terça-feira, 9 de julho de 2024

Alguma felicidade

 

Alguma felicidade

 

Apesar que estava chovendo, não me aborreceu que estivesse, ou que o feriado tivesse a agenda perdida, também não me entristeceu a chuva alterar o transcurso de meus afazeres, fui ficando na cama.

Fiquei porque o barulho da chuva era bom.

Gostei de ouvir a chuva caindo, sem que tivesse vontade de gostar ou de prolongar a satisfação que vivia, ouvindo-a cair.

A certeza de que o planejado estava perdido, que o dia seria outro, estava certo de que poderia ser outro para o dia.

Sem desmerecimento ou nódoa, que não entraria na avaliação essa severidade em me repreender pela pusilanimidade ao abraçar o que a hora me ofertava, aquele prazer em escutar o barulhinho bom daquela chuvinha oportuna, bastante natural que me entregasse àquela paz.

Naturalmente que ignorei o adiamento do que estivesse agendado, pois precisava descansar as pernas, queria acalmar as ideias, gostava de passar o dia na varanda, cochilando na rede, mesmo que parado, a ouvir os ruídos da cidade, sem nem sequer identificá-los, censurá-los, reconfortar-me por nomeá-los.

Essa escuta da chuva prescindia que aprovasse o ritmo dos pingos, que o pesasse prazenteiro, hipnótico, calmante.

Vivia a calma sem que o barulho da chuva possibilitasse me sentir calmo. Sem que a consciência interviesse no que vivia, não precisava recorrer à predisposição, que o ser humano sente a calma que deveras experimenta, ou supõe vivenciá-la, apenas porque a chuva é calmante, naturalmente relaxante.

Pelo efeito benéfico que proporcionava, seria estúpido não notar a chuva funcionando feito remédio. Não que fosse potente o bastante pra me salvar do dia adiado, que ela fosse massageadora do meu ego, que a aprecia pela acupuntura líquida, inebriante, revitalizante.

Sem que previsse sua vinda ou pedisse por seu prolongamento, me peguei disposto a escutá-la enquanto, sem embaraço ao admiti-lo, me fosse bom ouvi-la, pois a chuva caía gostoso.

Em outras palavras, se a mim mesmo sou sagaz ao rememorar-me, pouco importava que permanecesse deitado tendo em vista a benesse alcançada, pois não tomei em consciência o viés do ganho vivido.

Feliz, não precisei sentir a felicidade que eu vivia.

A chuva caindo, a cabeça desligada das tarefas, o corpo satisfeito, o hiato à felicidade que o momento criava, então, pra que eu negaria o barulhinho bom, a boa disposição mental, a recusa de correr por correr, o não fazer nada que estava determinado, essa bem-aventurança que o mundo dava de graça, então, como seria capaz de me censurar pelos minutos passando, pela eternidade vivida?

Não fiz outra coisa que não fosse ficar deitado, não fosse gostar da chuva, não fosse nem ligar que a hora passasse, todavia, a fome soou os sinos do meio-dia.

Apesar que a felicidade não dure o mais que a gente queira, a chuva caindo foi o dadivoso do instante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de julho de 2024.

domingo, 7 de julho de 2024

Calmaria

 

Calmaria

 

Quando dou ouvidos à razão, estrepo-me. Na alma, tenho enfiados espinhos bastante dolorosos, me doem tanto que parecem reais. Estou fixado em somente uma finalidade: voltar a dormir.

Distraído pela friaca que tanto me assedia, exagero nos cobertores, calço meias de lã, cubro a calva com gorro de lã, acresço acolchoado, mas eu acho ridículo ter que me certificar que o vidro da janela está tal qual o deixei ao me deitar: à vera, bem fechado.

Como me desassossego do calorão da madrugada, diz-me a razão que devo perceber o ambiente sem dar trela às angústias, que trazem pinguins abocanhando trutas em riachinho, pois só eu mesmo, volta e meia meio patético, pro capricho de imantar o ar com o inverno doutra noite, duma a zero grau, e não esta d’agora, a doze.

Ao deitar, avaliei mal a cachola quando a orientei que largasse das bobagens, que me amparasse no que tenho de bom, no coração.

Pra amanhecer ontem, levantei sem vontade de urinar, forcei-me a urinar, continuei exigindo que conseguisse urinar, comecei a suar, senti gotas de suor descendo pela testa, as mãos suadas, a camiseta colada no peito, brotou uma dorzinha, veio o formigamento, a falta de domínio me fez querer brecar, insistindo em parar mais eu suava; e a garganta, seca de tanto agir feito nariz, disparou a sirene; nocauteado, acordei: não sonhava, tremia-me todo ― já suado, já mijado.

O xis da questão é encontrar um sentimento mais positivo, algo que substituísse o mal-estar por outra satisfação.

Bom seria que tivesse acordado um segundo antes?

O que ontem eu passei não me resolve o presente, portanto: tiro o acolchoado, a manta dobrada, o cobertor, o gorro, as meias, mais um cobertor e o conjunto de moletom ― calça e blusa.

Será que a cueca liquidará esse perrengue?

Ligo o celular. Vejo vídeos. Adoro gatinhos; tanto os adoro que até ronrono sem nem mesmo fantasiar estes muxoxos. Cumprida a missão de ronronar a gatinhos no celular, me desligo.

Como preciso de um banho, uma ova que voltarei a dormir.

Em vez do banho, tiro a cueca. Em vez de cautela, diatribe. No lugar do coro de anjos, os sussurros demoníacos na minha cabeça. Troco a paz entre os homens pela guerra aberta à sensatez: pelado, deito-me debaixo da cama.

Nada de novo: retorno à postura sequer repensada.

Podia alegar cansaço, esgotamento, tibieza, asnice, malemolência, tudo junto no mesclado? Nem podendo!

O que posso, não faço. Fico deitado, e meu corpo começa a tremer. Sem dúvida, reconheço que está frio. Sei, o calorão do transe foi ilusão. Nada febril nem racional, penso na solidão que me apequena, maltrata, desconsidera: coberto de suor, me mascara esse rosto.

De fácil compreensão, às três e trinta de outra madruga hibernal, é saber desesperador ter-se desafeiçoado da pessoa que anestesia das dores assaz afrodisíacas.

