quinta-feira, 14 de julho de 2022

Sonho vespertino

 

Sonho vespertino

 

A gente tinha combinado de ir aos armarinhos da 25 de Março, mas há interdições. Pegou fogo num prédio; tem dez andares perigando ruir a qualquer trepidação. Com garoinha glacial, o vento veio com intenso desconhecimento da inconsistência material, que cimento, cal, areia, o ferro e saliva têm esse misterioso dom de virarem pó num estralo, seja de dedo ou de concreto.

Consumidores sensíveis, compraremos noutra freguesia, a digital.

Compraremos não porque nutrimos a avidez dos cúpidos, teremos, ainda nesta semana, um aniversário a ser festejado.

Com balões pelo salão, as toalhas paramentando as mesinhas e as cabeças enchapeladas, pois, bem ornamentados, festejaremos.

E há de ser uma vitória atingida a felicidade compartilhada. Será grande a nossa alegria que, dados os parabéns, apagadas as velinhas, dada a primeira fatia, não recuaremos da limpeza do buffet.

Faremos valer as horas de comilança, pois brindaremos ao amor, à amizade e ao quindim caprichado. Sopraremos língua de sogra mesmo que a sogra desaprove. Não atiraremos à tristeza quem aspira a beijos, abraços, uma porção de coxinhas em pratinho de plástico. Beberemos tubaína como se fosse tubaína. E brindaremos de felicidade, ainda que efêmera. Enquanto houvermos felizes, saudaremos quem nos destina o amor que tanto nos aproxima, une e fortalece.

A gente até esquece que está frio, garoando. Há um calor que afaga as carências, aconchega as saudades insepultas, revive nas cinzas a brasa dos amores da vida. Há que se viver, amar, sofrer pelo medo de que se acabe o amor. Amar, ainda que o medo faça sentir-se aviltada, desprezada, abalada, envergonhada, dolorosamente só. A gente anda precisando de sentir-se amada.

Num momento de abandono, conheci o desgosto do desespero.

Foi no meu tempo de menino.

Como a minha família vivia no interior, fui crescendo naquela Ibiúna dos anos setenta. Nada de fantástico acontecia do dia pra noite, havia pão e leite à porta das casas, ia-se a pé pra escola.

Ao ano, uma ou outra vez, havia acontecimentos marcantes, esses que não morrem. Porque os de mais idade haverão de rememorá-los, vez ou outra, entre um trago e outro. Seja um acidente automobilístico com pessoas muito queridas, seja um foguetório na madrugada porque houve quem dormisse com a vela acesa, seja quando um teco-teco fez pouso forçado numa estradinha. Talvez o fogo-fátuo subisse da várzea da represa. Até encrencasse a amante com um pulha desaforento.

Porque a vida vira, outro circo veio.

E teve lona subindo aos céus; macacos comendo banana em jaula forrada de palha; a me abundarem a saliva, coristas cosendo as suas malhas. Pra brincar de vagamundo, o picadeiro foi quintal.

Quando um do palhaços machucou o quadril, o ajudante do atirador de faca fez-se de palhaço. Em vão eu quis ajudar com as facas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de julho de 2022.

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