memorável, sem que patetice alguma levasse à minha autoria.

A primeira vez que julguei merecedor de aplauso, a chuva derrubou árvores, postes e a minha ligação com o estoicismo, evitando que luzes repentinamente acesas patenteassem-me uma barata.

A primeira vez que contei que depois de ter lido Carta ao Pai pensei em escrever Carta ao Filho, disseram-me atrevido; ao insistir que seria algo cômico, taxaram vulgar minha esperança.

A primeira vez que debochei de quem me esculachava, partiram pra ignorância, apelaram pra murros e pontapés, convenceram-me de que certo é quem não perde de fazer valer o quão certo está.

A primeira vez que entrei num rio, custaram acreditar que não sabia nadar, pois nada fiz que revelasse a iminência do desastre, eu apenas afundei, afundei e, no tanto pela terceira afundada, me debati.

A primeira vez que me salvaram de uma desgraça, não explicaram que desmaiar era provável, já que não tinha comido nem um pedacinho de pão nas últimas vinte e quatro horas, entretanto, sem mencionarem o tranquilizante dissolvido, tive que virar o copo d’água.

A primeira vez que a cabeça estava explodindo, nem quis saber que as marcas das cintadas nas pernas guardavam ligação com o suposto golinho de uísque que os irmãos teriam de ter impedido de circular nos oito anos do meu corpúsculo de meninote.

A primeira vez que escrevi sem saber por quais veredas estivesse indo, acho que está ganho o trabalho de recompor-me o maior caviloso decente da paróquia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de julho de 2024.

terça-feira, 16 de julho de 2024

Servidão voluntária

 

Servidão voluntária

 

A situação desagradável acontece. Quando a torcida é pra que não aconteça, a expectativa é frustrada pra que as ironias do destino sejam aventadas. Menção e ânsias têm um dedo sobre as arapucas do dia a dia, então dores de cabeça são desagradáveis.

O tamanho do dedo depende da latência na massa encefálica. Bem receber massagem nos pontos nevrálgicos que tanto agoniam faz para merecer a identificação: dedo de anjo.

Corto as asas, porque a prosa pouco tem de angelical. O que tenho são dedos doloridos, pois os usei mal ao soltar o arame da gaiola que envolve a caixa d’água.

Por que cargas o universo tem que se desvelar pirracento ao aduzir ratos pelo ladrão? Sempre tem um que se afoga.

Para minha desgraça e desespero, descubro o bicho morto na caixa quando a água não chega ao chuveiro ― terei de trocá-lo.

Desta vez, a precisão é de outra boia. Então, aqui, a dor de cabeça me abana pelo rabo.

Se fossem outras circunstâncias, você pensaria que a cabeça que dói pede que falem baixo, não falem alto e parem de gritar. Porque não passa, você dá jeito. Se olhasse pra trás, saberia que há fumantes que rezam para alguém dar o primeiro passo. Com tantas desventuras por narrar, há fumantes tagarelas. Cordato por educação, você parabeniza o universo por possibilitar-lhe essa convivência tão humana.

Cruel seria cobrar palavras solidárias de quem não tem motivo para pensar em rato entalado num cano de casa. Mas a natureza tem regras próprias, faz das suas como se nada de sarcástico ocorresse, como se o aleatório da vida não fosse a discrepância a ser contabilizada, como se rato morto numa caixa d’água não implicasse em ser um dado real, e só entrasse na história feito metáfora para náusea existencial.

Neste ínterim, pela compreensão do que seja nojento e repugnante e intragável, porquanto o poder da palavra está no alcance que a leitura proporciona, a sua dor de cabeça confunde-se na minha.

Façamos a faxina necessária.

Uma vez que o universo põe no caminho esses fumantes que nem se tocam que a pessoa que sai para fumar quem sabe precise refugiar-se no incomunicável d’alma, tenhamos em mente que o mundo roda e gira, vai o dia, vem a noite, gira no dia, roda à noite, o vaivém é tudo.

O passo adiante pede a firmeza de dar obra às mãos.

Vassoura de piaçava? OK. Sabão em pó? OK. Braços para que vos quero? OK. A serviço da própria vontade? OK.

É certo?

