Indesculpável
As coincidências começaram cedo; eu
estava na fila.
Sem pedir licença à pessoa que esperava
o troco, Clodoaldo queria saber se tinha certa marca de cigarro.
O homem disse a ele que responderia
quando estivesse na sua vez de ser atendido, mas Clodoaldo preferiu sair.
Pouco depois, ao ouvir o homem pedir-lhe
que aguardasse para ser atendida, a moça que perguntou se tinham aquela
mesmíssima marca mencionada por Clodoaldo também ficou sem cigarros.
As coincidências continuaram; eu ia para
casa.
A fulana que perguntou sobre o cigarro
pediu-me as horas. Tirei do bolso o celular para não fazer a graça de que era
hora de amar a Deus; essa sirigaita, nem fui agradecido pela informação precisa.
Assim que virei a esquina, Clodoaldo
sobressaltou-se que fosse eu quem dera a hora à moça, que era sua parceira ou,
para mudarem de calçada, ele não a teria puxado pelo braço com tanta paixão.
Quando o dia nasce pra coincidências, elas
não ligam que a pessoa queira coerência; fiquei apreensivo com os ganidos do
meu cão.
Solto no quintal desde que saio para
comprar pão, normalmente os seus latidos não me incomodam, pois são latidos pra
gato, passarinho, ou às pessoas que passam falando alto.
Corri ver o que tinha acontecido. Pro
bicho ganir sentido, era porque devia ter levado pedrada. Quem botou a cabeça
por cima do muro teve medo do meu pastor belga, então, pela frustração de não
ter realizado o roubo que elaborara, essa pessoa evidentemente mandou pedra no
guardião do meu quintal; não lambi o muro pra saber que o sangue não era do meu
bom protetor.
Aliviado, devagar, eu ia pela frente da
farmácia quando a comparsa do Clodoaldo não saía aperreada porque estivesse a
esconder a mão enfaixada; aos policiais que rondavam a pé, eu pensei que precisaria
apontar quais provas eu tinha para dar como verdadeira a opinião, que meu
pastor dispunha de muita solidariedade na mandíbula.
Se vim lento ao sabor do vento, contratempo,
prosseguiria lento das pernas e do pensamento.
Na calmaria da minha temperança, eu
escolhia camisetas quando, por inacreditável, por fiar nos meus olhos, nitidamente
eu vi Clodoaldo cobrir a sua sombra com um vestido à venda; o casal que furtou
a peça e eu que paguei minha compra deixamos a loja silenciosamente.
Se permaneço em movimento, pensamento, é
pra mais bem cuidar de mim, pois lamentaria me largar a esmo pelo mundo.
Quando o meu bom pastor atacou
novamente, folguei que o fizesse, já que devia ter sido incitado.
O cão grunhia, tinha abocanhado a sua
presa. Por instinto treinado, defendia-se de pernas que o agrediam.
Não estou domesticado pelas câmeras, pois
não me preocupei que fosse outra patifaria sequer me aporrinhou que o meliante mendigasse
mais que ataduras.
Meu pensamento, foco no que atormenta,
que aquele canto revele-se um ponto indecorosamente cego.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de fevereiro de 2024.
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