Mesmo
mal iluminada, atravessei a praça quando avistei um amigo. Desde que ele me
pediu pra assinar uma petição, ando enojado. Quero detalhes sobre o surto repentino,
quem caça maritacas?
Cúmplice
da minha ignorância, um homem cortava cenoura, batata, batata doce, cebola e
inhame numa lata de cinco litros ꟷ outrora cheia de tinta, agora com água
fervendo. Pra manter o fogo, o homem punha mais um graveto. Havia em seu olhar
a mesma inocência que me levou a quem o retratava, por que as massacram?
Bastou
que o cumprimentasse, ele guardou a máquina numa bolsa. Não estendeu a mão, encaminhou-se
pra barraquinha mais próxima e, sem se incomodar a responder ao que lhe
perguntava, pagou um café. Não resisti, agradeci-lhe com um tapinha no ombro, mas
que história é essa com as coitadas?
Contou
que acordou com dor de estômago, que nunca sentira uma dor igual àquela. Até apalpou
a barriga, mas não lhe localizou a origem.
Há
cinco semanas, enquanto cuidava de terminar um trabalho com fotos tiradas
recentemente, surgiu esse mal-estar no estômago.
Aquela
não era uma dor igual à pancada do joelho num móvel. Se fosse, haveria
comparação. Podendo comparar, teria como encontrar num quadro de referência o
nome da coisa. Mas, a dor era inédita.
O
médico bateu com os nós dos dedos, não tinha gases na barriga. Falou três vezes
trinta e três, os pulmões não fizeram barulho. Seguiu a ponta do dedo sem ficar
vesgo, a visão continuava normal.
Depois
de olhar pro teto, consultar páginas na internet, mordiscar a tampa da caneta, o
doutor afirmou que nunca nenhum paciente tinha vindo com algo desconhecido, daí
não arriscaria prognosticar nada.
Recomendou-lhe
que, tal qual os fizera, repetisse os procedimentos da manhã em que a dor
manifestou-se pela primeira vez.
Foi
o que fez. Como se a manhã fosse replicável, reviveu-a. Porém, agiu consciente
de que era sua obrigação manter-se atento aos sinais de quando a dor começasse,
porque o remédio certo dependia de sua percepção. Mesmo sendo perspicaz com o
que sentia, a dor veio.
O
doutor pediu que agisse tal qual a primeira manhã, mas o fizesse à tarde. E a
tarde foi que nem a primeira manhã, e a dor veio.
Angustiado
com a curiosidade não satisfeita, o doutor pediu-lhe que repetisse tudo à noite.
As fotos foram as mesmas e nenhuma legenda teve vírgula alterada, até a dor foi
idêntica.
Preocupado
com a irresolução do problema, pediu que fizesse tudo pela manhã, pulasse a
tarde e repetisse o roteiro à noite. Sem começar pela cabeça, a dor foi igual.
Prestes
a jogar a toalha, ele pediu pra agir como sempre, mas que, depois de três
horas, comesse um pãozinho. Foi quando a dor acabou por não acontecer.
Eureca!
Comendo pão de três em três horas, o trabalho rende.
Pra
que nenhum estômago doa sem pãozinho na hora certa, o bom doutor compreendeu
que precisava ser senador.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 17 de julho de 2022.
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