Neste instante, o cronista empoleirado no telhado sabe: amanhã vai doer a nuca, as coxas restarão doloridas, os músculos do pescoço vão estar retesos; todavia o rato entalado haverá de jazer no passado, terá de estar memorizado; como farpa que incomode quando rememorado, não será somente asqueroso querer celebrações pelo asco produzido, será ignominioso trazê-lo a lume em comemoração, uma vez que esse desejo de dar uma conchinha desse beber dá repulsa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de julho de 2024.

domingo, 14 de julho de 2024

O satânico Damasceno

 

O satânico Damasceno

 

Tenho consciência do meu lugar no mundo.

Falei em mundo? Peço desculpas, não agrado nem a turma do bar. Nas noites de quarta, venho ver jogo. O problema é que não resisto de comentar os lances, e o pessoal me olha enviesado. Pra eles, a melhor coisa que eu deveria fazer é ficar sentado lá no fundo.

Me permita a sinceridade, porque não vou esconder que me dá um gostinho bom isso de irritar essa gente.

Não me entenda mal, quando eu me refiro a essa gente, parece que pode soar de modo que eu esteja querendo ser desrespeitoso, mas eu não espero isso.

Como não sou de gracejos bobos, não suporto gente que desdenha de mim pelo que digo.

Sou igual a todo mundo, por isso trato de exigir que me tratem como gente igual a toda gente. Quero ser aprovado pelo que sou, porque eu sei que sou apenas mais outro camarada pedindo para ficar nessa roda sempre animada.

Mesmo que o pessoal insinue que eu deva ir sentar a quatro metros, sei que eles são gente bacana. Isso de não esconderem que entendo bulhufas das dinâmicas de uma partida de futebol, isso dá a mais clara demonstração de que são pessoas que merecem o meu apreço.

Compreende o ponto?

Quando falo besteira, tudo bem, eles riem. O chato é quando encho o caco e não paro mais de bancar o esperto. Parece que quero atenção a qualquer custo. É aí que o parafuso espana e a cabaça roda em falso, como se falando mais, bebendo mais, eu desse conta do enguiço. Mas aborrecendo todo mundo, eu inclusive, paro de perceber que moringa que transborda não reserva cachaça, desperdiça-a.

Caramba! Mais que nunca, eles agem corretamente comigo.

Pra você pegar bem a base do meu argumento: teve uma vez, e foi essa a primeira de muitas outras vezes, que o dono do bar saiu detrás do balcão e, abraçando do jeito necessário, me dirigiu para fora do bar e mostrou qual o caminho de casa.

Você pode achar que fiquei bravo com a situação.

Fui embora contente, porque o dono não renunciou à prerrogativa de estabelecer limite. Ele precisa do ambiente funcionando normal; eu estava desequilibrando a coisa toda. Em vez da partida merecer o foco principal, esta aberração agia com a monstruosidade de me considerar o umbigo do mundo. E fui embora contente, porque ele lidou bem com este bêbado que não parava de provocar essa gente simpática.

Percebe que, no fundo, a razão sempre esteve aliada a eles?

Para resumir a coisa toda, lembro da primeira vez que entrei aqui. Foi num sábado à tarde, a rodinha conversando descontraída junto do balcão. Não havia um cristo que pensasse duas vezes ao criticar o que fosse, aliás em altos brados, daí o que azeitava as cordas vocais eram as brejas geladas.

Diante daquela cena, seria desastroso se hesitasse. Roguei ao bom homem atrás do balcão que a mim não se furtasse de cobrar a próxima rodada. À roda, aliás, fiz a graça de me apresentar:

― Damasceno, Caio Damasceno.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de julho de 2024.


quinta-feira, 11 de julho de 2024

Sol maior

 

Sol maior

 

Doze anos atrás não me via carente de cuidados, menos ainda que os eletrônicos de casa padecessem por minhas obsessões.

Nesse tempo, pagava que reparassem a memória, trocassem fonte queimada, reconfigurassem teclado, tornassem-me apto novamente a trabalhar das sete às sete, domingos adentro.

Assim como uísque pega gosto pela dormência em tonel de lei, não atinava que a labuta fosse gota a tocar na mesma nota: eu resistisse o mais que aguentasse, embebedado mesmo apenas quando precisado da afinação, a pedir que me tensionassem na corda lasseada.

Por não levarem à perfeição, obsessões fundem-se na cuca.

Porque não falava de meus excessos com fumo e carne seca, afinal me achava dono dos secos e molhados que fornece mais e mais carne seca à gente que, já pilhada no desjejum, masca sisal de embalagem, não estatelei estável no estaleiro, sim, eu flutuava bem fundido.

