terça-feira, 12 de julho de 2022

Anjo bom

 

Anjo bom

 

Está ventando forte. Amanheceu nublado. O tempo virou enquanto eu dormia. Estamos carrancudos.

Não há engano: estou carregado de melancolias nubladas.

As copas das árvores vão balançando com as rajadas. Os pássaros lutam pra voar. Um cachorro usa uma caçamba de lixo pra se proteger.

A natureza não percebe que não sinto vergonha porque nada posso fazer pra mudar as condições atmosféricas. Só me sinto abatido.

Imagino o sol brilhando; e tenho eriçados os pelos dos braços. Não quero olhar chateado a rua, contudo continuo à janela.

Ficaria em casa, mas o dia não adia nada.

Preparo o almoço e almoço: ovos mexidos, e sem alho.

O céu está ameaçando abrir. Por entre as nuvens, o sol espia minha alma acinzentada. E isso quase me anima a dar um pulinho ao banco, uma passadinha no mercado e conversar bobagens.

É bem possível que me mantenha sereno, simpático, sociável.

À saída de casa, piso numas fezes. Deslizo, paro, não me estatelei. Rezingo. Querendo que a saída seja breve, me distraí. Que azar!

Volto para trocar os meus tênis porque, sei lá que bicho me mordeu, esfreguei a sola de um no peito do outro.

Omito o calão, avacalho-me.

Fiz porcaria. Ela que me aguarde à beira do tanque porque preciso tomar o rumo de banco e supermercado.

Como é pra já, vou no pique.

Na esquina, vejo um trio de moradores de rua. Um deles retira uma garrafinha de água da lixeira, mas ela está seca. Atiçando um cachorro pra que salte e lata, outro bate os pés e as mãos, grunhindo brincalhão. Já o que está descalço examina os pés, mas, ô alívio!, ele não pisou o cocô que eu houvera pisado ainda há pouco.

Quis cruzar a rua, porém o lado de lá também está ensolarado. Ou seja, neste horário, entre meio-dia e uma da tarde, o sol acanhado não esconde que as duas calçadas estão perfeitas para mendigos, crianças e adultos em geral. É dia de semana, o fluxo está normal.

Na rotina de sempre, estou meio deslocado.

Tenta-me o desejo. Reconheço-me motivado como bom ouvinte. Aí, encurto o passo. Não me distancio dos molambentos. Só me preocupo que não me notem a ouvi-los. Preciso da invisibilidade para me manter anônimo, incógnito, um escutador casual de um papo espontâneo.

Não me confundo: tenho tímpanos treinados.

No ponto de táxi, pedem trocados pra bife, cachaça e pão.

Moram na rua, mas têm como fritar a carne, têm onde lanchar sem que os condenem pelos golinhos de pinga. Estão chapados de álcool, não estão noiados. Confessam-se cachaceiros, mas não é que gostem de beber, bebem para não ter fome. O problema que, bêbados, eles se lembram de que não comeram. Daí, pedem dinheiro, mas o dinheiro é só para comprar comida. Não gastam com bebida porque a sorte deles é bem grande, eles sempre acham o que beber.

Um taxista entra no mercado, compra-lhes pães, frios e coca de 2l.

Quer um desfecho sem pieguice?

Vira-lata que não anda à toa fica de guarda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de julho de 2022.

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