Orelha
quente
Os cinco aguardávamos o retorno do
anfitrião, que saiu buscar mais gelo, pois eu contei que haveria cinquenta
bebuns no churrasco.
― Só o nosso Luisinho pra marcar almoço a
uma da tarde.
― Pois é, só mesmo ele para não imaginar
que exista quem almoce depois do meio-dia, ainda mais numa segunda-feira!
― Não conheço ninguém que coma quase na hora
do café.
― Eu sei de gente que come no meio da tarde
porque entra às dez no serviço ou só faz um lanchinho à noite porque tem que economizar
no que dá.
― Putz! Tirando o que possa, essa gente passa
um cortado.
― E muitos não aguentam, daí bebem,
bebem, bebem.
Antes que me tachem de beberrão, sim, eu
tomo todas, mas só as latinhas e as garrafas que eu compro. Pela marca de meu
gosto e pela despesa que prefiro assumir, eu sempre me alegro ao comprá-las.
À parte meu grande entusiasmo por eu
agir como costumo agir, os quatro à mesa beliscávamos o que a Clotilde nos
servia, uma vez que ela designou a si própria como churrasqueira.
Sequer o Aristeu, invariavelmente tão
acerbo, quis palpitar sobre a altura da grelha, a mão do sal, a secura da picanha.
― Não vá se esquecer de dar uma viradinha
nos bifes.
― Não esquente, Dona Cremilda. Eu estou
atenta.
Sim, o clima era bom, estávamos pouco
dispostos a polemizar. Nós conversávamos sem nenhum viés irônico ou pernóstico.
A Dona Cremilda, naturalmente
acrimoniosa, nem se desculpou por trazer ao papo uma fake news, pois só
poderia ser notícia falsa isso de os museus franceses terem se convertido em
academia.
― Quê, turistas fazendo polichinelo na
frente da Mona Lisa?
― Que mentira mais sem pé nem cabeça!
Seu Rodrigues procurou e encontrou,
aquilo era fato. A organização dos Jogos Olímpicos saiu-se com essa, de que Run
in the Louvre seria um programa oportuno e saudável, juntando esporte e
cultura.
Aristeu sorriu, imaginava-se correndo
pelos corredores cercado por uma juventude sarada, bem alimentada, só gente
instagramável, sem ter que correr de pentelhos, pequenos monstros, certas
caricaturas que são criaturas de carantonhas caras, de beiços botoxilizados.
― Ô Aristeu, vai ficar feito bobo sem dizer
por quê?
Aristeu disse que os europeus eram cuidadosos
da saúde do corpo, que eram instruídos, conhecedores do que faz bem para o
corpo e para a saúde da cabeça, que eles deveriam ser imitados, e nosso povo sabe
achar no mundo o que há de melhor, e a Europa é modelo pro mundo todo, não só
pra nosotros, cucarachas.
Com manchas de mostarda e ketchup na
camiseta, o dono da casa finalmente regressou.
Em vez de confessar que parou pra comer um
cachorro-quente, ele reclamou que estava de orelha quente, uma vez que,
certamente, seus bons amigos ficaram falando mal dele.
Sim, como se toda gente andasse carente
de atenção e todo mundo precisasse de uma palavrinha positiva, ele gosta de trocar
um plá sobre qualquer assunto.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de junho de 2024.
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