No
vai da valsa
A chuva não me interessa; as roupas
molhadas também não. Olho a criança que não se abala que chova. Por ela ainda não
me interesso. Pode ser que traga alguma tristeza nos olhos, mas não enxergo
seus olhos. Não perco a esperança de compreender o que me fascina, estou focado
no olhar. Dou como interessante que esteja concentrada no que sei lá o que divise,
mas ela não simular comoção é intrigante.
Ser vista não a instiga a continuar como
está, pouco importa que só ela mantenha a impassibilidade. A sua indiferença me
enerva, mas não manifesto o grau de ansiedade que me importuna.
Não cuido em descobrir por qual motivo ela
não se interessa sequer pelos entregadores que não a abalroam porque têm o
dever de provar a quem pediu comida que trabalham direitinho, sem camelo caindo
aos pedaços e, indiscutivelmente, sem hematomas.
Na impossibilidade de especular o que tanto
a motiva, desencavo o que excita naquele olhar. Nada pétreo ou petrificante, tal
olhar acorda-me outro. Viro criança. Pela ansiedade de ser visto, desejo
comovê-la. Sem transparecer que esteja afetada, pouco importa que a chuva não
impeça que a observem viva. Incorrigivelmente, olhá-la é cativante.
Ainda que meu olhar ponha-me violento, a
criança não percebe que o uso como bisturi. Não opero feito cirurgião. Tomo-me
por câmera que enquadra tão somente o olhar. Não rasgo a carne, minha mirada é
um instrumento cirúrgico que funciona como pincel. Não exploro tendões, vivifico
tensões. Estou tenso, algo trêmulo. Não me policio, tenho medo de perder o
encanto que me mobiliza retratá-la. Mesmo carregado, não me faço notar. Ela não
liga que eu a pinte de maneira desastrosa, sem o manejo magistral de Goya em Saturno.
Por bisonho que seja, ainda assim não abro mão de apostar no que expressa
aquele olhar.
Saio da varanda, desço à rua, vou à
chuva, desejo sê-la.
Um sexagenário levaria guarda-chuva, sou
um e não levo. O trintão andaria rápido, sou esse e não ando. O debutante
valsaria sua música, sou outro mas valseio.
Propenso a achar pelo em ovo cozido,
descasco-me. Dou à criança a resposta que entendo apropriada. Sem volúpia de
ficar imóvel, meus cinco anos seguem sendo aos sessenta.
Por um momento, paro. Posso o próximo
passo, posso cruzar a rua, posso pôr meu olhar em diagonal ao olhar da criança
na chuva. Passo a passo, posso garantir não nos vermos.
Num instante de exibicionismo, pra
velarmos nossa nudez, as duas crianças são uma. Sim, inflexão é outro espelho.
Concebo essa estranha esfinge: sem corpo
de leão e sem asas de águia, com uma face menina. Sem nos vermos, nos assanhamos.
Uso a mente, gravo as iniciais do nome que não possuo. Com vontade de ter raspada
a bochecha no muro, escancara-se o pas de deux.
Por timidez, eu choramingo muito bem.
Todavia, agradeço à pessoa o desembaraço de beijar-me onde acuso a ferida.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de março de 2024.
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