terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Fácil, muito fácil

 

Fácil, muito fácil

 

Os seres humanos têm boca. Da minha, cuido eu. Não me refiro a enxaguá-la antes de dormir, cuido mantê-la fechada em circunstâncias extremas ꟷ as muito estressantes ou as muito leves.

No dia a dia, os ambientes tóxicos são poucos. Por experiência, tão logo percebo um clima particularmente pesado, lembro-me de alguma coisa que preciso fazer.

Conheço o meu potencial para o patético, não quero ser envolvido. Tenho urticária a situações enervantes, e, sem medir o ridículo, já que posso muito bem me revelar outro imbecil numa discussão imbecil, não saio de fininho.

Quando não consigo sair, emburro, faço piada. Agravante é ter que explicá-la, contextualizá-la ou desculpar-me pela brincadeirinha.

Como nem sempre é possível dar no pé, mergulho naquela caverna que me mantém sereno. Já que as marolas fazem cócegas na nuca, é aí que me tranquilizo sem culpa.

Ao léu das ondas, como quem passa fio dental durante as refeições, a mente trava-me na relevância de dialogar.

Para sobreviver à fanfarronice, não disfarço, digo que prefiro ouvir. Como gosto de dizer, não falo que não tenho nada pra falar, é por isso que eu gosto mesmo é de escutar.

Embora possa parecer que eu esteja boiando no cinismo de fingir-me interessado na radicalização, sou pragmaticamente sereno. Boio e respiro, entendo que a sobrevivência pode ser lúdica ainda que o papo vá por caminhos que tirem de mim algum monstro.

Bem-intencionado, sou um cretino. Por óbvio, dado a fanfarronices, sou esse tagarela que sabe bem o quanto me custa em insônia isso de querer agradar touro e toureiro.

Até que o silêncio me faça abrir a boca por uma boa causa.

Para que a minha boca faça-me útil, fico mudo. Ouço barbaridades, identifico falaciosos, e não falo à toa. A sociedade pede leveza, precisa ficar leve? Porque aprovo a pacificação, pela concórdia tão necessária, não fico de boca fechada, então, eu sorrio.

Não quero que as moscas do ódio depositem seus ovos nas minhas papilas. Eu prefiro abrir o bico a levar bicada de quem já infectado pelos perdigotos do rancor. Sorrio. Em vez de escarrar, sou só sorriso.

Sim, sorrio, sou humano. Bem-humorado, sorrio. Não estranho meu emudecimento sorridente, porque só emudeci depois de ouvir a pessoa na mesa ao lado pedir um misto-quente sem tomate e orégano.

Pois, sim, até reparei melhor nessa criatura.

Fácil fácil, boa gente domingueira, também me acharia o cara mais rabudo do mundo por levar somente trinta e seis segundos pra sacar o que a pessoa de verde-amarelo quis dizer ao seu cãozinho de lencinho verde-amarelo no pescoço:

ꟷ Aberração, Pepê, é o pentagrama de Davi ter seis pontas.

Ainda que nem valha três milhões no pix, fique subentendido o que diz a minha gargalhadinha já mefistofélica:

ꟷ Rancoroso, livre-se da pecha de energúmeno. Sorria, você segue sendo monitorado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de fevereiro de 2024.

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