domingo, 31 de julho de 2022

Pregão anacronista

 

Pregão anacronista

 

Numa ducha rápida depois de uma hora de caminhada forçada, me apressei pro desjejum.

Pego o pão, cubro-o com uma folha de alface picada com as mãos, completo com a segunda fatia de pão; e adeus sanduba.

Quantos cumprimentos deixarão o dia menos ordinário?

Abria a porta quando a senhora que varria a calçada deu-me aquele bom-dia de gente afoita, a querer de pronto demonstrar-se educada.

Ainda que formal, contabilizarei esse bom-dia na coluna positiva ou o travesseiro julgará carregadíssima a cabeça abalroada pelo cotidiano de insensibilidade generalizada.

Bons dias!

Chegando de volta, na esquina perto de casa, Luisinho atravessou meu caminho. Queria muito me contar que os ventos da fortuna tinham encaminhado até ele uma ideia genial.

Observando os bem-te-vis que cantavam sem razão para tamanha cantoria, o velho amigo de tantas jornadas disse que achara a solução pros problemas do mundo.

Graças a um camarada entusiasmado, o mundo tem solução.

Bons dias!

Sim. Mesmo pensadores geniais precisam de ouvintes polidos. Até me ocorreu de abraçá-lo à vista de quem passava, mas tive o impulso de ir-me logo. Que contasse em outro instante, me perdoasse a pressa. Como desconhece bons modos, o intestino me cobrava celeridade.

De livro à mão, na página congelada, regresso um tanto.

A mulher que varria a calçada talvez tenha desejado que o meu dia fosse bom, todavia meus tímpanos de pessoa apurada filtraram como mera formalidade aquele desejo simpático.

Bons dias!

Ontem mesmo, ouvi a criança que falava uns versinhos ao vovô que a escutava interessado no que lhe era segredado com a inocência que desconcerta cínicos, céticos e comediantes.

“No mundo de muitas faces, quem planta couve não colhe tomates”.

O engraçado é que eu penso ter ouvido que “no mundo das alfaces, quem semeia tomate colhe alicate”. Que surrealismo frívolo.

Frívolo! Ô coisa gostosa. Inté falar frívolo é bem frívolo.

Uma vez que não preciso crer na infância, volto à criança que trago em mim. Volto sem medo, porque acredito na evolução carismática de pedir, implorar, suplicar, espernear, esgoelar e quebrar carrinhos como quem atira copos.

Espatifá-los-ia, mas não tocaria nos cacos, pois são deslumbrantes. Nada ameaçadores, ficam tão belos quando o sol bate nas faces.

Se nas alfaces brotassem alfajores, a história seria bem outra. Com a meninada pedindo, se esperneando, suplicando por alfajor alfácico.

Bons dias!

Corro ao papel. Sem nenhum aceno ao Senado nem às Academias, escrevo o segredo que não pretendo revelado: há em mim essa ânsia permanente, vitalícia e imortal. Me acho uma pessoa calma, de escrita moderada, apenas um escrevinhador pacato.

Bons dias!

Sem embaraços, complicações, conflitos paradoxais, sem provocar apoptose, quero-me anônimo, eterno anônimo, a escutar os dias.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de julho de 2022.

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