Ou
vai ou racha
Para não dizer que deturpar a fala dos
outros é achaque de pessoa inconsequente, Maricota escutou o que disse Dona
Cremilda, mesmo assim, considerou a prudência de trocar certas palavras, uma
vez que a ofendiam em suas crenças de gente não ressentida.
Eis o que Dona Cremilda disse:
“Tenho saudades dos meus tempos de
menina. Tempos que voltam quando recordo a mamãe corrigindo-me por meus modos
desastrados. Tomando sopa de mandioquinha com pão dormido, chupava a colher
porque era ruído de aprovação. A mamãe nem precisava dizer o óbvio, que eu era
uma meninota mimada que pedia por correção. Sim, eu era mal-agradecida pelo que
me davam de comer.”
Maricota pôs a xícara no pires e, encarando
a amiga, disse:
ꟷ Como sabe o quanto eu prezo a
franqueza, nem a critico que nem se acabrunhe, porque você está confusa.
Depois de beber um gole de café, Dona
Cremilda disse:
ꟷ Minha querida, onde está que me
confundo?
ꟷ Não concordo que levante no ar essa
terra de quando era criança. A cabeça tem névoas para tornar a infância uma
época de amarguras. Mas o vento da realidade desmancha as fumaças da memória.
ꟷ Tá vendo, eu vivia na masmorra porque
era desastrada.
ꟷ Você era muito infeliz por causa das pessoas
que não a deixavam ser criança. Tinha hora para confessar os pecados que nem
sabia que tinha cometido. Tinha hora pra rezar pelos familiares cujos nomes
você nem sabia. Hoje você sofre porque não consegue perdoar-se.
ꟷ Sempre fui boa para levar esculacho.
ꟷ Mas suas travessuras nunca foram vis,
eram ingênuas. Coitada, derrube a porta do calabouço, porque as palmadas que não
doem mais na bunda ardem só na cabeça.
ꟷ Mal conheço minha cabeça, por isso, não
encontro outra solução. Mereço tomar tapa no bumbum porque não sei evitar.
Mesmo sabendo que vão falar mal de mim, ainda chupo a sopa de mandioquinha.
ꟷ E eu não sei? Tanto sei que nem gosto
de convidá-la para tomar sopa. Sinceramente, não suporto esse barulho
desagradável.
ꟷ Você é amiga de verdade. Eu entendo
sua preocupação comigo. Sei que você não quer assumir o papel de vilã.
ꟷ Sim, querida amiga, eu me policio. Mas
não é porque não desejo repreendê-la que irei proibi-la de tomar sua sopa. Ainda
bem que você compreende a minha situação. Se estamos na rua, tudo bem, não
serei eu a pessoa que olhará feio para você.
ꟷ Ai, amiga, como você é boa. Sabe que
tem essas comichões que sobem do nada, vêm de sei lá onde, e fazem de mim uma
boneca que tem vida autônoma, que faz o mal que nem quero pra ninguém.
ꟷ Se não o quer para ninguém, inclua-se.
Também não queira fazer mal a si mesma. Então, amiga querida, ou você escolhe comer
pastel ou nunca mais me tome uma sopa de mandioquinha em público.
Amigas que não escondem o que uma sente
pela outra, Maricota e Dona Cremilda optam por dividir uma feijoada, que vem acompanhada,
é claro, por duas cumbuquinhas de sarapatel.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de fevereiro de 2024.
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