A
gente tinha combinado de ir aos armarinhos da 25 de Março, mas há interdições.
Pegou fogo num prédio; tem dez andares perigando ruir a qualquer trepidação.
Com garoinha glacial, o vento veio com intenso desconhecimento da inconsistência
material, que cimento, cal, areia, o ferro e saliva têm esse misterioso dom de
virarem pó num estralo, seja de dedo ou de concreto.
Consumidores
sensíveis, compraremos noutra freguesia, a digital.
Compraremos
não porque nutrimos a avidez dos cúpidos, teremos, ainda nesta semana, um aniversário
a ser festejado.
Com
balões pelo salão, as toalhas paramentando as mesinhas e as cabeças enchapeladas,
pois, bem ornamentados, festejaremos.
E há de ser uma vitória atingida a felicidade compartilhada. Será grande a nossa
alegria que, dados os parabéns, apagadas as velinhas, dada a primeira fatia,
não recuaremos da limpeza do buffet.
Faremos
valer as horas de comilança, pois brindaremos ao amor, à amizade e ao quindim
caprichado. Sopraremos língua de sogra mesmo que a sogra desaprove. Não atiraremos
à tristeza quem aspira a beijos, abraços, uma porção de coxinhas em pratinho de
plástico. Beberemos tubaína como se fosse tubaína. E brindaremos de felicidade,
ainda que efêmera. Enquanto houvermos felizes, saudaremos quem nos destina o
amor que tanto nos aproxima, une e fortalece.
A
gente até esquece que está frio, garoando. Há um calor que afaga as carências, aconchega
as saudades insepultas, revive nas cinzas a brasa dos amores da vida. Há que se
viver, amar, sofrer pelo medo de que se acabe o amor. Amar, ainda que o medo
faça sentir-se aviltada, desprezada, abalada, envergonhada, dolorosamente só. A
gente anda precisando de sentir-se amada.
Num
momento de abandono, conheci o desgosto do desespero.
Foi
no meu tempo de menino.
Como
a minha família vivia no interior, fui crescendo naquela Ibiúna dos anos
setenta. Nada de fantástico acontecia do dia pra noite, havia pão e leite à
porta das casas, ia-se a pé pra escola.
Ao
ano, uma ou outra vez, havia acontecimentos marcantes, esses que não morrem.
Porque os de mais idade haverão de rememorá-los, vez ou outra, entre um trago e
outro. Seja um acidente automobilístico com pessoas muito queridas, seja um
foguetório na madrugada porque houve quem dormisse com a vela acesa, seja
quando um teco-teco fez pouso forçado numa estradinha. Talvez o fogo-fátuo
subisse da várzea da represa. Até encrencasse a amante com um pulha
desaforento.
Porque
a vida vira, outro circo veio.
E
teve lona subindo aos céus; macacos comendo banana em jaula forrada de palha; a
me abundarem a saliva, coristas cosendo as suas malhas. Pra brincar de
vagamundo, o picadeiro foi quintal.
Quando
um do palhaços machucou o quadril, o ajudante do atirador de faca fez-se de
palhaço. Em vão eu quis ajudar com as facas.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 14 de julho de 2022.
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