quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Brotinho

 

Brotinho

 

O cansaço está instalado. Sinto-me cansado. O corpo, a mente, até a coluna, que canseira de dar dó. Curva-me um pouco no pescoço, e vejo unhas, vejo pés. Quão cansado me alcanço.

Que estúpido. O tédio é estúpido.

O cansaço espelha-me triste. Fatigado em estupidez. Enfatuado por aporrinhações. Pois triste, estúpido, entediado a olhar-me, como cansa estar à mercê do tempo.

Quero agora recontar os dias, ouvir o vento. Sim, o vento não para, insiste em silvar pelas frestas. Pelas mínimas frestas das janelas, pelos vidros das janelas, sua voz de sibila.

Abaixados os vidros, mesmo fechadas as janelas, tem esse assovio do vento que vai e volta, e isso aborrece mais um pouco.

Não quero papo. Sobre o tempo, não quero.

Com muita luz pra pouco calor, não puxarei a cortina. E quando não quero fazer, não faço. Ainda que a luz do sol continue na jornada pelos quadrantes do universo, a Terra gire, e a natureza nem se redima das estupidezes de ordem dita natural, não faço nada.

O universo não sabe de mim deitado na penumbra da sala. Sim, eu puxei a cortina porque a rotação do planeta não está na velocidade que mais me agradaria. Sim, estou decepcionado com a luz do sol, também com o cosmos todo. Penso que o universo poderia colaborar comigo e apressar o colapso entrópico, que há de haver daqui a zilhões de anos.

E a noção de ‘mais um pouco’, que pra mim agora é muito relevante, já que estou chateado comigo, suporto, e repasso que nem passa pela minha cabeça orar ao tempo.

Como indivíduo sujeito à passagem dos segundos, à revolução dos corpos celestes, às comichões biológicas de bem-estar e mal-estar, eu poderia, sem pensar no sol como parceiro, fechar os olhos.

Ora, não produzo energia sintetizando fótons, isso quem faz são as plantas e, arrisco o palpite, os plânctons dos oceanos.

Corrido o filó, material que mais enfeita que corta a luz do sol, penso nas possibilidades de ter mais o que fazer.

Desisto, pois não se faz necessário que eu diga que está frio. Afinal, é inverno. O que, de repente, me aborreceu foi o tempo. Da madrugada pra manhã e daí pra agora de tarde, tais viradas.

Como não sou de acessar redes sociais nem pertenço a grupos de bate-papo por celular, o frio chuvoso da manhã foi surpreendente. Tem ainda essa mudança pro sol gelado do céu limpo desde o almoço.

Deixo estar. Que a natureza me ignore por mais um pouco. Depois faço o que for. E pra cumprir só o que faço, não faço nada.

Penso, logo tento ser lógico. Tento seguir a lógica do eterno retorno. Que a natureza, o cosmos imenso, o universo ínfimo, tudo isso que eu vejo, toco, ouço, penso e sinto, tudo que me envolve, revolve, dissolve, isso faz crer em quem sou.

Sou quem?

Eu serei um broto careca desdentado a pedir à Fada do Dente que ponha tostões quando estiver sonhando comigo a revisar o que tenho feito durante esta vida de regressões em progresso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de agosto de 2022.

Nenhum comentário:

Postar um comentário