Careca
Parado à porta da cozinha, um homem observa
o quintal.
Com a mão esquerda no quadril, o braço forma
um arco que parece a asa de uma xícara. Segurada pela destra, a xícara tem café.
Gostoso de ser bebido devagar, pois exala um aroma tentador.
Aquele homem tem jeito de quem não gosta
de ser apressado. Não porque suas mãos encarquilhadas tenham manchas, o rosto exiba
rugas ao redor dos olhos e haja vincos em torno da boca. Sim, embora tudo indique
ter passado dos cinquenta, ele não sorri embasbacado com o sol nem tem cara de
contente por estar vivo.
Não dá uma de indiferente porque se ache
superior aos problemas. Finge não ligar pro mundo porque insiste que precisa acreditar
que leva uma vida simples, descomplicada. Não se aceita no papel de vítima de uma
sociedade corrupta, violenta, que mata pobres como quem dizima saúvas. Se não
toca trompete nem tem topete, não gesta culpas.
Um dia, faz anos, quando o cabelo no
cocuruto começou a cair de modo proeminente, não se recorda de ter duvidado de
si ou da decisão, sabe apenas que tem a cabeça raspada faz bem uma década.
Ou seja, fez-se careca pelas próprias mãos.
Uma vez, a primeira, usou a navalha que
fora do pai. E foi a única, porque se cortou e o sangramento muito o
impressionou. Hoje, seguro, raspa a cabeça uma vez por semana com um aparelho
descartável de três lâminas. Não teme a mão que não treme, raspa-se.
Se não nasceu predestinado a ser careca,
como escolheu sê-lo?
Vendo os tumultos na TV, pesando os
vinte centavos em questão, trabalhando por dois com o salário de um, digerindo
mal o comercial do meio-dia, rangendo os dentes dia e noite, afogando
carneirinhos a cada madrugada desesperada, esmagando pernilongos com patadas
sintomáticas, somatizando rancores de raízes cabulosas, recolheu-se.
Colocando-se à parte. Separando-se da
turba. Avesso às chusmas. Ansioso. Angustiado. Conhecendo-se em desespero. Com
o estômago a ponto de implodir em sangramento. Recolhido à sombra de si, fez-se
estranho de repente. Súbito, viu-se obrigado a mudar. Pra não perecer de uma
hora pra outra, fez-se outro.
Sem colete, sem bússola, sem farol, o
sujeito viu-se colhido por uma borrasca inesperada, avassaladora, assombrosa.
Diante da pessoa desconhecida que aflorou
durante a tempestade, querendo ver-se na face nova que brotou em meio ao toró,
procurando boiar à flor d’água, sem se debater por respostas a perguntas que nem
saberia formular, pra sobreviver mais um instante, pra seguir em frente, apesar
da lua, independentemente das marés, redescobrir-se naquele náufrago, sair do
mar, pisar a areia, passar pela praia, pra aprender a conviver com a maresia, encarecou-se.
Nada macambúzio nem sorumbático, o
encarecado que toma café na xícara pirex está convicto de que não tem como
passar de hoje.
Quem vai ter que aparar a grama do
quintal será ele.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de julho de 2022.
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