domingo, 10 de julho de 2022

O esconderijo

 

O esconderijo

 

Não é preciso apertar o passo, ansiando chegar de vez, pois quem vem àquela casa com a intenção de encontrá-la de cabeça para baixo, esse que espera ser recompensado com a confirmação de desejos tão desabonadores, o seu sorrisinho desdenhoso dirá eu sabia.

Sabe de nada, apressadinho.

Não se pense que almofadas aos pés do sofá, um vasinho ou outro virados no parapeito da janela, uns piruás numa tigelinha ou, se for pra ir às minúcias, o tapete marcado pela poltrona, nada disso redunda que a responsável pela casa seja uma pessoa desleixada.

Se não ficasse espiando quem comprava aquele par de meias, teria avançado um instante porta adentro, entrando a tempo pra observar a mulher desdobrando-se pra ajeitar tudo na sala.

Se não se alarmou com a campainha, ela desembestou lá do fundo tão logo a menina, usando a cortina pra não ser vista pela senhora que enxugava o rosto com um lenço, foi depois que a caçula esgoelou mãe, mamãe, a tia tá no portão, manhê.

A irmã mais velha do seu marido não iria desculpá-la. Entregaria as meias pro sobrinho, tomaria chá gelado, com duas colheres de açúcar, e comentaria o clima bom, pra quem não tem glândulas complicadas.

Como não tem varizes nem sudoríparas desreguladas, o suor será pelo bafo da torta, é de banana?, acabada de assar.

Embora nem notando que o futuro talvez dispense meias, você que se conserve acompanhante contente com o que lhe é contado.

Ela arrumou a sala; sorrindo, abriu a porta; pela correria, suava; mal conseguiu dizer boa-tarde, uma vez que a filha fez as honras:

ꟷ Saiu da toca, tia Carlota?

ꟷ Bicho é que mora num buraco, Maria Eduarda. Não a ensinaram na es-co-la? ꟷ escandindo as sílabas pro subentendido casa.

Tia Carlota entrou, afofou a almofada na poltrona, colocou outra às costas, e, puxando e repuxando e alisando o vestido para que não lhe ficasse desnuda uma mísera polegada de pele, sentou-se.

Nesse ínterim, Duda e a criançada já haviam se pirulitado.

Quedaram-se a sós, a visitante das horas impróprias e a quituteira dos biscoitinhos de polvilho, acredita que perdi a receita de novo?

Como sempre, ela não fez por mal.

Não banque o babaquinha de julgá-la megera, a vilã, a inimiga a ser vencida porque trouxera meias a um garotão de doze anos.

Compreendamos o ponto.

Em vez do velho-de-guerra pijaminha, não quis a chateação de dar um número errado como no ano passado, ela reconhece que o Mauro vem espichando, que ele está virando rapaz de repente. Mas isso não a convence a chamá-lo de César, ele não é Sérgio como o pai?

Ele não. E o MC não é adepto de pijama listrado ou meias chumbo.

Como tem modos, agradecido, ele retirou-se ao quarto, pois, nesse aposento, praticaria desimpedido a arte de ver acrobatas tiktokers.

Enquanto isso, e enquanto a almofada na poltrona continuava a ser ocupada, o gato dormia fora de cena, recôndito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de julho de 2022.

Nenhum comentário:

Postar um comentário