domingo, 17 de julho de 2022

A experiência

 

A experiência

 

Mesmo mal iluminada, atravessei a praça quando avistei um amigo. Desde que ele me pediu pra assinar uma petição, ando enojado. Quero detalhes sobre o surto repentino, quem caça maritacas?

Cúmplice da minha ignorância, um homem cortava cenoura, batata, batata doce, cebola e inhame numa lata de cinco litros ꟷ outrora cheia de tinta, agora com água fervendo. Pra manter o fogo, o homem punha mais um graveto. Havia em seu olhar a mesma inocência que me levou a quem o retratava, por que as massacram?

Bastou que o cumprimentasse, ele guardou a máquina numa bolsa. Não estendeu a mão, encaminhou-se pra barraquinha mais próxima e, sem se incomodar a responder ao que lhe perguntava, pagou um café. Não resisti, agradeci-lhe com um tapinha no ombro, mas que história é essa com as coitadas?

Contou que acordou com dor de estômago, que nunca sentira uma dor igual àquela. Até apalpou a barriga, mas não lhe localizou a origem.

Há cinco semanas, enquanto cuidava de terminar um trabalho com fotos tiradas recentemente, surgiu esse mal-estar no estômago.

Aquela não era uma dor igual à pancada do joelho num móvel. Se fosse, haveria comparação. Podendo comparar, teria como encontrar num quadro de referência o nome da coisa. Mas, a dor era inédita.

O médico bateu com os nós dos dedos, não tinha gases na barriga. Falou três vezes trinta e três, os pulmões não fizeram barulho. Seguiu a ponta do dedo sem ficar vesgo, a visão continuava normal.

Depois de olhar pro teto, consultar páginas na internet, mordiscar a tampa da caneta, o doutor afirmou que nunca nenhum paciente tinha vindo com algo desconhecido, daí não arriscaria prognosticar nada.

Recomendou-lhe que, tal qual os fizera, repetisse os procedimentos da manhã em que a dor manifestou-se pela primeira vez.

Foi o que fez. Como se a manhã fosse replicável, reviveu-a. Porém, agiu consciente de que era sua obrigação manter-se atento aos sinais de quando a dor começasse, porque o remédio certo dependia de sua percepção. Mesmo sendo perspicaz com o que sentia, a dor veio.

O doutor pediu que agisse tal qual a primeira manhã, mas o fizesse à tarde. E a tarde foi que nem a primeira manhã, e a dor veio.

Angustiado com a curiosidade não satisfeita, o doutor pediu-lhe que repetisse tudo à noite. As fotos foram as mesmas e nenhuma legenda teve vírgula alterada, até a dor foi idêntica.

Preocupado com a irresolução do problema, pediu que fizesse tudo pela manhã, pulasse a tarde e repetisse o roteiro à noite. Sem começar pela cabeça, a dor foi igual.

Prestes a jogar a toalha, ele pediu pra agir como sempre, mas que, depois de três horas, comesse um pãozinho. Foi quando a dor acabou por não acontecer.

Eureca! Comendo pão de três em três horas, o trabalho rende.

Pra que nenhum estômago doa sem pãozinho na hora certa, o bom doutor compreendeu que precisava ser senador.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de julho de 2022.

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