Ela
tem razão
O que importa? Realmente, salvar-se.
É inteligente de sua parte, Mariana,
trabalhar com afinco. Não basta pagar as contas, é uma grande sacada fazer
reserva. A perspectiva de ter mais uns trocados não a deixa feliz, deixa-a esperançosa.
A cabeça flutua no escuro, ainda que o travesseiro feda, consegue flutuar.
Desde que passou a entregar comida, os três salários e meio são recompensa a
quem pilota das dez às nove e meia. Não cair inadimplente, Mariana, não a salva
do prazer. Quem anseia andar de gôndola, já com a gorjeta no bolso, tem mesmo
que salivar.
Embora suada nas madrugadas abafadiças, Mariana
tem juízo. Ela se deita após a novela das nove. Por causa das pedras nos rins,
bebe mais que um litro de água por dia. Com tanta água bebida, de quando em
quando, tem que urinar. O calor da madrugada a deixa mole-mole, mas Mariana
gosta de água. Sonha com Veneza, com o Mediterrâneo, mas pouco pensou no Tietê
limpinho.
Torcendo que a sua moto não quebre ainda
que a use, diariamente, por onze horas, Mariana acredita que trabalhar dobrado há
de produzir a salvação. Pela qual tanto labuta, há de alcançá-la.
Todavia, Mariana também põe confiança na
sorte que é orientar-se no mundo sob as influências espirituais que pondera decisivas
sobre a pessoa que ela é. Uma vez que o reconhecimento, de que o norte que a estimula
na vida efetivamente tem existência, é o passo essencial na jornada pela
autorrevelação, que ela nasceu na hora certa, no dia certo e na família certa,
ou seria uma fraca, uma fracassada.
Mariana entra na tabacaria. Compra fumo-de-corda.
Dispensa que entreguem o troco. Diz que não é propina porque santos não precisam
se compadecer das misérias. Condenada à salvação, ela rala a bunda na motoca.
Calejada, querendo a mente solta, Mariana fuma.
De barriga vazia, e fumada, Mariana tem
sede. Entra na lanchonete, vê o quibe na estufa, quer comê-lo com limão e
descê-lo com cerveja. Com moto pra montar, Mariana come em pé.
Sempre em frente, Mariana passa
novamente diante da tabacaria. Desta vez, ainda apressada, ela tem certeza de
que viu fumaça saindo do cachimbinho de barro do cacique.
Sempre em frente, ela passa por outra
tabacaria, quiçá a mesma, e vê o preto velho de chapéu de palha sentado à
porta. Mariana jura que viu, que aquele cachimbinho também fumou.
O que ambos têm em comum? Tanto o preto
velho quanto o cacique seguram o cachimbo de barro com a mão esquerda.
Mas Mariana não liga pro detalhe.
Assim como não precisa saber que o
artista que fez um também fez o outro, ela tem mais é que correr.
Para que as entregas não demorem chegar,
confere a nota, pega a grana, dá as moedas do troco, agradece e toca em frente.
Se ela tivesse esta informação, até
porque não é do seu feitio ficar indiferente, Mariana acharia caprichoso este
canhoto ter imaginado um cachimbinho para gente canhota.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de março de 2024.
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