Bastante fundido, dava papel ao lápis.

Não pedia outra coisa, escrevinhava. Marujo refugiado na poltrona, condenado à intemperança pelo apego ao meu uísque, rabiscava. Para me aliviar dos enjoos, estimulava a úvula. Pra que mais escrevinhasse, recusava naufragar. Me fiz em vírus a remediar o sistema na máquina, que a mão comandada digitalizava a cachola.

Folhas e folhas tomadas: quede descarrego a alegrias?

Mal dormia e mal comia. Carecia tanto de que bem eu me acudisse. Papageno perdido de Papagena? Mal pensava que bem pensava. Daí, comia mal, dormia mal, cantava por mal o que mal cantasse.

Há doze anos, perdi-me da flauta.

― Você precisa de exercício físico; indicou o meu Freud.

― Você precisa da família; cogitou-me a cognitiva.

Pelo calçadão, minha mãe ia comigo nos cinco quilômetros.

Se comigo não ia fisicamente, pela vivência articulada nas imagens, era sombra.

Mamãe não estava preparada para suster o afã de queimar os meus rabiscos. E toda minha prosa escrita em sete anos, de outubro de 2012 a agosto de 2018, queimei-a.

Toquei fogo em tudo que escrevi entre dezesseis de outubro de dois mil e doze, dia em que eu pedi exoneração, e o dois de agosto de dois mil e dezoito.

Toquei, pois me desvelei piromaníaco num dos cadernos que usei para registrar meu dia a dia, uma vez que segui à risca o proposto pela psicóloga que me orientava à época.

Com autonomia incrível, a cachola faz recordar o que nem preciso rememorar e faz apagar o que esperam que não esqueça.

Assim, a amiga irreprimível me fez achar o papel em que observara: sendo o mundo um iceberg ao léu, para responder responsavelmente, preciso me abrir à passagem.

Tal anotação foi escrita em 02/08/2018, pois, lendo Coincidências, de Paulo Mendes Campos, chocaram-se imbecilidade com divagação.

Em vez de afogar-me, nadei pra viver, nadei pra escapar, nadei até o lápis voltar ao papel da minha vida, nadei pra sentir que fiz que o gelo no uísque boiasse até secar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de julho de 2024.

terça-feira, 9 de julho de 2024

Alguma felicidade

 

Alguma felicidade

 

Apesar que estava chovendo, não me aborreceu que estivesse, ou que o feriado tivesse a agenda perdida, também não me entristeceu a chuva alterar o transcurso de meus afazeres, fui ficando na cama.

Fiquei porque o barulho da chuva era bom.

Gostei de ouvir a chuva caindo, sem que tivesse vontade de gostar ou de prolongar a satisfação que vivia, ouvindo-a cair.

A certeza de que o planejado estava perdido, que o dia seria outro, estava certo de que poderia ser outro para o dia.

Sem desmerecimento ou nódoa, que não entraria na avaliação essa severidade em me repreender pela pusilanimidade ao abraçar o que a hora me ofertava, aquele prazer em escutar o barulhinho bom daquela chuvinha oportuna, bastante natural que me entregasse àquela paz.

Naturalmente que ignorei o adiamento do que estivesse agendado, pois precisava descansar as pernas, queria acalmar as ideias, gostava de passar o dia na varanda, cochilando na rede, mesmo que parado, a ouvir os ruídos da cidade, sem nem sequer identificá-los, censurá-los, reconfortar-me por nomeá-los.

Essa escuta da chuva prescindia que aprovasse o ritmo dos pingos, que o pesasse prazenteiro, hipnótico, calmante.

Vivia a calma sem que o barulho da chuva possibilitasse me sentir calmo. Sem que a consciência interviesse no que vivia, não precisava recorrer à predisposição, que o ser humano sente a calma que deveras experimenta, ou supõe vivenciá-la, apenas porque a chuva é calmante, naturalmente relaxante.

Pelo efeito benéfico que proporcionava, seria estúpido não notar a chuva funcionando feito remédio. Não que fosse potente o bastante pra me salvar do dia adiado, que ela fosse massageadora do meu ego, que a aprecia pela acupuntura líquida, inebriante, revitalizante.

