O
previdente
A mulher não precisava apenas do espelho
para certificar-se de que os sapatos eram bonitos, tinha que, dando uns passos,
medir a reação da vendedora, que foi profissionalíssima.
Ela tinha horror àqueles pés, àquelas
unhas, ao calcanhar rachado. Achava ridículos aqueles pés minúsculos. Suportava
vê-las, as unhas, porque estavam pintadas. E aquela tatuagem de barbatana de
tubarão saindo das ondas nem escondia as marcas das fivelas arrochadas. Por isso,
por tal sinceridade, a meiguice sorria urbana à beça.
A compradora tirou o bandeide, que
aquilo pareceu-lhe por demais vulgar. Não que fosse esnobe, só tinha que cuidar
da aparência. Tinha o cuidado de manter-se invejável, e sapatos novos maravilham
quem tem que projetar beleza no entorno ou sofre, murcha, enfeia.
Educada para o belo, ela não precisava
se preocupar com o preço de cada par. Levaria três, pois três lhe bastavam,
parecia-lhe que três pares seriam o suficiente para fazê-la ignorar o
contratempo de possuir apenas dois pés, dois frágeis pezinhos de princesa.
A filha aprovou o salto agulha do modelo
cujo formato pressionava as veias, adensando-as disformes, sombrias, horrendas.
Fada madrinha na sétima semana de uma
gestação não assumida, enjoadinha, querendo voltar pra casa tão logo o crédito
fosse aceito, a adolescente recomendou outro, um cujo azul piscina combinava
com o azul desmaiado do hipermetrópico olhar materno.
Entretanto, ela calçou um, calçou outro,
desfilou cada um dos pares todos que lhe trouxera a funcionária, sempre
cordialíssima.
Sua afabilidade irradiava confiança. Ela,
de fato, ligava pro dinheiro que receberia, bastava concretizar a venda. E era enorme
a variedade de estilos, cores e saltos. Sorte? Uma ova! Além dos sapatos, mostrou
sandálias, tamancos, plataformas, átomos de um estoque colossal.
Na mesma loja, só que em outro mundo, quem
tinha cascalho para ladrilhar os caminhos com tijolinhos dourados agia firme, convicto,
sem ostentação gratuita do poder irrefreável dos seus cobres.
Pedira sem alarde, experimentava sem
comoção.
Sentado, calmo, calçando o único par que,
na esplêndida vitrine de multicoloridas bugigangas, apontou-o a quem o servia.
O rei dos vinténs apertou o dedão,
apalpou o peito de cada pé, não perguntou que material era, pois era leve, de uma leveza irresistível.
Acariciando o rosto, cofiando uns fios do
cavanhaque, o senhor da bufunfa aprovou a escolha, atraído por aquela joia
reluzente, vistosa.
Embrulhassem para presente. Levaria o
número 27. Daria ao filho, que um dia desses faria oito anos. Como era pai,
tinha orgulho e sabia que seu dever era garantir as condições daquele futuro tão
magnífico. E chuteira zero-bala era primordial pra que seu rebento estreasse
com pé direito na venturosa trajetória rumo à mui valorosa seleção.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de julho de 2022.
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