domingo, 25 de fevereiro de 2024

Gênio

 

Gênio

 

Certa feita, o desconhecido sentou, disse que começou a beber tão logo acordou porque o dia iria ser arrastado, não que aquilo fosse uma permissão, era constatação, porque beber um copo de cada vez levava tempo e ele não era gente de atropelar o prazer em nome da economia, se o dono queria os lugares ocupados pelo maior número de pessoas que bebem, comem e pagam na hora, essa esperança era do dono do bar, não era a sua, pois ele só pedia que parassem de arrastá-lo por aí porque não era trouxa de roupa pra ser lavada na primeira margem de rio, aquilo de ver águas cristalinas em riachinho fedendo a esgoto era tratar a gente feito roupa que precisa ser limpa, era depreciar os lastros de vida como se a carne que perdeu o viço estivesse suja só porque a consciência dita que esteja, então, ele murmurou que a natureza tinha a esperteza de fazer com que acreditasse que o natural da mente seria beber por gosto, não pela necessidade de anestesiar-se, que aquilo de querer amortecida a nuca onde o espinho era cruel, aquilo dava mais força pra que bebesse sem parar, bebesse pra resistir, porque isso de estar certo causa problemas, chama a atenção de quem não gosta de gente lúcida, então, ele bebia pra sangrar, porque iria sangrar e passar mal, iria sujar-se todo babando o sangue das suas entranhas, então, a roupa ficasse repugnante, fedesse a sangue, pois seria o sangue das suas tripas, porque ele sabia como ser cruel consigo, então, ele disse que aceitaria um trago pago por mim, desde que eu não o pagasse por simpatia, porque pessoas simpáticas têm língua assanhada, elas falam da imoralidade que é ser levado pela piedade, à deriva pela inércia das complacências, só que isso era uma atitude de gente que sabe apenas ser abjeta, que julga ser dona do mundo, crê que seja, embora vivendo a mando da grana porque o dinheiro suja o mundo, essa gente não tem desapego de indecências, nem pela amizade nem pelo dever.

Recentemente, esse mesmo sujeito, novamente bêbado, veio dizer que o dono do bar era simpático, não era como outros donos de boteco, ele era bacana, não deixava de servir até quem falava mal do seu time ou falasse bem do político que odiava, porque tinha a cabeça no lugar do coração frio, punha a mente no lugar da outra pessoa, porque vinha gastar no seu estabelecimento todo tipo de gente, vinha quem comia a coxinha murcha que deveria ter sido jogada aos vira-latas, vinha ainda quem tomava um farnel de água em vez de uma caixa de cerveja, tinha essa tristeza de ficar com uma gaita a mais quando errava no troco, já que ele jamais foi um sóbrio bom de conta.

Ainda há pouco, o louco por birita veio sentar-se, sem vergonha de virar o goró, o camaradinha disse que parou de beber à tarde pra poder acompanhar o espetáculo noturno, porque a lua vai ser de sangue.

Na minha frente, o cara torna o Royal Salute num Velho Barreiro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de fevereiro de 2024.

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