quinta-feira, 21 de julho de 2022

A ocupação

A ocupação

 

A gata não subiu na cama pra me acordar, queria agrado. Ela gosta que a sua cabeça seja coçada de leve, com a ponta dos dedos. Fecha os olhos, faz um ruído que parece um motorzinho, ronrona.

Assim como a gata, quando meu cérebro é massageado por ideias, a consciência produz felicidade.

Minha mente funciona sem parar, mas não me dedico a escrever o tempo todo. Vou explorando o que tenho pra contar.

Se não fecho os meus olhos enquanto me delicio com os caminhos que se abrem, que a história me posicione no que vai sendo contado.

Permito-me ser conduzido.

Não digo que o valor da história está na qualidade do que conto, eu valorizo o modo, o como a história se sustenta depois que a considero legível. Não a valorizo pelo que diz, mas pela leitura agradável.

Cabe a quem lê gostar ou não do conteúdo, a mim me cabe gostar do jeito que escrevi.

Esboços surgem, modifico-os. Eu altero, retifico, aprovo, abandono, retomo, faço o que entendo ser necessário para que a história contada tenha algum valor.

Não creio que histórias acabem, que tenham um ponto final, porque sempre haverá o que alterar. A perfeição é irrealizável, inatingível, uma vez que as histórias que conto são fruto das circunstâncias.

Dependem de alegrias, tristezas, estabilidade econômica, finanças duvidosas, noites bem dormidas, pesadelos recorrentes, barriga cheia ou frutas por comprar. Como estou influencia a escolha das palavras.

Pois é, a maneira como eu conto uma história depende da cachola, do estômago, do estado em que me encontro ao pensar e ao escrever o que tenho para contar.

Não me controlo, produzo algo ruim.

E algo sem valor me faz sentir o gosto amargo do fracasso. Porque remorso é instrutivo, reescrevo.

Achar maravilhosa a história pelas palavras impactantes, pelo canto dos sons, pelo encantamento das metáforas, pelo encadeamento das ideias, pela mão do artista que fica exposta em cena, como se um texto fosse fantoche. Ainda que adorável, é fantoche mal manipulado.

Quando mal contada, uma história é como a gata em cima da cama. Ela morde a mão que erra, porque toca onde não deve ou por exagerar no carinho. Exageros cansam, são exibicionismo; as dores suportáveis devem ser evitadas, pois viciam.

Soberba, presunção, arrogância, petulância e vaidade contaminam a minha visão do que escrevo, mas a história pode ser salva com ironia, humor, humildade, abnegação, empatia, ternura.

Quando escrevo, leio. Viro leitor e luto comigo. Pelo desejo de que a história sobreviva depois da primeira leitura, procuro equilibrar asco e afeição, lucidez e insanidade, nitidez e obscuridade, dor e prazer.

O meu ofício é contar histórias. Há problemas quando brincar com as franjas da colcha é bem mais divertido do que chegar ao ponto final. E saber que histórias têm garras não me consola nem me salva quando ronrono de volta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de julho de 2022.

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