Brincadeirinha
Na primeira caminhada do dia, Mauro parou
no instante em que um gavião atacou uma pomba em pleno ar. De estalo, ligou. Ninguém
em casa àquela hora, aquilo era estranho. Estancou na rua, queria assistir à
pomba sendo devorada. Tirou fotos, apagou algumas, usou o zoom. Ainda que insistissem
em ignorá-lo, à imagem, a única que enviou por apreciá-la a mais visceral, ele
apôs: outra manhã gloriosa.
Era só uma brincadeira, não mais que
isso. Enviada para provocar reação, qualquer que fosse, mesmo para ter criticado
o humor, pra que gerasse emojis exageradamente cáusticos, mormente infantis.
Todavia nada, do zap do Júnior vinha somente
silêncio. Que fosse! Uma vez ignorado, igualmente ignoraria. Indo adiante, a
caminhada do Mauro completar-se-ia à porta da padaria. No entanto, nenhum
retorno. O Júnior não espernear de volta, aquilo era difícil de acontecer.
À mesa de canto, Mauro pediu o pão na
chapa com pingado de todo dia. Como de hábito, deixaria guardanapo e telefone paralelos.
Ainda que o filho não tenha enviado nem mesmo bom dia, interessou-o que tratassem
do noticiário. A maioria condenava a falsificação dos cartões de vacina, no
entanto, assim que entregaram o pedido, Mauro satisfez-se em comer e beber.
Feito o desjejum, telefonou. Outra vez,
nada de atenderem.
Abriu a foto do gavião devorando a
pomba. Não tinha nada demais, uma cena corriqueira do mundo animal.
O filho ficar melindrado era mimimi. A
luta pela sobrevivência é real, a vida não dá moleza. O gavião precisa comer
tanto quanto a pomba. É natural que pomba coma grãos e ave de rapina alimente-se
de carne. O mau humor de sequer ralhar, aquilo era um despropósito, uma coisa
de gente mimada. Como o Júnior não foi criado a pão-de-ló, fazer bico ofendia.
E o Mauro, como pai, não era flexível com desfeita.
Quando desafiado, ainda mais por gente
da família, a temperatura do sangue subia. Precisaria dar saída à pressão ou
seus pensamentos caraminholariam. Ter uma cachola como a sua, pensar pensar
pensar, isso o degringolaria.
Com o juízo embaraçado pelos vermezinhos
em legião, Mauro tinha que se distrair. Seria divertido recriar o duelo do
gavião com a pomba. Poderia fazê-lo, porque tinha compromisso com as ideias que
assumia. Queria fazê-lo, pois um aplicativo dar-lhe-ia opções, sugestões,
abriria veredas pra explorar, experimentar, vivenciar.
E se o gavião trucidasse um rato?
Com inteligência para resvalar as rés do
chão, estava farto de ouvir sobre joias desviadas e devolvidas. Em vez de
enfarar-se de inquéritos em andamento, podia escutar-se.
Que faria, então? Colocaria a pomba
atacando o gavião?
Não era fã de clichês. Desdenhava de
gente que se garantia criativa ao alterar detalhezinhos de algo mais que
aprovado, tão batido.
Antes de pomba refestelar-se de pomba, Mauro
fecha o aplicativo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de março de 2024.
Nenhum comentário:
Postar um comentário