domingo, 10 de março de 2024

Desforra

 

Desforra

 

Agora que estou em casa, tenho certeza que não deveria ter saído, mas saí. Queria uma voltinha à toa, sem cachorro nem boletos. Queria vagar ao léu, só pra admirar pessoas, espiar árvores, refrescar a cuca. Quis escutar passarinhos, mas gritei de dor. Porca miséria! Na esquina deu-se o que nunca me acontecera, fui atacado por um bode.

Por falta de melhor explicação, outra menos óbvia: creio irresistível a Betty Boop tatuada na batata da minha perna.

Mesmo que pareça improvável, admito que o acontecimento mexeu comigo. Ainda que eu não seja hipocondríaco, tenho medo de adoecer por desleixo. Então, pelas asas da paúra, voltei voando.

Pra limpar a mordida, usei água e sabão em pedra. Como temi que os grãozinhos do sabão em pó entrassem pela pele, lavei a canela com espuma. Usando a água da torneira do tanque, lavei-a tomando muito cuidado, receoso de esfregá-la.

Não esfreguei, pois o pensamento veio cristalino. De fato, o evento não pode ser apagado pelo esquecimento. Bingo! Sobre a ferida, ainda que nem seja a minha banda favorita, tatuarei a marca registrada dos Rolling Stones porque a boca do Mick Jagger tem força tremenda, tem fama mundial, é um poderoso ícone pop. Ao mesmo tempo exposta, a cicatriz no tornozelo ficará muito bem resguardada, pô!

Porque não sei o quanto a baba do bode é tóxica, não vacilei. Tanto não pensei no meu bem-estar que virei um copo de leite. Se me queria livre dos prováveis sintomas da peçonha, eu não tomei um copinho de requeijão, socorri-me do mais graúdo dos copos que estão no armário, o de azeitona, que é um copão de meio litro.

Como bom cabrito que não berra, bebi que nem pisquei e, uma vez bebido todo o leitinho, foi sem veneno que eu soltei:

ꟷ Orelana! À sua saúde, seu cabra da peste!

Orelana este que não vem a ser o Francisco, que é Orellana. Pois o bode em questão merece a minha, a sua e a saudação de toda gente que guarda afeto pelo Henfil, de cuja tira em quadrinho trago o seguinte diálogo.

Orelana:

ꟷ Nhoqui. Nhoqui.

Zeferino:

ꟷ Bode Orelana! Podia comer o livro de boca fechada?

Primeiro, o bode diz:

ꟷ Quer dizer que a gente tem que adquirir cultura de boca fechada?

Em seguida, ele mesmo tem a resposta:

ꟷ Nhoqui! Nhoqui! Nhoqui! Nhoqui!

No terceiro quadrinho, Zeferino passa o recado:

ꟷ Bodinho perigoso de inteligente.

Se tenho memória de elefante para tanto? Não tenho. Tratei de ir à internet encontrar o que, com bom humor, encaminhasse a prosa para a expressão do ponto de vista.

Assim que termino o relato, o Luisinho comenta:

“Viver é tornar-se livre a cada instante”.

Dialeticamente, como complemento, não entendo que sobreviver é tolerar-se liberto por estar vivo. Em outras palavras, estou com ele que viver é fazer-se livre a cada momento, até para tatuar o logo comercial dos Rolling Stones.

Sem delongas: já que ele faz bico, bebo o leite que lhe ofereci.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de março de 2024.

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