domingo, 17 de março de 2024

De afogadilho

 

De afogadilho

 

Estou chocado. Porque estou, não me ampara a autocensura. Jogo a culpa na inclemência climática, pois me transtorna de tal modo que me obrigo a suar mais. Eu poderia ser gracioso na paródia de pessoa sensata que sabe o que não deve fazer, mas colapsar, já energúmeno, faz soar o mais chocante.

Luciferino, dou voz de liberdade às caraminholas elétricas da minha cachola. Pro tédio não me corroer, salivo o infernal a cada palavra que me horripila. Garoto-propaganda do jeito indômito de viver, estou apto a transgredir o colapso. Localizo-me no mundo, e sorrio.

Tolero a polarização. Conheço, fui apresentado às divisões: o Norte será o Ártico; o Sul será a Antártida. No entanto, a Terra não é redonda nem plana, é geoide. Aceito que a bolha científica permite-me respirar por aparelhos. Recorro a ar-condicionado, refrigerador e celular.

Já que ondas de 40 metros deixarão cidades litorâneas submersas, condoo-me de não ser geneticamente bilionário para trocar pulmão de aço por brânquias.

Mesmo com o fim do verão, dizem que o calorão continuará.

Pobre outono, cujo perfil sofrerá desgaste. Afinal, muita gente gosta de limonada gelada, mas o sol não agirá implacável, é a estufa gasosa que tanto nos aperreia.

Peço por aplicativo. Irei pegar na farmácia o remedinho que me põe tranquilo. Tranquilidade não é serenidade, trago nuvens nas veias.

Estou ruim da cabeça, exagero, acutilo, saio da estrada, passo sob pontes, adentro o brejo, avanço, entro, avanço pelo pântano.

Afundo na lama fétida, o lodo é terra ensopada de esgoto. Misturo-me ao brejo, ao nojo, ao que me deixa pior. Radical, desejo resistir, me quero adaptado ao charco. Quero sobreviver à charneca que me atola.

Chapado de sol, sinto-me escamoso. Já chaparro, eu sou outro.

Pergunta-me, porém, o moço da farmácia:

— Encontrou o seu dinheiro, senhor?

— Sim, encontrei as merrecas atrás de uns livros.

Não havia dinheiro algum caído atrás dos livros no meu quarto, mas tenho pressa.

Não seja suposto que o afobado seja um sujeito digno, que poderia sê-lo se não estivesse suado, querendo que os ansiolíticos pelejantes da boa peleja arriassem-no a céu aberto.

Questiona-me, entretanto, a moça dos sapatos:

— O senhorzinho tem coragem de usar tênis de mil reais?

— Sou um senhorzinho de espírito jovem, senhorita.

Entender, entendi. No entanto, preocupo-me. Uma vez preocupado, fico ansioso. Mais predisposto, mais atávica e civilmente brasileiro.

Com a cachola a ponto de pânico, fio que o destempero se deva ao calorão. Queria influente quem me carimba leviano, mas, flexível, vivo ao azar das turbas.

Ao ser abordado, eu percebo a possibilidade? OK, mendicante, não preciso repassar todo um rosário de misérias.

Sem forçar amizade, simpatia ou fajuta fraternidade, atalho:

— Viandante, carece que o sinhô lhe pague uma gelada?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de março de 2024.

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