A
casa em ordem
Gosto de tudo limpo, e a mulher fez
questão de passar o dedo para acentuar que não estava brincando.
Antecipando-se à bronca, foi a filha
mais velha que deixou o fogão limpinho depois que, com a frigideira destampada,
fritou batatinha para o irmão e pra si.
Como se isso a pudesse impedir de
avançar, muito entrona, a irmã do meio chiou porque batata frita com pouco sal
é para quem não gosta de batata frita, e esse ranço gorduroso, hein?
Era uma casa de gente que não ficava
dizendo o quanto se amava. Eram pessoas que viviam juntas, e a condição de
conviverem indicava que o sentimento fundamental dessa união era o amor. E
família unida não precisa mostrar a todo instante o quanto é amorosa.
Se comiam batatinha quando bem queriam?
ꟷ Eles sabem que não dá pra ter batata
frita todo dia.
ꟷ Não tem bolso que aguente, amiga.
Para não concorrer com o filme que as
crianças assistiam, as duas senhoras foram conversar na cozinha.
Comeram bolo de fubá. Tomaram café com
leite. Comeram bolo de chocolate. Beberam mais café com leite. Comeriam e
beberiam até de noite, mas passariam o último capítulo e não queriam perdê-lo.
Comentaram que os bons sofreriam mas
seriam premiados, que é o esperado de novela que valorize o que eleva a alma. A
gente precisa se distrair, tem que se esquecer um pouco desse dia a dia bem
rasteiro, traiçoeiro, muito carente de festa.
ꟷ Pegue mais bolo, mas a visita foi se
levantando, pois tinha que ir dar banho nas crianças.
Se não estragarem no fim, se não
inventarem de chocar com ideias mirabolantes, disse a vizinha à porta, vamos
palpitar um bocado.
A mãe chamou, que a filha mais velha viesse
arrumar a mesa.
Ela obedeceu que nem resmungou, pois a
quantidade de louça na pia era maior do que a usual. Tinha as assadeiras dos
bolos e da torta de sardinha, tinha o bule de café e o jarro da laranjada, e tinha
os cacos do copo que alguém largou para outro limpar.
Que correria, Santo Deus! Sem fantasias
com um colega de classe, filho da professora de artes, ela foi lavando tudo com
muita espuma.
ꟷ Olhe a água! E a torneira foi fechada.
A sala estava pronta. A TV ligada no
canal certo. O som no volume necessário pra tornar audíveis todas as falas. A
janela da frente estava fechada; por causa do barulho, a porta da cozinha também.
Deitado perto da porta, o cachorro já
tinha saído pra checar troncos e postes. Como iogue de celular em punho e tênis
na poltrona, a caçula teve que ser admoestada. Com o corpo impedindo que fosse
notada a câmera ligada, uma vez que seus treze anos pediam registro de beijos e
amassos, o garotão ajeitou-se a meio metro da TV.
Quando o pai entrava, o horário político
terminava e vibrava o alerta de outro emoji engraçadinho daquele seu amigo nada
secreto, quando finalmente podia se sentar, a filha mais velha foi atalhada
pela mãe:
ꟷ Ô menina chata, que só sabe incomodar na
hora errada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de agosto de 2022.
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