terça-feira, 5 de março de 2024

Ela tem razão

 

Ela tem razão

 

O que importa? Realmente, salvar-se.

É inteligente de sua parte, Mariana, trabalhar com afinco. Não basta pagar as contas, é uma grande sacada fazer reserva. A perspectiva de ter mais uns trocados não a deixa feliz, deixa-a esperançosa. A cabeça flutua no escuro, ainda que o travesseiro feda, consegue flutuar. Desde que passou a entregar comida, os três salários e meio são recompensa a quem pilota das dez às nove e meia. Não cair inadimplente, Mariana, não a salva do prazer. Quem anseia andar de gôndola, já com a gorjeta no bolso, tem mesmo que salivar.

Embora suada nas madrugadas abafadiças, Mariana tem juízo. Ela se deita após a novela das nove. Por causa das pedras nos rins, bebe mais que um litro de água por dia. Com tanta água bebida, de quando em quando, tem que urinar. O calor da madrugada a deixa mole-mole, mas Mariana gosta de água. Sonha com Veneza, com o Mediterrâneo, mas pouco pensou no Tietê limpinho.

Torcendo que a sua moto não quebre ainda que a use, diariamente, por onze horas, Mariana acredita que trabalhar dobrado há de produzir a salvação. Pela qual tanto labuta, há de alcançá-la.

Todavia, Mariana também põe confiança na sorte que é orientar-se no mundo sob as influências espirituais que pondera decisivas sobre a pessoa que ela é. Uma vez que o reconhecimento, de que o norte que a estimula na vida efetivamente tem existência, é o passo essencial na jornada pela autorrevelação, que ela nasceu na hora certa, no dia certo e na família certa, ou seria uma fraca, uma fracassada.

Mariana entra na tabacaria. Compra fumo-de-corda. Dispensa que entreguem o troco. Diz que não é propina porque santos não precisam se compadecer das misérias. Condenada à salvação, ela rala a bunda na motoca. Calejada, querendo a mente solta, Mariana fuma.

De barriga vazia, e fumada, Mariana tem sede. Entra na lanchonete, vê o quibe na estufa, quer comê-lo com limão e descê-lo com cerveja. Com moto pra montar, Mariana come em pé.

Sempre em frente, Mariana passa novamente diante da tabacaria. Desta vez, ainda apressada, ela tem certeza de que viu fumaça saindo do cachimbinho de barro do cacique.

Sempre em frente, ela passa por outra tabacaria, quiçá a mesma, e vê o preto velho de chapéu de palha sentado à porta. Mariana jura que viu, que aquele cachimbinho também fumou.

O que ambos têm em comum? Tanto o preto velho quanto o cacique seguram o cachimbo de barro com a mão esquerda.

Mas Mariana não liga pro detalhe.

Assim como não precisa saber que o artista que fez um também fez o outro, ela tem mais é que correr.

Para que as entregas não demorem chegar, confere a nota, pega a grana, dá as moedas do troco, agradece e toca em frente.

Se ela tivesse esta informação, até porque não é do seu feitio ficar indiferente, Mariana acharia caprichoso este canhoto ter imaginado um cachimbinho para gente canhota.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de março de 2024.

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