domingo, 3 de março de 2024

Mera informalidade

 

Mera informalidade

 

Dos benefícios do desânimo, ficar à janela enquanto alvorece está entre os mais amenos. Bem entendido, depois de outra madrugada de calor, faz bem desestressar a cuca longe do sol.

O quanto puder, porque a ideia volta-se sobre si. Neurônios fritam-se quando expostos, fique à sombra. Já que há dor que só se percebe depois de convertida em exaustão, podendo resguardar-se, delicie-se. Aproveite, beberique uma água gelada, pois o sol não tem opção, ele subirá pelos céus como se fosse de sua vontade redimensionar o corpo pela mente desolada.

Equivoca-se a mente.

Abatido com o calor o tempo todo, a rotina tem desses enganos, de dar na gente a crença no que parece ser que funcione sempre assim.

E a realidade de hoje tem o mesmo sol de ontem, a mesma rua de anteontem, o marasmo de achar que sou o mesmo do mês passado, do ano anterior, que vivo na mesma batida há anos e anos.

Por trapaceira, a realidade nem se esforça de convencer-me de que causa menos torpor percebê-la debilitante. Não preciso estafar-me, eu ignore as evidências de que a fraqueza embaralha os pensamentos.

Quando me atrapalho, me desgasto. Melhor parar, antes que pense em colapso, antes que eu tema colapsar-me.

Cabe a reação. Ainda que não brote a esperança, ficar à janela bem pode dar uma reanimada. Ainda que o dia siga o roteiro, a boa jogada é observá-lo. Tenho calma.

Até pra lembrar que nem tudo abate e cansa, lá vem ele. Com suas ocupações, um tanto afobado, vem aí aquele cão de todo dia. Quando perto do poste, o rabo sacode o quarto traseiro, o que faz do açodado um ser em estado de euforia. Quiçá seja inexato falar que ele conheça o frenesi, mesmo que esteja obcecado com o pé do poste.

Bom camarada, perdido das amenidades?

Perdido não, estou suado.

E disposto a suar um bocadinho mais, porque bem sinto que o vidro da janela não é isolante. Que nem o cão às voltas com o poste, também me dou em retrato de outra pessoa afetada pela realidade.

Na minha basbaquice pouco lírica, embora as observações diárias permitam-me entender que não há dia igual a outro, não me quero um peso morto, uma marionete do tédio.

Ainda bem que tenho aquele cão pra observar.

A ele pouco se lhe dá que o observem. Solto na calçada do lado de lá da rua, também aquele cão tem instintos que o impulsionam.

Sem firulas, urina. Cobre a mijadinha com a terra que não há. Torna a cheirar o pé do poste, agora coberto pelo pó que nem ele vê.

Pra ir adiante, no entanto, o cão retorna.

Torna a cheirar o poste, a urinar, a cheirar o território mijado, a usar as patas traseiras para varrer a terra invisível sobre o poste marcado.

Ele avança em direção à jardineira, mas recua.

Inspeciona o poste com o focinho. Faz xixi e joga a areia imaginária. Por não ser nenhum abilolado bibelô, ele late.

Tenta que tenta, sem desespero, repete que repete, este cão tem a minha cara, esse aí é osso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de março de 2024.

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