Raios! Cadê o contato do dentista?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de julho de 2024.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Correio elegante

 

Correio elegante

 

Embora a vida corra doida, faço planos.

Já pela manhã, antecipo a promessa de lidar, do jeito mais honesto possível, com algumas dívidas, mesmo que eu nem lembre por que as tomei. Mas só sairei pra quitá-las tão logo a água volte, pois este corpo denuncia que a pincelada de suor de quatro dias é esse cheirinho a ser removido com água, sabonete e voto.

Quando outubro cobrar as minhas responsabilidades com o futuro, terei na carteira as imagens aéreas do reservatório da cidade, tê-las-ei na cabine indevassável pra que a mente não seja carne porosa, porque os desgovernantes de plantão contam que, numa selfie muito especial, este eleitor faça o vê da vitória por não passar o vexame dessa gente que nega fazer o vê de volúvel à saliva dos sabujos.

Por óbvio, tenho mais planos.

Em vez de pagar para que me cavem um poço no quintal, mandarei pros quintos do inferno a juventude, já que pouco a pouco assenta-se em mim a idolatria aos sábios que não falam besteira a torto e a direito, dando-se à elegância de gente sóbria, levemente sorumbática, aquela gente que perde a chance de jamais ficar calada.

Depois de lavar o senso crítico com a esperteza de hipnotizar o voto com os postais das águas abundantes, falarei pouco, pedirei somente que as sobrancelhas e o cavanhaque fiquem descolorizados.

Segundo ensinaram as postagens que li, descolorização é processo que não se esgota no ato de instalar-se na sabedoria, descolorizada é pessoa intrépida que se põe a retocar o que adiante se apresente como descolorizável.

Mais um dos meus planos para hoje: marcar o oculista.

Que chegará a vez de testar a miopia, e terei a prudência de sujeitar os olhos à correção proporcionadas pelas lentes polidas para mim.

Todavia, não planejo passar na loja de disfarces para experimentar algum rabo de cavalo que me configure em artista, pois estou satisfeito com o visual Mister Magoo que ostento.

Como eu não estou cego ao que me é prioritário, farei calos nos pés até encontrar a bota que muito agrade. Achando-a, pouco importa que seja modelo feminino, porque o fim justifica que este meu desejo seja realizado: montado em plataforma de couro legítimo, subirei três belos centímetros na escala dos baixinhos.

Do alto desta nova grandeza, banhado na sabedoria que dispensa coque postiço em cocuruto careca, compensado dos desequilíbrios de meu estrutural patriarcado, explanarei às claras.

É a vocês que me impedem de tomar banho quando preciso, tornam repugnantes meus sovacos depois de tanto vaivém protelatório, forçam à confissão ao segurança do mercado que sou realmente trabalhador; a quem obro diariamente por um mundo ajeitado não digo que não me engana nem me convence a enganá-lo; a você que supõe poder tudo, voto que me acolha em minha moderada sinceridade:

― Vai podendo assim pra ver no que tudo isso vai dar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de julho de 2024.

terça-feira, 2 de julho de 2024

Milonga do bonachão camarada

 

Milonga do bonachão camarada

 

Posso parar a um passo da porta. Eu não preciso atender só porque tocaram a campainha. Posso esperar, quem sabe desistam. Creio que a desistência torna as pessoas mais humanas, que elas podem avaliar o que valha a pena de ser abandonado.

Não havendo precipitação, e sem que me desculpe, posso frear-me à porta de um remorso, até porque muito orgulha eu não me sujeitar a campainhas.

Quando espio pelo olho mágico, há controle. O ímpeto de resolver de vez é refreado, assim me liberto na volúpia, na ânsia em querer dar azo a esse que veem em mim.

Me domino porque sou voluptuoso.

Abro a porta. Convido que entre. Sente-se onde queira. Ofereço um cafezinho, biscoitos, talvez role um provolonezinho.

A pessoa recusa tudo, ficará à porta porque tem pressa. Pra chegar aos finalmentes, irrita-se com o papo furado.

― Ficou sabendo que a gente precisa trocar o RG, né?

Quem viveu na pele os sessenta e tantos dias circulando a pé não tem obrigação de ter paciência pra responder pela milionésima vez que não bebera nem dormira ao volante, assim, livre de recapitular que um cavalo o fez capotar naquela reta, a memória não dói.

― Veio avisar que é preciso trocar o RG, né?

Como não deixo que se acerte com gestos, respiração e olhar, ela dá tapinhas na área esquerda do peito com a ponta dos dedos da mão direita. Entendo o que está tentando me dizer, que o coração fala mais alto quando somos sinceros, quando não engabelamos.

― Não vim falar de RG. De fato, preciso de ajuda. E graças a Deus, o meu grito por socorro abriu a porta do amigo. Só uma pessoa de bom coração é que pode salvar quem se afoga, gente boa.

Conheço o poder da amizade. Sei da sua potência, que o seu poder em transformar o mundo num palco é incomensurável. E o ser humano tem capacidades que nem ele próprio conhece. No entanto, apesar de não se conhecer tão bem quanto deveria, o ser humano age e produz. A gente se faz presente quando o coração ilumina nossa mente, e diz: gente do bem, vai abraçar quem pede abraços, vai beijar a outra face, vai ensinar quem deseja aprender.

Iluminado pelo amor, ouço-a:

― Venho de rejeições, amigo. Mas Deus é Colosso, foi Ele que me trouxe à porta do amigo da Verdade. Amigo iluminado pela verdade da mensagem que precisa ser passada.

Seja dita esta mensagem. Quiçá a entenda, sorrio. Porque me cala, sorrio. Meu sorriso é de gratidão, porque ela veio para ser ouvida.

― Outros temeram encarar meu entusiasmo, você não. Gandhi às margens do Ganges, você é a gema da terra.

Gandhi é a gema do Ganges?

Outra pitada:

― Eu sei que você sabe que vai começar a principal competição do ano. A gloriosa batalha por hum milhão de reais. Só vinte participantes terão a oportunidade de lutar. Só quem tiver triplicado o peso no menor tempo entrará pra História.

Com lágrimas de felicidade:

― Você me ajeita dez mil pra eu virar o buda do reality?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de julho de 2024.

domingo, 30 de junho de 2024

Ponderações

 

Ponderações

 

“Olha, doutor Martins, não sei dizer se o que tem acontecido comigo é bom sinal, porque, de repente, a vida entrou nos eixos.

