De
afogadilho
Estou chocado. Porque estou, não me
ampara a autocensura. Jogo a culpa na inclemência climática, pois me transtorna
de tal modo que me obrigo a suar mais. Eu poderia ser gracioso na paródia de
pessoa sensata que sabe o que não deve fazer, mas colapsar, já energúmeno, faz soar
o mais chocante.
Luciferino, dou voz de liberdade às
caraminholas elétricas da minha cachola. Pro tédio não me corroer, salivo o
infernal a cada palavra que me horripila. Garoto-propaganda do jeito indômito
de viver, estou apto a transgredir o colapso. Localizo-me no mundo, e sorrio.
Tolero a polarização. Conheço, fui
apresentado às divisões: o Norte será o Ártico; o Sul será a Antártida. No
entanto, a Terra não é redonda nem plana, é geoide. Aceito que a bolha
científica permite-me respirar por aparelhos. Recorro a ar-condicionado,
refrigerador e celular.
Já que ondas de 40 metros deixarão
cidades litorâneas submersas, condoo-me de não ser geneticamente bilionário para
trocar pulmão de aço por brânquias.
Mesmo com o fim do verão, dizem que o
calorão continuará.
Pobre outono, cujo perfil sofrerá
desgaste. Afinal, muita gente gosta de limonada gelada, mas o sol não agirá implacável,
é a estufa gasosa que tanto nos aperreia.
Peço por aplicativo. Irei pegar na
farmácia o remedinho que me põe tranquilo. Tranquilidade não é serenidade,
trago nuvens nas veias.
Estou ruim da cabeça, exagero, acutilo, saio
da estrada, passo sob pontes, adentro o brejo, avanço, entro, avanço pelo
pântano.
Afundo na lama fétida, o lodo é terra
ensopada de esgoto. Misturo-me ao brejo, ao nojo, ao que me deixa pior.
Radical, desejo resistir, me quero adaptado ao charco. Quero sobreviver à
charneca que me atola.
Chapado de sol, sinto-me escamoso. Já chaparro,
eu sou outro.
Pergunta-me, porém, o moço da farmácia:
— Encontrou o seu dinheiro, senhor?
— Sim, encontrei as merrecas atrás de
uns livros.
Não havia dinheiro algum caído atrás dos
livros no meu quarto, mas tenho pressa.
Não seja suposto que o afobado seja um sujeito
digno, que poderia sê-lo se não estivesse suado, querendo que os ansiolíticos
pelejantes da boa peleja arriassem-no a céu aberto.
Questiona-me, entretanto, a moça dos
sapatos:
— O senhorzinho tem coragem de usar
tênis de mil reais?
— Sou um senhorzinho de espírito jovem, senhorita.
Entender, entendi. No entanto,
preocupo-me. Uma vez preocupado, fico ansioso. Mais predisposto, mais atávica e
civilmente brasileiro.
Com a cachola a ponto de pânico, fio que
o destempero se deva ao calorão. Queria influente quem me carimba leviano, mas,
flexível, vivo ao azar das turbas.
Ao ser abordado, eu percebo a
possibilidade? OK, mendicante, não preciso repassar todo um rosário de misérias.
Sem forçar amizade, simpatia ou fajuta fraternidade,
atalho:
— Viandante, carece que o sinhô lhe
pague uma gelada?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de março de 2024.
Nenhum comentário:
Postar um comentário