terça-feira, 19 de março de 2024

Flanelinha

 

Flanelinha

 

A minha contribuição foi gesticular como se soubesse o que estava fazendo, a culpa, portanto, é do motorista que acreditou em mim.

Dizer que tenho duas caras é um erro, pois tenho muitas. As visíveis sem nada de extraordinário colaboram para que eu seja definido como uma pessoa normal. Também faço as surpreendentes, que podem ser aquelas que espanam a poeira depositada em mim pelas sensaborias cotidianas e aquelas que despertam censores, aqueles que me rotulam egocêntrico ou os que me invejam o narcisismo.

– Não nego nunca minha disposição pra ajudar.

Eu respeito, não abuso da confiança. Mas me irrita ser interrogado sobre minha cara fechada. Não gosto que me menosprezem. Peço que seja apontada a razão pra tamanho pé na bunda. Não se excedam.

– Sim, Antão, a minha casa me agrada. Se as pessoas reparassem, veriam que a garagem nunca viu um automóvel estacionado. Meu lar também não tem cão nem gato, pois não tenho tanto tempo assim.

Há quem não se importe de suportar miado o dia inteiro. Mas viver sozinho não me faz insensível. Precisado de carinho, qualquer bichano pode chegar. Gosto de acarinhar, e respiro melhor.

– Outra coisa que acalme?

A primeira coisa que me ocorre, é fechar os olhos por um tempo. E deixá-los fechados ao ouvir música. Mesmo que falatórios atrapalhem a curtição, aumento o som. Curto a vadiagem, ela refreia os rompantes. A última coisa que desejo é ser tomado por brusco, um selvagem.

– Sim, Antão, não vejo problema considerar a minha cama um divã. Na cama, satisfaço os afetos que careço. Nela, largo à realidade o que desestabiliza. Até consigo falar pro senhor o que normalmente me falta coragem. Não é mentira, eu sempre sou transparente dormindo.

Não sou dorminhoco.

– Sim, Antão, apago doze horas ao dia. Durmo oito horas por noite; a pestana depois do almoço dura duas horas; o cochilo depois da janta dura outras duas horas. Sou um cara consciente, eu durmo só o quanto preciso.

Dormindo, esqueço que meu time foi desclassificado no mata-mata. Dormindo, cruzo o rio pela pinguela atrás de casa. Passo carregando a coroa de flores. Martelo uma escada. Pinto de vermelho a porta dos fundos. No inverno, trepo no abacateiro. Dormindo, sonho que trabalho para que o mundo melhore um pouco.

– Sim, Antão, acho que tudo na vida tem razão de ser. Até quando o carro perde o freio, derruba o muro e atropela o gato do vizinho. Faz parte, não tem como impedir que o carro bata no muro, esmague rosas e assuste aquela gente que tem um gato que ronrona quando a gente faz carinho na sua cabeça.

Se a vida é ronronar para que sejam amorosos comigo?

– Antão, talvez eu precise cochilar. Talvez, dormindo, possa pensar sem refletir. Quem sabe tome da coragem para espalhar o que penso. Quiçá abandone a comichão de ajudar motoristas apenas porque eles não saem de fábrica com autonomia inteligente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de março de 2024.


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