Fácil,
muito fácil
Os seres humanos têm boca. Da minha,
cuido eu. Não me refiro a enxaguá-la antes de dormir, cuido mantê-la fechada em
circunstâncias extremas ꟷ as muito estressantes ou as muito leves.
No dia a dia, os ambientes tóxicos são
poucos. Por experiência, tão logo percebo um clima particularmente pesado,
lembro-me de alguma coisa que preciso fazer.
Conheço o meu potencial para o patético,
não quero ser envolvido. Tenho urticária a situações enervantes, e, sem medir o
ridículo, já que posso muito bem me revelar outro imbecil numa discussão imbecil,
não saio de fininho.
Quando não consigo sair, emburro, faço
piada. Agravante é ter que explicá-la, contextualizá-la ou desculpar-me pela
brincadeirinha.
Como nem sempre é possível dar no pé, mergulho
naquela caverna que me mantém sereno. Já que as marolas fazem cócegas na nuca,
é aí que me tranquilizo sem culpa.
Ao léu das ondas, como quem passa fio dental
durante as refeições, a mente trava-me na relevância de dialogar.
Para sobreviver à fanfarronice, não
disfarço, digo que prefiro ouvir. Como gosto de dizer, não falo que não tenho
nada pra falar, é por isso que eu gosto mesmo é de escutar.
Embora possa parecer que eu esteja
boiando no cinismo de fingir-me interessado na radicalização, sou
pragmaticamente sereno. Boio e respiro, entendo que a sobrevivência pode ser
lúdica ainda que o papo vá por caminhos que tirem de mim algum monstro.
Bem-intencionado, sou um cretino. Por
óbvio, dado a fanfarronices, sou esse tagarela que sabe bem o quanto me custa
em insônia isso de querer agradar touro e toureiro.
Até que o silêncio me faça abrir a boca
por uma boa causa.
Para que a minha boca faça-me útil, fico
mudo. Ouço barbaridades, identifico falaciosos, e não falo à toa. A sociedade pede
leveza, precisa ficar leve? Porque aprovo a pacificação, pela concórdia tão necessária,
não fico de boca fechada, então, eu sorrio.
Não quero que as moscas do ódio
depositem seus ovos nas minhas papilas. Eu prefiro abrir o bico a levar bicada
de quem já infectado pelos perdigotos do rancor. Sorrio. Em vez de escarrar,
sou só sorriso.
Sim, sorrio, sou humano. Bem-humorado,
sorrio. Não estranho meu emudecimento sorridente, porque só emudeci depois de ouvir
a pessoa na mesa ao lado pedir um misto-quente sem tomate e orégano.
Pois, sim, até reparei melhor nessa
criatura.
Fácil fácil, boa gente domingueira, também
me acharia o cara mais rabudo do mundo por levar somente trinta e seis segundos
pra sacar o que a pessoa de verde-amarelo quis dizer ao seu cãozinho de
lencinho verde-amarelo no pescoço:
ꟷ Aberração, Pepê, é o pentagrama de
Davi ter seis pontas.
Ainda que nem valha três milhões no pix,
fique subentendido o que diz a minha gargalhadinha já mefistofélica:
ꟷ Rancoroso, livre-se da pecha de energúmeno.
Sorria, você segue sendo monitorado.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de fevereiro de 2024.
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