quinta-feira, 21 de março de 2024

Brincadeirinha

 

Brincadeirinha

 

Na primeira caminhada do dia, Mauro parou no instante em que um gavião atacou uma pomba em pleno ar. De estalo, ligou. Ninguém em casa àquela hora, aquilo era estranho. Estancou na rua, queria assistir à pomba sendo devorada. Tirou fotos, apagou algumas, usou o zoom. Ainda que insistissem em ignorá-lo, à imagem, a única que enviou por apreciá-la a mais visceral, ele apôs: outra manhã gloriosa.

Era só uma brincadeira, não mais que isso. Enviada para provocar reação, qualquer que fosse, mesmo para ter criticado o humor, pra que gerasse emojis exageradamente cáusticos, mormente infantis.

Todavia nada, do zap do Júnior vinha somente silêncio. Que fosse! Uma vez ignorado, igualmente ignoraria. Indo adiante, a caminhada do Mauro completar-se-ia à porta da padaria. No entanto, nenhum retorno. O Júnior não espernear de volta, aquilo era difícil de acontecer.

À mesa de canto, Mauro pediu o pão na chapa com pingado de todo dia. Como de hábito, deixaria guardanapo e telefone paralelos. Ainda que o filho não tenha enviado nem mesmo bom dia, interessou-o que tratassem do noticiário. A maioria condenava a falsificação dos cartões de vacina, no entanto, assim que entregaram o pedido, Mauro satisfez-se em comer e beber.

Feito o desjejum, telefonou. Outra vez, nada de atenderem.

Abriu a foto do gavião devorando a pomba. Não tinha nada demais, uma cena corriqueira do mundo animal.

O filho ficar melindrado era mimimi. A luta pela sobrevivência é real, a vida não dá moleza. O gavião precisa comer tanto quanto a pomba. É natural que pomba coma grãos e ave de rapina alimente-se de carne. O mau humor de sequer ralhar, aquilo era um despropósito, uma coisa de gente mimada. Como o Júnior não foi criado a pão-de-ló, fazer bico ofendia. E o Mauro, como pai, não era flexível com desfeita.

Quando desafiado, ainda mais por gente da família, a temperatura do sangue subia. Precisaria dar saída à pressão ou seus pensamentos caraminholariam. Ter uma cachola como a sua, pensar pensar pensar, isso o degringolaria.

Com o juízo embaraçado pelos vermezinhos em legião, Mauro tinha que se distrair. Seria divertido recriar o duelo do gavião com a pomba. Poderia fazê-lo, porque tinha compromisso com as ideias que assumia. Queria fazê-lo, pois um aplicativo dar-lhe-ia opções, sugestões, abriria veredas pra explorar, experimentar, vivenciar.

E se o gavião trucidasse um rato?

Com inteligência para resvalar as rés do chão, estava farto de ouvir sobre joias desviadas e devolvidas. Em vez de enfarar-se de inquéritos em andamento, podia escutar-se.

Que faria, então? Colocaria a pomba atacando o gavião?

Não era fã de clichês. Desdenhava de gente que se garantia criativa ao alterar detalhezinhos de algo mais que aprovado, tão batido.

Antes de pomba refestelar-se de pomba, Mauro fecha o aplicativo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de março de 2024.

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