Que
sujeitinho
A chuva começa, mas o mistério é que as
suas roupas ensopam de repente. Os tênis encharcarem nem bem os pingos engrossem,
isso é mais que curioso, é interessante. Que estivera garoando faz um tempo,
perceba-se. É vero, o mundo anda lhe escapando.
Já molhada, a pessoa que atravessa a rua
não liga que chova. Está parada no meio da rua. Se um pingo lhe acerta o olho, acusa
o impacto da gota. Ela pisca a cada gota, mas sustenta o olhar.
Embora esteja nublado, o céu acima é
azul. Por esse azul que não borra nem descora, vale a pena levar na cara a
chuva incessante. Bom é querer esse céu; ainda que não o veja, sabe que ele há.
Sabê-lo, isso não seca suas roupas.
Sabe que há um céu azul, límpido, que o
céu acima das nuvens é impecavelmente azul, mas as suas pálpebras não estão
fechadas por visualizá-lo lindamente azul. Até nem precisa dele
irremediavelmente agradável, cristalino, porque esse céu vem à mente mesmo que
não haja vontade que o faça vir. Porque não precisa que exista conforme o
defina, gosta dele pelo que sente, pois o concebe paradisíaco, idílico, momentaneamente
chuvoso.
Para empoçar os pingos, faz da mão uma
concha. Bebe da água acumulada, e lambe a mão. Passa a mão lambida no rosto.
Gosta que os pingos acumulem, empocem,
subam pelo meio-fio e encubram-no. Alagamento impacta, foge ao controle; não
transformará suas mãos em remo, não nadará e não fará do corpo uma boia. Apaga
o corpo flutuando; prefere a água acumulada na concha da mão.
Quer mais é bebê-la. Sustenta as mãos em
concha; o quanto pode, aguenta-as no ar. Que beba da chuva o quanto queira; não
lhe ocorre a ideia de câimbra. Que as mãos lhe deem tal utilidade: para
permitirem o volume d’água, sirvam-lhe de concha.
Concha é calcária, é mineral, não é
líquida, escorreita.
Já a careca não é útil em nada. Sem
cabeleira, a cabeça não serve como fonte de irritação, pois não há cabelos
escorridos, ridiculamente lambidos. A água não para, escorre, desce pela testa.
Já a língua irrita porque é curta, não permite que a careca seja lambida. Nem
para ser lambida a careca serve.
Se murmurasse o quão triste é esta
condição, em nada diminuiria a imbecilidade. Pudesse aumentar a chuva, não lhe emudeceria
o lirismo de avoado.
Como correr à rua quando começava a
chover era pedir que a mãe admoestasse, assim muita gente aperta o passo. Como tem
gente que atravessa a rua fora da faixa, assim queria brincar na chuva.
No entanto, a água sobe, a calçada some,
a rua fica alagada.
Xingam. Amaldiçoam. Gritam que acorde, saia
da rua, deixe que os automóveis passem. Contudo, não atingem o alvo.
O careca baixinho, barrigudo,
quatro-olhos que não se abala, ao fim e ao cabo, ele sabe que faltaria fôlego
pra correr, causaria vômito agitar a pança, ser-lhe-ia estúpido limpar os
óculos.
Ainda assim, as buzinas esgoelam-me:
– Seu atrevido, quer morrer?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de março de 2024.
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