Desforra
Agora que estou em casa, tenho certeza
que não deveria ter saído, mas saí. Queria uma voltinha à toa, sem cachorro nem
boletos. Queria vagar ao léu, só pra admirar pessoas, espiar árvores, refrescar
a cuca. Quis escutar passarinhos, mas gritei de dor. Porca miséria! Na esquina
deu-se o que nunca me acontecera, fui atacado por um bode.
Por falta de melhor explicação, outra
menos óbvia: creio irresistível a Betty Boop tatuada na batata da minha perna.
Mesmo que pareça improvável, admito que o
acontecimento mexeu comigo. Ainda que eu não seja hipocondríaco, tenho medo de
adoecer por desleixo. Então, pelas asas da paúra, voltei voando.
Pra limpar a mordida, usei água e sabão
em pedra. Como temi que os grãozinhos do sabão em pó entrassem pela pele, lavei
a canela com espuma. Usando a água da torneira do tanque, lavei-a tomando muito
cuidado, receoso de esfregá-la.
Não esfreguei, pois o pensamento veio
cristalino. De fato, o evento não pode ser apagado pelo esquecimento. Bingo! Sobre
a ferida, ainda que nem seja a minha banda favorita, tatuarei a marca
registrada dos Rolling Stones porque a boca do Mick Jagger tem força tremenda, tem
fama mundial, é um poderoso ícone pop. Ao mesmo tempo exposta, a cicatriz no
tornozelo ficará muito bem resguardada, pô!
Porque não sei o quanto a baba do bode é
tóxica, não vacilei. Tanto não pensei no meu bem-estar que virei um copo de
leite. Se me queria livre dos prováveis sintomas da peçonha, eu não tomei um
copinho de requeijão, socorri-me do mais graúdo dos copos que estão no armário,
o de azeitona, que é um copão de meio litro.
Como bom cabrito que não berra, bebi que
nem pisquei e, uma vez bebido todo o leitinho, foi sem veneno que eu soltei:
ꟷ Orelana! À sua saúde, seu cabra da
peste!
Orelana este que não vem a ser o
Francisco, que é Orellana. Pois o bode em questão merece a minha, a sua e a
saudação de toda gente que guarda afeto pelo Henfil, de cuja tira em quadrinho
trago o seguinte diálogo.
Orelana:
ꟷ Nhoqui. Nhoqui.
Zeferino:
ꟷ Bode Orelana! Podia comer o livro de
boca fechada?
Primeiro, o bode diz:
ꟷ Quer dizer que a gente tem que
adquirir cultura de boca fechada?
Em seguida, ele mesmo tem a resposta:
ꟷ Nhoqui! Nhoqui! Nhoqui! Nhoqui!
No terceiro quadrinho, Zeferino passa o
recado:
ꟷ Bodinho perigoso de inteligente.
Se tenho memória de elefante para tanto?
Não tenho. Tratei de ir à internet encontrar o que, com bom humor, encaminhasse
a prosa para a expressão do ponto de vista.
Assim que termino o relato, o Luisinho
comenta:
“Viver é tornar-se livre a cada
instante”.
Dialeticamente, como complemento, não
entendo que sobreviver é tolerar-se liberto por estar vivo. Em outras palavras,
estou com ele que viver é fazer-se livre a cada momento, até para tatuar o logo
comercial dos Rolling Stones.
Sem delongas: já que ele faz bico, bebo
o leite que lhe ofereci.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de março de 2024.
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