Está
ventando forte. Amanheceu nublado. O tempo virou enquanto eu dormia. Estamos carrancudos.
Não
há engano: estou carregado de melancolias nubladas.
As
copas das árvores vão balançando com as rajadas. Os pássaros lutam pra voar. Um
cachorro usa uma caçamba de lixo pra se proteger.
A
natureza não percebe que não sinto vergonha porque nada posso fazer pra mudar
as condições atmosféricas. Só me sinto abatido.
Imagino
o sol brilhando; e tenho eriçados os pelos dos braços. Não quero olhar chateado
a rua, contudo continuo à janela.
Ficaria
em casa, mas o dia não adia nada.
Preparo
o almoço e almoço: ovos mexidos, e sem alho.
O
céu está ameaçando abrir. Por entre as nuvens, o sol espia minha alma acinzentada.
E isso quase me anima a dar um pulinho ao banco, uma passadinha no mercado e
conversar bobagens.
É
bem possível que me mantenha sereno, simpático, sociável.
À
saída de casa, piso numas fezes. Deslizo, paro, não me estatelei. Rezingo. Querendo
que a saída seja breve, me distraí. Que azar!
Volto
para trocar os meus tênis porque, sei lá que bicho me mordeu, esfreguei a sola
de um no peito do outro.
Omito
o calão, avacalho-me.
Fiz
porcaria. Ela que me aguarde à beira do tanque porque preciso tomar o rumo de
banco e supermercado.
Como
é pra já, vou no pique.
Na
esquina, vejo um trio de moradores de rua. Um deles retira uma garrafinha de
água da lixeira, mas ela está seca. Atiçando um cachorro pra que salte e lata,
outro bate os pés e as mãos, grunhindo brincalhão. Já o que está descalço
examina os pés, mas, ô alívio!, ele não pisou o cocô que eu houvera pisado
ainda há pouco.
Quis
cruzar a rua, porém o lado de lá também está ensolarado. Ou seja, neste
horário, entre meio-dia e uma da tarde, o sol acanhado não esconde que as duas
calçadas estão perfeitas para mendigos, crianças e adultos em geral. É dia de
semana, o fluxo está normal.
Na
rotina de sempre, estou meio deslocado.
Tenta-me
o desejo. Reconheço-me motivado como bom ouvinte. Aí, encurto o passo. Não me
distancio dos molambentos. Só me preocupo que não me notem a ouvi-los. Preciso
da invisibilidade para me manter anônimo, incógnito, um escutador casual de um
papo espontâneo.
Não
me confundo: tenho tímpanos treinados.
No
ponto de táxi, pedem trocados pra bife, cachaça e pão.
Moram
na rua, mas têm como fritar a carne, têm onde lanchar sem que os condenem pelos
golinhos de pinga. Estão chapados de álcool, não estão noiados. Confessam-se
cachaceiros, mas não é que gostem de beber, bebem para não ter fome. O problema
que, bêbados, eles se lembram de que não comeram. Daí, pedem dinheiro, mas o
dinheiro é só para comprar comida. Não gastam com bebida porque a sorte deles é
bem grande, eles sempre acham o que beber.
Um
taxista entra no mercado, compra-lhes pães, frios e coca de 2l.
Quer
um desfecho sem pieguice?
Vira-lata
que não anda à toa fica de guarda.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 12 de julho de 2022.
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