domingo, 24 de março de 2024

No vai da valsa

 

No vai da valsa

 

A chuva não me interessa; as roupas molhadas também não. Olho a criança que não se abala que chova. Por ela ainda não me interesso. Pode ser que traga alguma tristeza nos olhos, mas não enxergo seus olhos. Não perco a esperança de compreender o que me fascina, estou focado no olhar. Dou como interessante que esteja concentrada no que sei lá o que divise, mas ela não simular comoção é intrigante.

Ser vista não a instiga a continuar como está, pouco importa que só ela mantenha a impassibilidade. A sua indiferença me enerva, mas não manifesto o grau de ansiedade que me importuna.

Não cuido em descobrir por qual motivo ela não se interessa sequer pelos entregadores que não a abalroam porque têm o dever de provar a quem pediu comida que trabalham direitinho, sem camelo caindo aos pedaços e, indiscutivelmente, sem hematomas.

Na impossibilidade de especular o que tanto a motiva, desencavo o que excita naquele olhar. Nada pétreo ou petrificante, tal olhar acorda-me outro. Viro criança. Pela ansiedade de ser visto, desejo comovê-la. Sem transparecer que esteja afetada, pouco importa que a chuva não impeça que a observem viva. Incorrigivelmente, olhá-la é cativante.

Ainda que meu olhar ponha-me violento, a criança não percebe que o uso como bisturi. Não opero feito cirurgião. Tomo-me por câmera que enquadra tão somente o olhar. Não rasgo a carne, minha mirada é um instrumento cirúrgico que funciona como pincel. Não exploro tendões, vivifico tensões. Estou tenso, algo trêmulo. Não me policio, tenho medo de perder o encanto que me mobiliza retratá-la. Mesmo carregado, não me faço notar. Ela não liga que eu a pinte de maneira desastrosa, sem o manejo magistral de Goya em Saturno. Por bisonho que seja, ainda assim não abro mão de apostar no que expressa aquele olhar.

Saio da varanda, desço à rua, vou à chuva, desejo sê-la.

Um sexagenário levaria guarda-chuva, sou um e não levo. O trintão andaria rápido, sou esse e não ando. O debutante valsaria sua música, sou outro mas valseio.

Propenso a achar pelo em ovo cozido, descasco-me. Dou à criança a resposta que entendo apropriada. Sem volúpia de ficar imóvel, meus cinco anos seguem sendo aos sessenta.

Por um momento, paro. Posso o próximo passo, posso cruzar a rua, posso pôr meu olhar em diagonal ao olhar da criança na chuva. Passo a passo, posso garantir não nos vermos.

Num instante de exibicionismo, pra velarmos nossa nudez, as duas crianças são uma. Sim, inflexão é outro espelho.

Concebo essa estranha esfinge: sem corpo de leão e sem asas de águia, com uma face menina. Sem nos vermos, nos assanhamos. Uso a mente, gravo as iniciais do nome que não possuo. Com vontade de ter raspada a bochecha no muro, escancara-se o pas de deux.

Por timidez, eu choramingo muito bem. Todavia, agradeço à pessoa o desembaraço de beijar-me onde acuso a ferida.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de março de 2024.

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