Sem que eu tivesse mudado algo, tenho comido bem, dormido bem, até jornal não tem derrubado o meu humor.

Tempos atrás, o torresmo embrulhava o estômago, hoje eu observo o limite dos três pedaços. Outro dia, só reparei na gula quando tive que correr pro banheiro, já dando vexame.

É surpreendente, doutor, mal sento pra ler, me concentro que nem a mulher batendo no marido me atiça espiar.

Ultimamente, quando paro abastecer o carro, vem o frentista limpar o para-brisa, checar o óleo, colocar água no radiador. Como se o carro fosse um fora de estrada zero km, lá vem a maquininha para eu digitar a senha, doutor.

Semana passada, minha sogra, que não tem por hábito me agradar, pagou o almoço. Primeiro achei que fosse trote, que outra pessoa tinha mandado o zap, mas, como não respondi, ela telefonou, queria mesmo que fôssemos almoçar.

Pelo ambiente, era restaurante caro, muito chique. Com manobrista na porta e uma bebidinha na chegada, tudo muito elegante. Por minha mortalidade de genro pobretão, nunca me vi amarrando o meu pangaré num obelisco daqueles.

A minha sogra tem casas e apartamentos Brasil afora. Deles todos só conheço uma, a que ela mora. As casas em Paraty e Monte Verde, conheço por foto e olhe lá. Como não posso segui-la, dou meus pulos, eu bisbilhoto o celular das minhas filhas.

Mas, doutor, mal coloquei o palmito na boca, ela me comunicou que a filha dela e seus netos passariam o feriadão da Páscoa em Porto de Galinhas. Já que eu não gastaria um centavo, nem engasguei.

Doutor Martins, como não disfarcei o tamanho da minha felicidade, ela incluiu no pacote que eu não me preocupasse com a casa, que ela mandaria aparar a grama, mandaria os meus cães a um hotel de sua confiança, não deixaria ninguém polir meu carro.

Ela queria que eu me esforçasse pra relaxar, que eu tomasse banho de mar, cochilasse na praia, bebesse muita água de coco, enfrentasse o medo de abusar das caipiroscas à beira da piscina, que eu acordasse de ressaca, mas feliz.

Ela exaltava as regalias, eu barrava amuamentos.

Ainda que o único voo atrasado seja o meu, ficarei calmo.

Quando enjoarem em saveiro atracado, direi quais macetes ajudam a enxergar o céu, o céu azul, o céu cordialmente azul.

Embora meus meninos berrem para nadar com golfinhos, dominarei a técnica de manter a esportiva sem apelar a caipiroscas.

Já que feliz atrai feliz, doutor Martins, a minha sogrinha sempre tão amável disse que viajará com a gente.

Por que eu iria negar a alegria, né?”

“Martins, não pense no pitbull que morde a canela da pessoa, pense na mão de quem tem que decapitar o pitbull de estimação. A vida, meu caro, não é menos saborosa para quem toma direitinho o cloridrato de paroxetina, conforme o prescrevemos.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de junho de 2024.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Bola cheia

 

Bola cheia

 

O dentista não é de atrasar, mas o trânsito não ajuda. Quando não tem compromisso marcado, o tráfego roda que dá gosto de nele tomar parte, como se a vida fosse um feriado depois do outro. O jeito é parar na pista, frear bruscamente, provocar o caos. Se os carros vão lentos, acelere-se a cabeça. Seja feita a leviandade da gente que pouco pode na vida. Ainda que os automóveis atrapalhem a ida ao dentista, ir.

Não basta ir, é preciso ir, mas ir pensando.

Pensando que deveria ter saído mais cedo. Teimando em pensar que deveria ter levantado muito mais cedo. Recriminando-se que não deveria ter ficado até tarde vendo TV.

Agora, reconheça que a notícia que importa não foi antecipada no jornal da meia-noite, que a lentidão nas ruas é decorrente do excesso de gente indo a dentista.

Adamastor, assuma-se, que o seu atraso é culpa sua, que você não tinha de ficar torcendo para que fosse anunciada a quitação da dívida, que a arena não correria mais nenhum risco de ser confiscada.

Adamastor, uma vez que você está atrasado, esteja certo de que a culpa é dessa gente que vai de carro ao dentista. A culpa é de motorista que chupa bala, cuja cárie fica grudando açúcar em tudo que é dente, até nos vãos.

Entra dia e sai dia, a mente buzina pela dor que experimenta.

Você chegará atrasado, Adamastor. Vai chegar bem depois da hora marcada. Perderá a vez. Adamastor, você tem toda razão de ficar fulo da vida, mas terá de aceitar a data que a secretária marcar.

Mereça o que você merece.

Se fosse menos idiota, teria notado que a TV não diria nada sobre o trânsito pesado, pois só apresentador bastante babaca é de fincar o pé na jaca, anunciar a desgraça que não prevê, ou apenas minta.

Adamastor, seu imbecil, se tivesse ido deitar quando o sono bateu, teria acordado cedo, pediria um táxi, teria até mesmo conseguido lavar atrás das orelhas. Mas não, Adamastor, você tinha que ficar vendo TV, teve que prestar atenção nos comentaristas, porque você, Adamastor, é pedra bruta que as opiniões de terceiros lapidam e lapidam, sem que nenhum diamante valha algum trocado.

Como você brilha pela estupidez, então, Adamastor, faça este favor a si mesmo: bata um papo com a Norminha.

Pense, o importante é que ela saiba que você foi deitar tarde porque os analistas da TV querem fazer o mundo melhor, dizem o que a gente precisa fazer pra não sofrer tanto, então, Norminha, o mundo vai mudar quando a gente ficar suficientemente esclarecida, a ponto de assinar o que é dito por aquela gente sabida da TV.

Para melhorar a si mesma, Norminha, você aceite que os analistas da TV estão a postos para revolucionar a nobre audiência.

Acredite, Norminha, não sou eu que falo a verdade, certos estão os homens e as mulheres que sabem falar pra câmera como se fosse com a gente, ainda que você continue mascando chiclete como a coisa mais bacana de fazer com a TV ligada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de junho de 2024.

terça-feira, 25 de junho de 2024

Seu João

 

Seu João

 

Passa um homem levando uma enxada no ombro. Se na ponta livre levasse uma trouxa de roupa, não seria outro retirante, seria a imagem batida de mais um clichê: o de boia-fria que, na trouxa, traz escondida a sua marmita de todo dia.