Sem que previsse sua vinda ou pedisse por seu prolongamento, me peguei disposto a escutá-la enquanto, sem embaraço ao admiti-lo, me fosse bom ouvi-la, pois a chuva caía gostoso.

Em outras palavras, se a mim mesmo sou sagaz ao rememorar-me, pouco importava que permanecesse deitado tendo em vista a benesse alcançada, pois não tomei em consciência o viés do ganho vivido.

Feliz, não precisei sentir a felicidade que eu vivia.

A chuva caindo, a cabeça desligada das tarefas, o corpo satisfeito, o hiato à felicidade que o momento criava, então, pra que eu negaria o barulhinho bom, a boa disposição mental, a recusa de correr por correr, o não fazer nada que estava determinado, essa bem-aventurança que o mundo dava de graça, então, como seria capaz de me censurar pelos minutos passando, pela eternidade vivida?

Não fiz outra coisa que não fosse ficar deitado, não fosse gostar da chuva, não fosse nem ligar que a hora passasse, todavia, a fome soou os sinos do meio-dia.

Apesar que a felicidade não dure o mais que a gente queira, a chuva caindo foi o dadivoso do instante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de julho de 2024.

domingo, 7 de julho de 2024

Calmaria

 

Calmaria

 

Quando dou ouvidos à razão, estrepo-me. Na alma, tenho enfiados espinhos bastante dolorosos, me doem tanto que parecem reais. Estou fixado em somente uma finalidade: voltar a dormir.

Distraído pela friaca que tanto me assedia, exagero nos cobertores, calço meias de lã, cubro a calva com gorro de lã, acresço acolchoado, mas eu acho ridículo ter que me certificar que o vidro da janela está tal qual o deixei ao me deitar: à vera, bem fechado.

Como me desassossego do calorão da madrugada, diz-me a razão que devo perceber o ambiente sem dar trela às angústias, que trazem pinguins abocanhando trutas em riachinho, pois só eu mesmo, volta e meia meio patético, pro capricho de imantar o ar com o inverno doutra noite, duma a zero grau, e não esta d’agora, a doze.

Ao deitar, avaliei mal a cachola quando a orientei que largasse das bobagens, que me amparasse no que tenho de bom, no coração.

Pra amanhecer ontem, levantei sem vontade de urinar, forcei-me a urinar, continuei exigindo que conseguisse urinar, comecei a suar, senti gotas de suor descendo pela testa, as mãos suadas, a camiseta colada no peito, brotou uma dorzinha, veio o formigamento, a falta de domínio me fez querer brecar, insistindo em parar mais eu suava; e a garganta, seca de tanto agir feito nariz, disparou a sirene; nocauteado, acordei: não sonhava, tremia-me todo ― já suado, já mijado.

O xis da questão é encontrar um sentimento mais positivo, algo que substituísse o mal-estar por outra satisfação.

Bom seria que tivesse acordado um segundo antes?

O que ontem eu passei não me resolve o presente, portanto: tiro o acolchoado, a manta dobrada, o cobertor, o gorro, as meias, mais um cobertor e o conjunto de moletom ― calça e blusa.

Será que a cueca liquidará esse perrengue?

Ligo o celular. Vejo vídeos. Adoro gatinhos; tanto os adoro que até ronrono sem nem mesmo fantasiar estes muxoxos. Cumprida a missão de ronronar a gatinhos no celular, me desligo.

Como preciso de um banho, uma ova que voltarei a dormir.

Em vez do banho, tiro a cueca. Em vez de cautela, diatribe. No lugar do coro de anjos, os sussurros demoníacos na minha cabeça. Troco a paz entre os homens pela guerra aberta à sensatez: pelado, deito-me debaixo da cama.

Nada de novo: retorno à postura sequer repensada.

Podia alegar cansaço, esgotamento, tibieza, asnice, malemolência, tudo junto no mesclado? Nem podendo!

O que posso, não faço. Fico deitado, e meu corpo começa a tremer. Sem dúvida, reconheço que está frio. Sei, o calorão do transe foi ilusão. Nada febril nem racional, penso na solidão que me apequena, maltrata, desconsidera: coberto de suor, me mascara esse rosto.

De fácil compreensão, às três e trinta de outra madruga hibernal, é saber desesperador ter-se desafeiçoado da pessoa que anestesia das dores assaz afrodisíacas.

Raios! Cadê o contato do dentista?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de julho de 2024.