quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Indesculpável

 

Indesculpável

 

As coincidências começaram cedo; eu estava na fila.

Sem pedir licença à pessoa que esperava o troco, Clodoaldo queria saber se tinha certa marca de cigarro.

O homem disse a ele que responderia quando estivesse na sua vez de ser atendido, mas Clodoaldo preferiu sair.

Pouco depois, ao ouvir o homem pedir-lhe que aguardasse para ser atendida, a moça que perguntou se tinham aquela mesmíssima marca mencionada por Clodoaldo também ficou sem cigarros.

As coincidências continuaram; eu ia para casa.

A fulana que perguntou sobre o cigarro pediu-me as horas. Tirei do bolso o celular para não fazer a graça de que era hora de amar a Deus; essa sirigaita, nem fui agradecido pela informação precisa.

Assim que virei a esquina, Clodoaldo sobressaltou-se que fosse eu quem dera a hora à moça, que era sua parceira ou, para mudarem de calçada, ele não a teria puxado pelo braço com tanta paixão.

Quando o dia nasce pra coincidências, elas não ligam que a pessoa queira coerência; fiquei apreensivo com os ganidos do meu cão.

Solto no quintal desde que saio para comprar pão, normalmente os seus latidos não me incomodam, pois são latidos pra gato, passarinho, ou às pessoas que passam falando alto.

Corri ver o que tinha acontecido. Pro bicho ganir sentido, era porque devia ter levado pedrada. Quem botou a cabeça por cima do muro teve medo do meu pastor belga, então, pela frustração de não ter realizado o roubo que elaborara, essa pessoa evidentemente mandou pedra no guardião do meu quintal; não lambi o muro pra saber que o sangue não era do meu bom protetor.

Aliviado, devagar, eu ia pela frente da farmácia quando a comparsa do Clodoaldo não saía aperreada porque estivesse a esconder a mão enfaixada; aos policiais que rondavam a pé, eu pensei que precisaria apontar quais provas eu tinha para dar como verdadeira a opinião, que meu pastor dispunha de muita solidariedade na mandíbula.

Se vim lento ao sabor do vento, contratempo, prosseguiria lento das pernas e do pensamento.

Na calmaria da minha temperança, eu escolhia camisetas quando, por inacreditável, por fiar nos meus olhos, nitidamente eu vi Clodoaldo cobrir a sua sombra com um vestido à venda; o casal que furtou a peça e eu que paguei minha compra deixamos a loja silenciosamente.

Se permaneço em movimento, pensamento, é pra mais bem cuidar de mim, pois lamentaria me largar a esmo pelo mundo.

Quando o meu bom pastor atacou novamente, folguei que o fizesse, já que devia ter sido incitado.

O cão grunhia, tinha abocanhado a sua presa. Por instinto treinado, defendia-se de pernas que o agrediam.

Não estou domesticado pelas câmeras, pois não me preocupei que fosse outra patifaria sequer me aporrinhou que o meliante mendigasse mais que ataduras.

Meu pensamento, foco no que atormenta, que aquele canto revele-se um ponto indecorosamente cego.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de fevereiro de 2024.

Nenhum comentário:

Postar um comentário