terça-feira, 4 de junho de 2024

Orelha quente

 

Orelha quente

 

Os cinco aguardávamos o retorno do anfitrião, que saiu buscar mais gelo, pois eu contei que haveria cinquenta bebuns no churrasco.

― Só o nosso Luisinho pra marcar almoço a uma da tarde.

― Pois é, só mesmo ele para não imaginar que exista quem almoce depois do meio-dia, ainda mais numa segunda-feira!

― Não conheço ninguém que coma quase na hora do café.

― Eu sei de gente que come no meio da tarde porque entra às dez no serviço ou só faz um lanchinho à noite porque tem que economizar no que dá.

― Putz! Tirando o que possa, essa gente passa um cortado.

― E muitos não aguentam, daí bebem, bebem, bebem.

Antes que me tachem de beberrão, sim, eu tomo todas, mas só as latinhas e as garrafas que eu compro. Pela marca de meu gosto e pela despesa que prefiro assumir, eu sempre me alegro ao comprá-las.

À parte meu grande entusiasmo por eu agir como costumo agir, os quatro à mesa beliscávamos o que a Clotilde nos servia, uma vez que ela designou a si própria como churrasqueira.

Sequer o Aristeu, invariavelmente tão acerbo, quis palpitar sobre a altura da grelha, a mão do sal, a secura da picanha.

― Não vá se esquecer de dar uma viradinha nos bifes.

― Não esquente, Dona Cremilda. Eu estou atenta.

Sim, o clima era bom, estávamos pouco dispostos a polemizar. Nós conversávamos sem nenhum viés irônico ou pernóstico.

A Dona Cremilda, naturalmente acrimoniosa, nem se desculpou por trazer ao papo uma fake news, pois só poderia ser notícia falsa isso de os museus franceses terem se convertido em academia.

― Quê, turistas fazendo polichinelo na frente da Mona Lisa?

― Que mentira mais sem pé nem cabeça!

Seu Rodrigues procurou e encontrou, aquilo era fato. A organização dos Jogos Olímpicos saiu-se com essa, de que Run in the Louvre seria um programa oportuno e saudável, juntando esporte e cultura.

Aristeu sorriu, imaginava-se correndo pelos corredores cercado por uma juventude sarada, bem alimentada, só gente instagramável, sem ter que correr de pentelhos, pequenos monstros, certas caricaturas que são criaturas de carantonhas caras, de beiços botoxilizados.

― Ô Aristeu, vai ficar feito bobo sem dizer por quê?

Aristeu disse que os europeus eram cuidadosos da saúde do corpo, que eram instruídos, conhecedores do que faz bem para o corpo e para a saúde da cabeça, que eles deveriam ser imitados, e nosso povo sabe achar no mundo o que há de melhor, e a Europa é modelo pro mundo todo, não só pra nosotros, cucarachas.

Com manchas de mostarda e ketchup na camiseta, o dono da casa finalmente regressou.

Em vez de confessar que parou pra comer um cachorro-quente, ele reclamou que estava de orelha quente, uma vez que, certamente, seus bons amigos ficaram falando mal dele.

Sim, como se toda gente andasse carente de atenção e todo mundo precisasse de uma palavrinha positiva, ele gosta de trocar um plá sobre qualquer assunto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de junho de 2024.

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