Confirmando o preconceito, que um homem que traz o seu almoço embrulhado na trouxa de roupa na ponta da enxada é um trabalhador braçal que levanta de madrugada porque mora longe, haverá de trazer botina e boné, além de vir cantarolando uma canção na qual seu amor pegou sambar em terreiro alheio, de outrem novinho.

Passando em direção à beira do rio, para contrariar o lugar comum de um homem que mora longe, este indivíduo veio tarde pro centro, na hora do almoço, zanzando pelas ruas cheias.

Para o que irá fazer, reza o senso comum que a cidade com menos gente convém à pessoa que não hesita do golpe certo, pois ela precisa ter em consideração o baixo número de olhos que testemunharão suas malandragens.

Ainda resta a esperança no bornal deste contador, porque o homem da enxada no ombro não traz marmita alguma em nenhuma trouxa de roupa, ou seja, ele quebra o espelho a duplicar o boia-fria no malandro, pois este aprontará outra das suas com a envergadura moral de quem sabe muito bem o que pretende aprontar, e ele apronta.

Tratando de não afetar demasiado a credibilidade de cronista, cujo relato atenta para alguns detalhes de modo a estabelecer a coerência de quem prima pela verdade, o homem, embora pise pedregulhos com os pés descalços, caminha sem olhar para baixo.

Na beira do rio, o homem que largou da enxada procura e encontra uma lata de um palmo de altura, dessas de leite em pó, que ela há de servir pro que ele quer que ela sirva.

À cada enxadada, minhocas serpeiam no chão revirado. Sem livrá-las da terra, o homem das enxadadas coloca-as na lata. E segue dando as suas enxadadas, até que o contenta a lata estar cheia.

O homem da lata cheia de minhocas vai pela beira do rio. Passando pelos fundos de algumas propriedades, ele para quando acha galinhas a ciscar, a bicar a terra, a batalhar por comida.

Ele pega uma minhoca de cada vez, limpa-a da terra e vai fazendo uma trilha, de perto das galinhas até a margem do rio.

Uma galinha não resistiu e o tinhoso torceu-lhe o pescoço.

Assobiando aquela música dos sete anões, o ladrão de galinha vai embora. Voltando por onde veio, com a enxada no ombro e sem a lata das minhocas, o felizardo assobia que vai, que vai, pra casa agora ele está indo. Levando a galinha morta, ele vai, ele vai, pra casa agora ele está indo, feliz como o diabo, vai indo.

Depois de meia hora de caminhada, o assobiador pula a janela dos fundos do muquifo.

― Ramiro, meu irmão, a felicidade de virar canja para você fez esta galinha estrebuchar. Então, que você fique forte para voltar comigo pro arraiá do Seu João.

―Tomando quentão, a gente vai suar que nem leitão?

― Oinc! Oinc!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de junho de 2024.

domingo, 23 de junho de 2024

Teatro absurdo

 

Teatro absurdo

 

Andam acontecendo coisas invulgares nos últimos dias, desde que o carrilhão passou a badalar nos quartos de hora, tanto no primeiro, do meio-dia às seis, quanto no posterior, de seis a doze.

Os sinos passaram a badalar como se estivessem batendo em hora cheia, como se as seis badaladas dessem como certa a hora, de nada importando serem três ou nove horas. Batem as suas seis, que a gente se vire em ajustar o relógio mental, pois os sinos têm feito a parte deles. Eu digo mais, que eles não deixam de servir como bússola ao fornecer à cabeça o indispensável norte em cada segundo.

Pombas! Os pombos estão perdidos. Sempre foram de arrulhar ao meio-dia, nas doze badaladas. Perderam-se da normalidade dos seus arrulhos, como houvessem se tornado lobisomem que uiva ao sol, pois a mudança os afetou de maneira frontal.

É preciso denunciar o que está havendo, porque os pombos ciscam inquietos, bicam troncos, os assentos dos bancos, ainda não passaram a dar cabeçada nos postes e para-brisas.

Com a teimosia de quem exige que a verdade seja dita doa a quem doer, faz-se urgente a antecipação do futuro: a ansiedade dos pombos forçará que o relógio permaneça intocável, para que, num dia a mais e por mais outro, a estabilidade volte a ancorar a rotina dos pombos, em conformidade à realidade transfigurada pela atual condição mecânica dos sinos.

Ou seja, a angústia tornar-se-á desespero e os pombos passarão a conviver outra vez com quem os sinta aptos a bicadas regulares.

O velho que dá migalhas aos pombos voltará a sentar-se. Retomará as intrigas que confidencia a eles que vêm comer das migalhas dadas por essas mãos surdas a arrulhos. Voltará a sentar-se no banco que o atrai desde que enviuvou, divorciou-se ou virou aposentado.

Andam surgindo ideias perturbadoras na cachola do velho que sabe que pensamentos angustiantes sempre principiam quando a gente diz a si própria que, desde que nenhuma novidade surja abalar o horizonte onde a vida prospera, o mundo é terreno razoável para viver.

Sendo fiel ao que pensa o velho dos pombos, o relógio bater as seis horas da sua circunstância tem que ser mantido como está até que os pombos parem de bicar, já confusos.

Se o relógio for mexido, os pombos ficarão mais alucinados, o velho ficará irrequieto, porque seguirá afastado das suas migalhas.

E o que anda acontecendo com o velho é que ele tem comido muito torresmo, tem bebido groselha até quando não come e tem sofrido um bocado por jurar vingança quando ora pra não azeitarem as traquitanas do relógio.

Desatino, feito pombos que não aturam voar, é lindo vê-lo alarmado com os sinos que trabalharão como engenho antigo, bugiganga jamais ultrapassada.

Ele poderia ter relevado, mas o pai do velho cismou de criar pombos para que alastrassem o amor. Tal amor, entretanto, nunca ensinou os pombos a voarem de volta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de junho de 2024.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Enevoado

 

Enevoado

 

Era uma visão diferente a que tive do céu, porque acordei caído aos pés do sofá. Precisei certificar-me de que não tinha dores, que o corpo deitado no chão não rolou abaixo, desavindo do sofá.

