Estranhamente
familiar
Poderia estar almoçando, mas o gás não
chega. No portão de casa, espero o botijão que realimentará o fogo às panelas
de arroz e quiabo. Porque a paciência evaporou em minutos, muito antes dos
prometidos dez minutos, estou ao portão, plantado há quarenta minutos.
Não sou dado a precipitações, guardo
posição. Entre ir para lá e pra cá, não desço à calçada. Longe de mim o degrau
servir como pedestal, seria ordinário o motoqueiro ver-me de longe. Já que automóveis
não abrem passagem só porque estou com fome, posiciono-me.
Conto que prepondere a lógica, que a atuação
seja sentida na real dimensão. Como a representação de pessoa que tem fome precisa
ser realista, paro quieto. Não é o temor de dar um passo que paralisa, é a
realidade. Ainda que a pessoa perca os sentidos, o cimento fere.
Imóvel à porta de casa, não finjo melhor
a fome que sinto. Espero, confio na imobilidade. Preservo os joelhos, pois é
provável que eu caia se arriscar um passo. Mesmo parado, imobilizado, aquietado,
poderia sorrir a quem passa, nem isso eu faço.
Uma vez que estômago vazio tem vida
própria, não esboço nenhum sorrisinho. Não sou gente que encabula pela fome que
sente.
Quem passa compreende, uma barriga
roncar é sinal de fome. Faz sentido, a barriga da estátua ronca porque é hora
do almoço.
É verdade, acredito que ídolo que não
emana luz interior não passa de barro amassado. Nada tenho que incentive alguma
adoração, tenho gases. E fósforo aceso posto à altura do meu nariz causará uma
baita explosão.
Divago. Sei o que me faz inspirar: mais do
que o quiabo com carne moída no prato, é imaginar a moto que não vem.
Quem passa não pensa que vê a fome
representada. Seu olhar não é de quem agrega sofrimentos ao que vê. Quem passa não
precisa se identificar nem sofrer comigo. Realmente, quem passa não tem que se
inteirar da minha situação. Aliás não sofro nem alucino, espero.
Quem passa não liga que eu esteja esperando
o gás. Não mudaria patavinas se soubesse que tenho dinheiro trocado. Quem me vê
ignora qual o valor da gorjeta que darei ao entregador.
Que o mundo rode assim, isso só a mim
produz efeito.
Se estou parado ao portão ao meio-dia, sei
que a minha aflição não tem poder para mudar nada, mesmo a quem passe com fome.
Ainda que sinta fome que nem eu, essa
gente passa sem saber que sou baixinho porque quero. Sim, tenho recursos para
espichar. Porque escolho continuar fofo, não lastimo meu descontrole das gulas.
E tanta gente sabe que sou careca porque dispenso peruca.
Motoqueiro, não me faça ficar feio na
foto. Na banda da ilusão, não serei fantasma, um morto-vivo, outro camarada só
osso.
Sem falsa modéstia, eu sei pilotar
fogão. O frio na barriga é porque posso editar a figura que projeto. Pra deixar
de ser baixinho, gorducho e careca, posso virar príncipe, alguém estranhamente
familiar, quiçá o Ronnie Von.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de março de 2024.
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