quinta-feira, 7 de março de 2024

Que sujeitinho

 

Que sujeitinho

 

A chuva começa, mas o mistério é que as suas roupas ensopam de repente. Os tênis encharcarem nem bem os pingos engrossem, isso é mais que curioso, é interessante. Que estivera garoando faz um tempo, perceba-se. É vero, o mundo anda lhe escapando.

Já molhada, a pessoa que atravessa a rua não liga que chova. Está parada no meio da rua. Se um pingo lhe acerta o olho, acusa o impacto da gota. Ela pisca a cada gota, mas sustenta o olhar.

Embora esteja nublado, o céu acima é azul. Por esse azul que não borra nem descora, vale a pena levar na cara a chuva incessante. Bom é querer esse céu; ainda que não o veja, sabe que ele há.

Sabê-lo, isso não seca suas roupas.

Sabe que há um céu azul, límpido, que o céu acima das nuvens é impecavelmente azul, mas as suas pálpebras não estão fechadas por visualizá-lo lindamente azul. Até nem precisa dele irremediavelmente agradável, cristalino, porque esse céu vem à mente mesmo que não haja vontade que o faça vir. Porque não precisa que exista conforme o defina, gosta dele pelo que sente, pois o concebe paradisíaco, idílico, momentaneamente chuvoso.

Para empoçar os pingos, faz da mão uma concha. Bebe da água acumulada, e lambe a mão. Passa a mão lambida no rosto.

Gosta que os pingos acumulem, empocem, subam pelo meio-fio e encubram-no. Alagamento impacta, foge ao controle; não transformará suas mãos em remo, não nadará e não fará do corpo uma boia. Apaga o corpo flutuando; prefere a água acumulada na concha da mão.

Quer mais é bebê-la. Sustenta as mãos em concha; o quanto pode, aguenta-as no ar. Que beba da chuva o quanto queira; não lhe ocorre a ideia de câimbra. Que as mãos lhe deem tal utilidade: para permitirem o volume d’água, sirvam-lhe de concha.

Concha é calcária, é mineral, não é líquida, escorreita.

Já a careca não é útil em nada. Sem cabeleira, a cabeça não serve como fonte de irritação, pois não há cabelos escorridos, ridiculamente lambidos. A água não para, escorre, desce pela testa. Já a língua irrita porque é curta, não permite que a careca seja lambida. Nem para ser lambida a careca serve.

Se murmurasse o quão triste é esta condição, em nada diminuiria a imbecilidade. Pudesse aumentar a chuva, não lhe emudeceria o lirismo de avoado.

Como correr à rua quando começava a chover era pedir que a mãe admoestasse, assim muita gente aperta o passo. Como tem gente que atravessa a rua fora da faixa, assim queria brincar na chuva.

No entanto, a água sobe, a calçada some, a rua fica alagada.

Xingam. Amaldiçoam. Gritam que acorde, saia da rua, deixe que os automóveis passem. Contudo, não atingem o alvo.

O careca baixinho, barrigudo, quatro-olhos que não se abala, ao fim e ao cabo, ele sabe que faltaria fôlego pra correr, causaria vômito agitar a pança, ser-lhe-ia estúpido limpar os óculos.

Ainda assim, as buzinas esgoelam-me:

– Seu atrevido, quer morrer?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de março de 2024.


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