Não caí, peguei no sono porque me ajeitara ali mesmo, no chão aos pés do sofá, pois cansadérrimo me deitara, ali.

Sim, adormeci porque ontem foi um daqueles dias, de tarefas sobre tarefas e nenhum prêmio pelos méritos de cidadão que não adia o que não se deve deixar para depois.

Então, acordei com aquelas nuvens boiando, indo lentas, mas iam. A visão tinha mesmo que me acordar uma outra pessoa, que se admira de ter caído do sofá como se tivesse congelado feito pedra.

Uma pedra sóbria, boamente alimentada, boa nos modos, uma que não deixa de arrumar a cama, embora tenha topado dormir tão logo os olhos começaram a arder. Provavelmente arderam avermelhados, por grãos de areia pincelados, de retinas entorpecidas em afazeres.

Foi que me lembrei, saí cedo.

Tinha que ir ao oftalmologista, porque marquei a consulta por causa da vista que andava embaçando há cerca de um mês, quiçá um mês e meio, não mais que dois meses. E na virada do dia pra noite é que ela embaça, me perturba um pouco, tenho muito medo de torcer o pé, dar com os joelhos na calçada, quem sabe eu até nem enxergue a nota de duzentos que muito ajudaria.

Me lembrei de ter achado aquela nota de duzentos quando estava indo ao oculista. Só que me desviei um tanto, fui à lotérica pagar boleto e fazer um joguinho despretensioso. Como quem saberá agradecer ao bom deus que me permita a alegria de ganhar, pois a aposta foi mesmo feita com a despretensão de ficar milionário apenas e tão somente pela sugestão da atendente, não pelo achado daqueles duzentos.

Me lembrei de que parei no ponto porque tomaria o ônibus que me levasse ao médico dos olhos.

No entanto, com as mãos nos bolsos, o ombro no caibro pintado de vermelho para deixar evidente que ali era o ponto de parada do ônibus, foi por sorte que comecei a contar as bitucas, foi muita sorte eu obrigar minhas mãos a ficarem nos bolsos, pois fumar não me ajudaria.

Me agradeço por não ter acendido o cigarro, que não fiquei batendo as cinzas, não fiquei impressionado com a brasa, escolhi contar bitucas e me achou a realidade, era real a fortuna caída do céu.

Me lembrei de ter atravessado a rua, entrado na lotérica e feito a tal aposta, que me haveria de resolver os problemas, a maior parte deles, ao menos. Embora eu nem soubesse qual o valor do prêmio, ainda que eu nem quisesse saber se o prêmio estava acumulado, paguei à moça que sugeriu o bolão, até o coloquei na carteira sem nem mesmo conferir por quais números a aposta era composta.

Me lembrei de voltar ao ponto, precisava realmente pegar o ônibus, o que me levasse ao doutor, aquele que há um ano marcou a operação de miopia, a que ainda não me justifiquei de não ter ido fazê-la.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de junho de 2024.

terça-feira, 18 de junho de 2024

Inigualável

 

Inigualável

 

Estou sendo observado. Não preciso me virar para saber que estou, pois minha nuca sente ser o foco. Sem coceira alguma, coço-a. Apesar de eu não disfarçar o desconforto, a pessoa não faz questão de dizer meu nome. Talvez esteja enganada, que não sou quem ela pensa que eu seja. Pior, ela pode saber quem sou. Então, ela virá até mim e falará comigo. Embaraça-me a ideia, não me viro pra ver quem vem às costas porque não estou a fim de conversar. Eu quero terminar a voltinha com o cão e voltar pra casa sem ouvir as últimas notícias. Apego-me a isso, que não darei o gostinho de ter confirmado o prazer dessa pessoa que tem muito a contar sobre o que seja, da melancolia à euforia. Se houver sol em Ipanema ou nevasca em Ushuaia, acaso surfe ou esquie, pouco interessa o estado da arte. Não brinquem comigo.

― Tá querendo briga, é?

Não, não, o meu embaraço não é tanto pra que impulsivamente me sente no primeiro banco. Talvez seja isso, que ela sinta alguma alegria ao me obrigar a fazer algo. Como não quero ser convencido, sento-me. Faço questão de revelar o quanto estou desconfortável: fixo o olhar em quem me quer constrangido.

A pessoa atrás de mim é uma mulher e ela não passeia com o seu cão. Ainda que ande devagar, como se estivesse passeando um cão, a mulher que me fez encará-la vem acompanhada de uma criança.

― Tá usando uma criança como escudo, é?

Não fique confiante de que domina, você não vencerá. Mantenho a firmeza, não serei passivo. Se quer me confrontar, confronte o que meu olhar está dizendo. Ele diz que estou incomodado, que posso aguentar um pouco mais, que o seu poder não me abaterá. Não gritarei, porque a minha boca dirá bom-dia, acaso você me intime a dizê-lo.

Ela passa, sequer me cumprimenta, ela passa adiante.

A mulher e a criança, eu sei quem elas são.

Os seus nomes eu não sei, mas sua casa fica num imóvel que toma um quarteirão. Sua morada é um casarão de três pavimentos, herança do avô da mulher, a última joia de um patrimônio defenestrado pelo avô da menina, o que adorava apostar.

O haras da família, por exemplo, foi perdido pelo puro-sangue que vencera seis ou sete prélios, vindo a perder o único Grande Prêmio em que, por um dinheirinho cujo montante nem madames nem cavalheiros quiseram saber quanto foi, o aceitaram que disputasse.

Barro a digressão, pois prefiro rememorar as qualidades do bisavô da menina impedida pela avó de afagar o meu cão, que até sentou tão logo começou aquele tatibitate.

Ainda hoje, contam que foi o homem mais rico em todos os tempos. Naquele tempo, rico era o homem que produzia o leite e o pão postos na própria mesa. Ele vendia queijo às Minas, mandava ovos ao Rio e doava farinha às padarias da cidade.

Investia nas candidaturas dos postulantes à prefeitura, pois o jogo democrático pedia que não fizesse a injustiça de ter um preferido.

Era milionário, porém democrata.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de junho de 2024.

domingo, 16 de junho de 2024

Na mosca

 

Na mosca

 

Interrompi o trabalho. Tinha que terminá-lo antes da janta ou até me deitar, já quase meia-noite. Parei tudo porque fiquei maravilhado com aquilo. Fechei os olhos. Tocaram uma, emendaram mais uma e outra, eu fiquei e, de olhos fechados, eu fui ficando.

