Alguma
felicidade
Apesar que estava chovendo, não me
aborreceu que estivesse, ou que o feriado tivesse a agenda perdida, também não
me entristeceu a chuva alterar o transcurso de meus afazeres, fui ficando na
cama.
Fiquei porque o barulho da chuva era
bom.
Gostei de ouvir a chuva caindo, sem que
tivesse vontade de gostar ou de prolongar a satisfação que vivia, ouvindo-a
cair.
A certeza de que o planejado estava
perdido, que o dia seria outro, estava certo de que poderia ser outro para o dia.
Sem desmerecimento ou nódoa, que não
entraria na avaliação essa severidade em me repreender pela pusilanimidade ao
abraçar o que a hora me ofertava, aquele prazer em escutar o barulhinho bom
daquela chuvinha oportuna, bastante natural que me entregasse àquela paz.
Naturalmente que ignorei o adiamento do
que estivesse agendado, pois precisava descansar as pernas, queria acalmar as
ideias, gostava de passar o dia na varanda, cochilando na rede, mesmo que parado,
a ouvir os ruídos da cidade, sem nem sequer identificá-los, censurá-los, reconfortar-me
por nomeá-los.
Essa escuta da chuva prescindia que
aprovasse o ritmo dos pingos, que o pesasse prazenteiro, hipnótico, calmante.
Vivia a calma sem que o barulho da chuva
possibilitasse me sentir calmo. Sem que a consciência interviesse no que vivia,
não precisava recorrer à predisposição, que o ser humano sente a calma que
deveras experimenta, ou supõe vivenciá-la, apenas porque a chuva é calmante,
naturalmente relaxante.
Pelo efeito benéfico que proporcionava, seria
estúpido não notar a chuva funcionando feito remédio. Não que fosse potente o
bastante pra me salvar do dia adiado, que ela fosse massageadora do meu ego,
que a aprecia pela acupuntura líquida, inebriante, revitalizante.
Sem que previsse sua vinda ou pedisse
por seu prolongamento, me peguei disposto a escutá-la enquanto, sem embaraço ao
admiti-lo, me fosse bom ouvi-la, pois a chuva caía gostoso.
Em outras palavras, se a mim mesmo sou sagaz
ao rememorar-me, pouco importava que permanecesse deitado tendo em vista a
benesse alcançada, pois não tomei em consciência o viés do ganho vivido.
Feliz, não precisei sentir a felicidade
que eu vivia.
A chuva caindo, a cabeça desligada das
tarefas, o corpo satisfeito, o hiato à felicidade que o momento criava, então,
pra que eu negaria o barulhinho bom, a boa disposição mental, a recusa de correr
por correr, o não fazer nada que estava determinado, essa bem-aventurança que o
mundo dava de graça, então, como seria capaz de me censurar pelos minutos passando,
pela eternidade vivida?
Não fiz outra coisa que não fosse ficar
deitado, não fosse gostar da chuva, não fosse nem ligar que a hora passasse, todavia,
a fome soou os sinos do meio-dia.
Apesar que a felicidade não dure o mais
que a gente queira, a chuva caindo foi o dadivoso do instante.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 09 de julho de 2024.