terça-feira, 19 de julho de 2022

Defesa explícita

 

Defesa explícita

 

Dez e pouco da manhã, eu estou com a cabeça pousada nas mãos, sem pressa pra lidar com e-mails. Tenho tempo, é segundona.

Muita gente não gosta das segundas-feiras, todas elas. Depois do descanso que o domingo proporciona, melhor nem lembrar que terá o chefe exigindo celeridade nisso, naquilo, em tudo mais.

A mágica acontece. Não é justo reclamar, pois domingo é bom com chuva na praia ou sol de alucinar calango à sombra. Sem correrias nem pagamentos, ter um dia pra deixar pra depois o que quer que seja.

Pra muita gente a semana começa na segunda, o domingo fique de fora do tempo útil. Há que se tirar um dia para não fazer nada que tenha utilidade, uma vez que são gratuitos o bem-estar, o prazer, a alegria. E o que faz feliz a mente, recarrega o corpo.

Não é o meu caso, pois gosto das segundas justamente porque sou fã de procrastinações. Vivo cada dia. Procuro viver um dia de cada vez, mas defendo o direito a adiar um segundo. Nada que seja preocupante, doentio. É que tirar um cochilo não faz mal algum a quem administra o tempo sem revelar fantasmas em lençol no varal.

Em outras palavras, quem não gosta de segunda não precisa gostar mais do sábado ou bater-se pela vagabundagem aos domingos.

Tendo tempo, é bom aparar a grama do quintal. Numa segunda não vai dar, mas num domingo... Que achado!

Confesso que não sou muito bom cumpridor de promessas. Gosto de prometer o que possa ser usado contra mim. Tenho essa queda pelo que avilta, e me reduza, à ameba, que se autoduplica sem esforço.

Acho que uma ameba não se esforça quando vira duas.

A preguiça me faz gostar da ideia de ser irresponsável enquanto o relógio me permitir. Sem culpa, fico à toa.

Sou melhor quando não me pressiono a ter expectativas.

Queria ser uma pessoa menos ordinária, mas tenho cócega. Se me coço, eu rio. Tenho facilidade para rir, gargalho. Emendo que gargalhar faz bem, é terapêutico e não espalha ódio.

Sou incapaz de desejar que chova no domingo só pra azarar quem adora andar de bicicleta com a família. Daria vexame se atirasse pedra no telhado de quem brinca com o cachorro na rua sem carros.

Sei que eu não preciso agradecer a quem passeia de bicicleta como se a vida fosse perfeita aos domingos, mas trato a segunda-feira como uma ponte pro ócio a quem não perde tempo quando descansa.

Não odeio quem me chama de traste, só ignoro.

Basta? Volto à luta e abro minha caixa de e-mail.

Apago o lixo de sempre. Aprecio as mensagens de quem me deseja uma boa semana, mesmo o bom-dia de praxe. Entretanto, alegra meu dia e torna menos enfadonha a minha semana, quem me dá um singelo OLÁ. Sem mais nada, simplesmente OLÁ.

O que você está pretendendo com esse OLÁ, hein. Só pode ser pra me deixar maluco de curioso. Que engraçado. Um OLÁ à solta, hein.

Pois fique sabendo que eu posso muito bem responder na mesma moeda. Assim seja. Mando pra você também, OLÁ!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de julho de 2022.


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