Pouco me importei com quem estava escutando aquelas músicas, o repertório me era conhecido, apreciado, querido. Muitas canções que há muito eu não ouvia nem tinha ouvido nos últimos anos, nos últimos cinco, talvez dez, poxa, já uns vinte anos.

Não me envergonho de ter sido jovem e consumidor de música feita por e para jovens. Falo do que produziram a Legião, os Paralamas, Ira, Miquinhos, Os Ronaldos, era o que algumas rádios tocavam, o que era tocado nas festas, eram os discos que ouvia no meu quarto.

Já um dia tive um quarto só pra mim, com as paredes liberadas pra Jim Morrison, Roger Daltrey e Syd Barrett. Foi uma época sem Noel, Chico Buarque, Nara Leão. Me embalavam UB-40, Pretenders e Devo. Foram dias de aprendiz, dias de Natasha com fanta.

Eu bebia, muito. Eu gostava disso, de encher a cara com hi-fi.

Aqueles foram dias de porradinha, e ressaca braba. Foram noitadas de vira-viras, e amnésia alcóolica. Foram dias de ir à feira tão somente pela garapa, nada de sólidos e, pelamor!, nada de fritura.

Me lembro daquela vez no Carbono 14. Não garoava, mas fazia frio. Foi quando jogaram aquela múmia e subiram de volta com a dita cuja. Bela Lugosi’s Dead, jogaram, jogaram, e tanto atiraram o manequim lá do alto que o frenesi passou. Belezura! Você já era, Mr. Lugosi.

Hoje eu como mais de um pastel de queijo, tomo garapa com limão, acho engraçado me lembrar de que um dia fui um bom garoto, aprendi a ler em silêncio, fui aquele leitor bastante impactado por Que Fazer?, A Ideologia Alemã e O Matraca.

Não considerei uma perda de tempo aquela interrupção. Gostei de ouvir que garotos do subúrbio, garotos do subúrbio, vocês não podem desistir de viver. Também gostei de assobiar que tudo foi sempre uma mera questão de dinheiro. Surpresa! Até levantei, repeti uns passinhos que fazia, afinal vou ser engenheiro, ganhar muito dinheiro, graças ao milagre brasileiro.

Não ganhei merreca alguma, ganhei em galhardia.

Brioso, lá fui eu, pro lançamento do compacto duplo do Esquadrilha da Fumaça, fui ao Lira Paulistana, naquele ano que não há de terminar, 1983. Queria notícias sobre o fã-clube e informaram que o Zappa Club não tinha inscrição nem carteirinha, basta ouvir o Zappa.

Caramba, carambolas.

Operador de histórias, deixo a memória brincar de remontar-me que nem o tal boneco da Treze de Maio, porque, Deusdéti, se não pude ir jantar com você no Maquesude, não lamento nunca ter usado a famosa mosca do guitar hero de Baltimore, uma vez que, cronista com as mãos do Dylan, os pés do Cohen, o coração e a mente dos Mutantes da Rita, eu canto, danço e falo sério.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de junho de 2024.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

A fé do homem assustado

 

A fé do homem assustado

 

Ao abrir os olhos, o mais espalhafatosamente, gargalhar.

O que será isso, cometer essa maluquice é livrar o corpo da energia negativa dos súcubos de outra madrugada malsã?

Abrir os olhos devagar, precavendo-se de que o mundo continuará no lugar em que estivera ontem mesmo tendo aberto os olhos devagar, embora isso contradiga o preceito: vida é movimento.

A realidade precisa ser educada a concordar com este conceito que estabelece que a movimentação permanente dá existência ao mundo, ou o universo também confrontaria outro axioma, aquele que considera que: na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se aprimora.

Abrir os olhos, que gargalhar é descarregar demônios domésticos, íntimos, que criam e recriam intimidades como a amestrar o fogo que se espraia por neurônios, bifurca sinapses, cativa a mente com a razão que argumenta com os mais sólidos, os mais lógicos, os menos teatrais dos comportamentos, a apurar-se.

Abrir os olhos, e rir como louco ou geômetra.

A geometria do caos estabelece a perspectiva, diz à face rubra que recue quando a aurora vem, todavia o demiurgo de régua e compasso nem precisa delinear o abismo que se concentra neste ponto: a letra A tem o seu nome, tanto quanto no seu nome entra a letra Z.

E seja: o infinito no finito, apesar da incongruência.

Em outras palavras, olhar-se, transfigurar-se na pessoa que ontem, ao abrir os olhos, faz o mundo ser a realidade que agora queima, segue pelo rastilho, traz ideias à tona, sobe à linha para respirar, sucumbe ao lodo sem revolvê-lo, que as palavras brotem sujas, que nada se perca, tudo se crie, e paralisar-se, petrificar-se, estagnar-se, represar-se, vem daí o cheiro acre, o verde de coisa podre, porque parar é apodrecer, e rir faz andar, adiantar-se, mover-se.

Seja o que for: o vento que move molda a pedra, alisa-a, oxigena o ventre, a mente e o pensamento. Com novos argumentos, raciocine e pense, haja como húmus que aduba a terra, aflore à terra, torne-se um botão de rosa que sobe, move-se, cresce, solta espinhos e, entretanto, encanta, é belo, diz aos olhos e às palavras o encanto da sua beleza, ferindo, para que não haja estagnação, cansaço ou tédio, haja os olhos que se abram, eles sejam ridentes, acutilantes, calculistas.

Haja cálculo: felicidade pouco tem a ver com a alegria, e tanto com aquele arroz empilhado, estocado, abrigado em tantas sacas.

Se a realidade é o mundo a oferecer-se à pessoa que abre os olhos rindo de si e de tudo o que ela acredita calculado para que possa abrir os seus olhos sem recear que os abra, haja o susto.

A pessoa assustada é gente cuja credulidade está em revelar o que se oculta em gôndola cheia: o eclipsado entusiasma os donos de toda aquela sacaria nas barrancas de rio, pois saco de arroz é saco de areia, e é isso que faz navegável até estacionamento de supermercado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de junho de 2024.

terça-feira, 11 de junho de 2024

Pescador confesso

 

Pescador confesso

 

A minha dedicação em parecer natural, que nem uma trepadeira se espalhando por muro, quiçá não tenha importância alguma para quem está indo trabalhar, mas é meu trabalho observar as pessoas sem que elas passem que estão realmente indo trabalhar.

