Não
é preciso apertar o passo, ansiando chegar de vez, pois quem vem àquela casa
com a intenção de encontrá-la de cabeça para baixo, esse que espera ser
recompensado com a confirmação de desejos tão desabonadores, o seu sorrisinho
desdenhoso dirá eu sabia.
Sabe
de nada, apressadinho.
Não
se pense que almofadas aos pés do sofá, um vasinho ou outro virados no
parapeito da janela, uns piruás numa tigelinha ou, se for pra ir às minúcias, o
tapete marcado pela poltrona, nada disso redunda que a responsável pela casa
seja uma pessoa desleixada.
Se
não ficasse espiando quem comprava aquele par de meias, teria avançado um
instante porta adentro, entrando a tempo pra observar a mulher desdobrando-se
pra ajeitar tudo na sala.
Se
não se alarmou com a campainha, ela desembestou lá do fundo tão logo a menina, usando
a cortina pra não ser vista pela senhora que enxugava o rosto com um lenço, foi
depois que a caçula esgoelou mãe, mamãe, a tia tá no portão, manhê.
A
irmã mais velha do seu marido não iria desculpá-la. Entregaria as meias pro sobrinho,
tomaria chá gelado, com duas colheres de açúcar, e comentaria o clima
bom, pra quem não tem glândulas complicadas.
Como
não tem varizes nem sudoríparas desreguladas, o suor será pelo bafo da torta, é
de banana?, acabada de assar.
Embora
nem notando que o futuro talvez dispense meias, você que se conserve
acompanhante contente com o que lhe é contado.
Ela
arrumou a sala; sorrindo, abriu a porta; pela correria, suava; mal conseguiu dizer
boa-tarde, uma vez que a filha fez as honras:
ꟷ
Saiu da toca, tia Carlota?
ꟷ
Bicho é que mora num buraco, Maria Eduarda. Não a ensinaram na es-co-la? ꟷ escandindo
as sílabas pro subentendido casa.
Tia
Carlota entrou, afofou a almofada na poltrona, colocou outra às costas, e, puxando
e repuxando e alisando o vestido para que não lhe ficasse desnuda uma mísera polegada
de pele, sentou-se.
Nesse
ínterim, Duda e a criançada já haviam se pirulitado.
Quedaram-se
a sós, a visitante das horas impróprias e a quituteira dos biscoitinhos de
polvilho, acredita que perdi a receita de novo?
Como
sempre, ela não fez por mal.
Não
banque o babaquinha de julgá-la megera, a vilã, a inimiga a ser vencida porque
trouxera meias a um garotão de doze anos.
Compreendamos
o ponto.
Em
vez do velho-de-guerra pijaminha, não quis a chateação de dar um número
errado como no ano passado, ela reconhece que o Mauro vem espichando, que
ele está virando rapaz de repente. Mas isso não a convence a chamá-lo de César,
ele não é Sérgio como o pai?
Ele
não. E o MC não é adepto de pijama listrado ou meias chumbo.
Como
tem modos, agradecido, ele retirou-se ao quarto, pois, nesse aposento, praticaria
desimpedido a arte de ver acrobatas tiktokers.
Enquanto
isso, e enquanto a almofada na poltrona continuava a ser ocupada, o gato dormia fora de cena, recôndito.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 10 de julho de 2022.
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