Brotinho
O cansaço está instalado. Sinto-me
cansado. O corpo, a mente, até a coluna, que canseira de dar dó. Curva-me um
pouco no pescoço, e vejo unhas, vejo pés. Quão cansado me alcanço.
Que estúpido. O tédio é estúpido.
O cansaço espelha-me triste. Fatigado em
estupidez. Enfatuado por aporrinhações. Pois triste, estúpido, entediado a
olhar-me, como cansa estar à mercê do tempo.
Quero agora recontar os dias, ouvir o
vento. Sim, o vento não para, insiste em silvar pelas frestas. Pelas mínimas
frestas das janelas, pelos vidros das janelas, sua voz de sibila.
Abaixados os vidros, mesmo fechadas as
janelas, tem esse assovio do vento que vai e volta, e isso aborrece mais um
pouco.
Não quero papo. Sobre o tempo, não quero.
Com muita luz pra pouco calor, não puxarei
a cortina. E quando não quero fazer, não faço. Ainda que a luz do sol continue na
jornada pelos quadrantes do universo, a Terra gire, e a natureza nem se redima
das estupidezes de ordem dita natural, não faço nada.
O universo não sabe de mim deitado na
penumbra da sala. Sim, eu puxei a cortina porque a rotação do planeta não está
na velocidade que mais me agradaria. Sim, estou decepcionado com a luz do sol,
também com o cosmos todo. Penso que o universo poderia colaborar comigo e
apressar o colapso entrópico, que há de haver daqui a zilhões de anos.
E a noção de ‘mais um pouco’, que pra
mim agora é muito relevante, já que estou chateado comigo, suporto, e repasso
que nem passa pela minha cabeça orar ao tempo.
Como indivíduo sujeito à passagem dos
segundos, à revolução dos corpos celestes, às comichões biológicas de bem-estar
e mal-estar, eu poderia, sem pensar no sol como parceiro, fechar os olhos.
Ora, não produzo energia sintetizando
fótons, isso quem faz são as plantas e, arrisco o palpite, os plânctons dos
oceanos.
Corrido o filó, material que mais
enfeita que corta a luz do sol, penso nas possibilidades de ter mais o que
fazer.
Desisto, pois não se faz necessário que
eu diga que está frio. Afinal, é inverno. O que, de repente, me aborreceu foi o
tempo. Da madrugada pra manhã e daí pra agora de tarde, tais viradas.
Como não sou de acessar redes sociais
nem pertenço a grupos de bate-papo por celular, o frio chuvoso da manhã foi
surpreendente. Tem ainda essa mudança pro sol gelado do céu limpo desde o
almoço.
Deixo estar. Que a natureza me ignore
por mais um pouco. Depois faço o que for. E pra cumprir só o que faço, não faço
nada.
Penso, logo tento ser lógico. Tento
seguir a lógica do eterno retorno. Que a natureza, o cosmos imenso, o universo ínfimo,
tudo isso que eu vejo, toco, ouço, penso e sinto, tudo que me envolve, revolve,
dissolve, isso faz crer em quem sou.
Sou quem?
Eu serei um broto careca desdentado a
pedir à Fada do Dente que ponha tostões quando estiver sonhando comigo a
revisar o que tenho feito durante esta vida de regressões em progresso.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de agosto de 2022.