Se é divertido espiar a rua um instante? Diverte-me.

Sem maiores preocupações com os automóveis passando com um passageiro, com as mulheres que criticam a tentativa de lucrarem com a privatização das praias, com o cão latindo atrás do ciclista dos fones coloridos, espio-a porque eu pretendo me inteirar dessa movimentação sortida de sentidos, carente de sortudos, mesmo que os meus pulmões não apreciem a riqueza dessas fumaças.

Posso sentar na varanda, fumar um cigarro, fumá-lo sem pressa, ir de tragada em tragada, de vez em quando bato as cinzas porque me apraz vê-las voejando na brisa. Ponho gosto em ver a brasa comendo o papel, então eu baforo o meu cigarrinho sem me arrepiar por alguma outra vontade.

Curto mesmo o momento? Memorizo-o.

O que corta o barato é um bate-boca que rebenta do outro lado.

O Fonseca é terrível, só escuta quando quer. Quando escuta, não ouve o que a gente fala, ele interpreta o que é dito. Sempre digo que a sua inteligência devia ajudar no treinamento dessa IA que tantos falam. Não martelam que a IA vai revolucionar a vida de todo mundo? Então, a mente do Fonseca é basicamente um artifício. A realidade não existe se não for adulterada por ela, não virar o que ele acha que ela é.

É inacreditável a cegueira que o faz ver o mundo como fruto do que ele acha. Ele não pensa, ele vê. Ele raciocina como se pensasse, mas ele não pensa, ele encaixa as peças. O resultado é que, em vez de vir à tona uma foto sua em 3X4, explodem corolas de tinta. Entende?

Entendo que preciso ir lá atrás pra dar uma olhada no cachorro que não para de latir; me dá licença, Dolores, pois não quero que nenhum gato vire patê lá no fundo do meu quintal.

Qual a pérola do posto: um Pollock ou outra “fonsecada”?

Embora não subscreva a versão contada, a graça vem fácil porque o Fonseca é um cara sistemático: ou o mundo mostra que está errado ou ele faz errado o mundo.

Dolores está brava com razão, porque o Fonseca, querendo provar que o gato não fugiria porque gato é bicho apegado ao sossego do seu espaço, ele arreganhou a porta da sala e, querendo tocá-lo porta afora, o bobalhão bateu palmas, assobiou, aboiou, pegou uma vassoura, até bombinha ele soltou, tanto fez que o danado do gato disparou, passou pela grade e sumiu-se.

Ninguém freou? Nem um miadinho foi ouvido.

Sendo ousado, Dolores, digo que eu sou que nem ostra.

Pescador, confio-lhe que não fico à toa quando pareço estar à toa, vendo a vida passar, escutando canário cantar, fumando por fumar. À toa, à toa, entranham-me as migalhas, os cacarecos, o que, distraídos, homens, mulheres e crianças vão semeando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de junho de 2024.

domingo, 9 de junho de 2024

A doce vida

 

A doce vida

 

A Mariana que encontrei ontem estava radiante. De modo nenhum, ela não me encantou por estar fazendo compras. Prefiro segurar esse comentário ― que bugigangas nos fazem esquecer do mundo que nos arruína a pouco e pouco. Ao contrário, da minha amiga emanava o quê de sapeca, de pimentinha, que ela, já garçonne gris, soltava um frescor da Liza Minelli por seu baita sorriso Cabaret.

Apesar de sapatilhas, collants e tiaras comporem uma das gêmeas na alegria bailarina de uma vovó toda orgulhosa, na cena eu vislumbrei a minha semana: os dias sorriram e eu sorri de volta.

Até me contenta a constatação: a semana foi tranquila.

Os pequenos percalços não apagaram em mim a alegria de sorrir. Nenhuma topada em quina foi impedida por gesto brusco, pois transitei suave pelas esquinas. Eu não me vi entristecido por frustração alguma, eu fluí, fui esse rio a passar discreto, murmurante, benfazejo.

De segunda a sexta, o meu mundico foi essa extraordinária avenida de semáforos abertos. Não tive que buzinar a cães, não precisei xingar ciclistas, não atravanquei as veredas de pardais, joaninhas e abelhas.

Caramba! Também estou orgulhoso. Putz! Sem afetar vaidadezinha vulgar, fui bom. Cáspite! Ontem e hoje, sou outro exemplar de pedestre que se preocupa em respeitar regras e malabares.

Posso dormir em paz, pela certeza de ter-me responsabilizado pelo mandamento cívico: não atropelar nem ser atropelado, ter mais um dia de cidadão civilizado.

Afinal, a civilização nos dá a cultura do diálogo, do abraço afetuoso, da palavrinha amiga no gesso de quem chuta o pé da trave.

Não faço pouco dessa gente tão sincera que nunca solta capucheta porque acha coisa de pobre empinar papel que embrulha pão ― óbvio, se houver filões e haja, mais óbvio ainda, moleques.

Que semana! Eu consegui não ser moleque nem fazer molecagens. Nem parece que sábado foi ontem, que nem comi pizza nem vi futebol na TV. Vivi uma semana diferente, que nem paguei bebida a ninguém, nem fui ao bar nem tomei uma caipirinha na feijoada. Que sábado!

A semana é de segunda a sexta, o sábado é pro descanso.

Já o domingo, hein? Eu não enfio o domingo na matemática do dia a dia. É espaço fora do tempo, das rotinas cósmicas, porque o domingo eu tiro para cortar as unhas, manter a careca careca e cochilar quando o cochilo chega. Não passo aperto com domingo algum.

Carambolas! Ao fim e ao cabo, eis a que conclusão eu chego: estou vivendo um momento único, vivo uma semana de sete domingos, algo que nunca tinha vivido, uma fenda na minha vida, um domingo que não exige que outro o siga.

Isso faz crer que, já que mergulhei neste instante, voltei a mim que não olho pra trás, não cantarei rosas murchas, não dissecarei bezerra morta, nem negarei que a felicidade é um domingo tão meu, sem praia, solidão nem tédio.

