Mãos
limpas
Embora o cuco esteja parado, os números
continuam agindo. Caso os ponteiros indicassem outra hora qualquer, e não
meia-noite e meia, talvez as circunstâncias fossem semelhantes, mas o frio
seria menor. Terá que haver sol e cortinas balançando discretamente para que o
dia seja propício à multiplicação de ideias. E ideias que sacudam a cachola
desde a alvorada, ou antes até, ainda durante os sonhos.
Talvez a alma acomode-se melhor na carne
aquecida pelos afagos solares, já os afluxos lunares não descartam uma
agitação. Empenhar-se em trocar tanto dia pela noite quanto a noite pelo dia é
comprometer-se, consciente e inconscientemente, a escutar-se em tique-taque.
O tempo é a pele em comunicação com o
cosmo?
Não é à toa que uma dorzinha de cabeça
surja pulsante, pois uma ideia instigante seduz de tal modo que, excedendo a
influência natural, a lua e o sol agitam o sangue.
Há pessoas cujos sonhos afinam o sangue.
Em raríssimas pessoas, o sonho agita o caldo cerebral, havendo tal
efervescência espiritual que a boca profetiza.
A língua da pessoa que profetiza não
seca fácil. Muita gente celebra as palavras proféticas, tanto celebram que as
registram e as publicam, pois o dinheiro arrecadado com as vendas é motivo de
júbilo.
Se a inspiração não vem, martele-se o
dedo. Quem martela o dedo chega a ver estrelas, e ter aquela dor latejante, que
não é pra qualquer um, é para ambiciosos. E defensores de ambição gananciosa,
porque a pessoa que suporta a dor tem que aprender a sublimá-la.
Uma vez, e é claro que houve muitas
vezes, martelei o polegar, isso ensina que palavrões não eliminam a dor. Com
dor, cuidei das tarefas, fiz contas, li o meu Drummond. Há mágoa que não pulsa
um dia inteiro, até omelete eu pude cortar quando bateu a fome.
Dificuldade maior eu tive ao lavar as
mãos.
Porém é preciso chegar a isso: usar as
próprias mãos para livrá-las da sujeira. Lavar-se não apesar da dor, mas porque
dói. Apontar o que dói é banalizar a condição e banalizar-se é menosprezar-se. Ainda
que não compreenda, a pessoa aprenda a cultivar a dignidade de sofrer em
silêncio. Todavia sofra enquanto for preciso, ou restará presa à dor que não
cessa. Mas sentir que o instante passa é profícuo.
Lavei-me, uma vez que havia feito o que
tinha para fazer nesse dia: arranquei os matinhos dos xaxins, limpei os ralos
do quintal e queimei a carta que eu não escrevi porque tenho cega a canhota.
Com mãos prenhes de emoções
contraditórias, um tanto trêmulas, peguei do lápis para hospedar o que desejava
escrito. E vi que as mãos realmente precisavam de uma boa esfregada, daquelas
que deixam a pele vermelha. Essas mãos muito bem lavadas, com esfoladinhas aqui
e ali, transmitem o perfume do sabonete líquido às palavras. Ah! Sim! Sentimentos
perfumados inebriam.
Muito embora lavar as mãos seja salutar,
sou mais sujá-las.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de março de 2024.