Que belo domingo, bem regado a Pimentinha Sessions.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de junho de 2024.


quinta-feira, 6 de junho de 2024

O bode na sala

 

O bode na sala

 

Algumas pessoas, por certo, vivem na confiança de que vieram ao mundo para mudá-lo conforme o que pensam; outras há, sem dúvida, que nasceram para batalhar por um minuto a mais na cama; tem ainda aquelas que não queimam muito a pestana, levantam quando sentem que um minutinho a mais é render-se à preguiça e, mesmo que o façam só por intuição, elas não veem TV pela magreza das atrizes nem pelos desesperos dos humilhados, mas pelo gol de placa da rodada.

Deve ser pela influência benéfica no moral da gente que tem rodada todo dia, e isso não deixa de ser um tento a mais na goleada aplicada em toda gente, seja a que vê TV ou a que dorme em busão.

Quando o sono cativa as pálpebras, não basta eu lavar o meu rosto, tomo aquele banho.

Posso ter nascido para escrever, antes, asseguro-me de ter nascido para tomar banho pelo que seja, até pra ver a água indo pelo ralo.

O quanto os possa tomar, tomo-os. Uma vez que banhos produzem em mim diversos efeitos. Quando busco relaxamento, quero-o pela boa noite de sono. Para reflexões racionais quando dilemas me fazem suar mesmo parado, banho-me pela duração que me faça menos passional. Se o empoderamento é mais do que uma palavrinha na moda, o banho me permite escolher a hora que convém começá-lo.

Na plenitude da prática, banho é exercício de cidadania.

A felicidade, o bem-estar, a energia positiva, a paz interior, a visão da tempestade que sobrevém à bonança. Sim, sei que sou uma pessoa cuja presença no mundo pode ser melhor pelos banhos que toma.

O destino veio marcado: que eu vá tomar banho.

Quando dizem para ir tomar banho, imediatamente cheiro o sovaco. Preciso mesmo? Quando verifico que não preciso, tudo bem. Quando falam pra me cortar o raciocínio, digo que vou, e peço que venham.

Tomando banho, penso um tantico: se é para fazer a mesma coisa, faça diferente. Eu faço. Procuro fazer. Quero fazê-lo. Que seja feito do meu jeito. Desejo tanto que o banho me permita a criatividade de achar o caminho que aperfeiçoe, minimize meus rancores, maximize os meus risos e sorrisos, e faça-me veículo à felicidade.

Não alegro quem se quer feliz? Fico cheiroso.

Quando quero ser encontrado pelo cheiro, ensaboo-me. Deixo que a espuma perfumada fique em mim por mais que cinco minutos. Relaxo com o cheiro bom que o sabonete tem.

No banho, sozinho, percebo e sinto. Acho dispensável, não preciso da solidão. Solitário, penso e raciocino: dane-se a conta de luz, pois a pessoa nascida para tomar banho tem mais que praticá-lo com ou sem alinhamento de seis planetas do sistema solar.

Se sigo pelo rastro que alicia por segui-lo?

Feito astrólogo com farta inexperiência, guardo o controle: se banho não suaviza bafo nem lava intestino, menos ainda quando as notícias sufocam de tanto metano dando coices na fuça, mudo de canal até dar com um que exale a dama-da-noite dos meus desejos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de junho de 2024.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Orelha quente

 

Orelha quente

 

Os cinco aguardávamos o retorno do anfitrião, que saiu buscar mais gelo, pois eu contei que haveria cinquenta bebuns no churrasco.

― Só o nosso Luisinho pra marcar almoço a uma da tarde.

― Pois é, só mesmo ele para não imaginar que exista quem almoce depois do meio-dia, ainda mais numa segunda-feira!

― Não conheço ninguém que coma quase na hora do café.

― Eu sei de gente que come no meio da tarde porque entra às dez no serviço ou só faz um lanchinho à noite porque tem que economizar no que dá.

― Putz! Tirando o que possa, essa gente passa um cortado.

― E muitos não aguentam, daí bebem, bebem, bebem.

Antes que me tachem de beberrão, sim, eu tomo todas, mas só as latinhas e as garrafas que eu compro. Pela marca de meu gosto e pela despesa que prefiro assumir, eu sempre me alegro ao comprá-las.

À parte meu grande entusiasmo por eu agir como costumo agir, os quatro à mesa beliscávamos o que a Clotilde nos servia, uma vez que ela designou a si própria como churrasqueira.

Sequer o Aristeu, invariavelmente tão acerbo, quis palpitar sobre a altura da grelha, a mão do sal, a secura da picanha.

― Não vá se esquecer de dar uma viradinha nos bifes.

― Não esquente, Dona Cremilda. Eu estou atenta.

Sim, o clima era bom, estávamos pouco dispostos a polemizar. Nós conversávamos sem nenhum viés irônico ou pernóstico.

A Dona Cremilda, naturalmente acrimoniosa, nem se desculpou por trazer ao papo uma fake news, pois só poderia ser notícia falsa isso de os museus franceses terem se convertido em academia.

― Quê, turistas fazendo polichinelo na frente da Mona Lisa?

― Que mentira mais sem pé nem cabeça!

Seu Rodrigues procurou e encontrou, aquilo era fato. A organização dos Jogos Olímpicos saiu-se com essa, de que Run in the Louvre seria um programa oportuno e saudável, juntando esporte e cultura.

Aristeu sorriu, imaginava-se correndo pelos corredores cercado por uma juventude sarada, bem alimentada, só gente instagramável, sem ter que correr de pentelhos, pequenos monstros, certas caricaturas que são criaturas de carantonhas caras, de beiços botoxilizados.

― Ô Aristeu, vai ficar feito bobo sem dizer por quê?

Aristeu disse que os europeus eram cuidadosos da saúde do corpo, que eram instruídos, conhecedores do que faz bem para o corpo e para a saúde da cabeça, que eles deveriam ser imitados, e nosso povo sabe achar no mundo o que há de melhor, e a Europa é modelo pro mundo todo, não só pra nosotros, cucarachas.

Com manchas de mostarda e ketchup na camiseta, o dono da casa finalmente regressou.

Em vez de confessar que parou pra comer um cachorro-quente, ele reclamou que estava de orelha quente, uma vez que, certamente, seus bons amigos ficaram falando mal dele.

Sim, como se toda gente andasse carente de atenção e todo mundo precisasse de uma palavrinha positiva, ele gosta de trocar um plá sobre qualquer assunto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de junho de 2024.